• Quarta, 29 de Julho de 2026

Ao lado de órgão de combate ao trabalho infantil, meninos têm "jornada" de 10h

Com autorização dos pais, garotos passam o dia vendendo doces

INEZ NAZIRA / CAMPO GRANDE NEWS


Menino de 12 anos abordando veículo no ponto de vendas (Foto: Paulo Francis)

Enquanto muitos adolescentes aproveitam as férias escolares para descansar, dois amigos, de 12 e 14 anos, passam até dez horas por dia entre os carros em um semáforo de Campo Grande vendendo jujubas e paçocas.

A situação chama ainda mais atenção por ocorrer em frente ao MPT (Ministério Público do Trabalho), órgão que atua no combate ao trabalho infantil. O ponto fica na Avenida Afonso Pena, no cruzamento com a Avenida Arquiteto Gil Rubens de Camillo, próximo ao Shopping Campo Grande. Ali, os adolescentes permanecem sob o sol, expostos ao fluxo intenso de veículos e aos riscos do trânsito.

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A rotina começa por volta das 11h e segue até as 21h, período que eles próprios reconhecem como mais perigoso. Mesmo assim, afirmam que prolongam a permanência no local para tentar aumentar as vendas. Segundo os adolescentes, as famílias autorizam a atividade. “Minha mãe deixa eu ficar aqui vendendo, mas sempre fala para eu tomar muito cuidado porque é perigoso', relata um deles.

O retorno à escola está marcado para 3 de agosto. Durante o período letivo, porém, eles dizem que continuam vendendo doces e tentam conciliar a atividade com os estudos.

Os dois também relatam que o Conselho Tutelar já foi acionado por pessoas que passam pelo cruzamento. Segundo eles, após as denúncias, deixam o ponto por alguns dias, mas depois retornam. “Muita gente denuncia a gente. Hoje mesmo alguém denunciou, então provavelmente vamos ficar uns três dias sem vir para cá. Depois volta ao normal', afirma um deles.

Os adolescentes dizem arrecadar entre R$ 300 e R$ 400 por dia. “Para nós é bastante', afirma o garoto de 14 anos.

Um deles conta que divide o dinheiro com a mãe. “Metade fica para ela e metade para mim. Com a minha parte eu compro alguma coisa, como comida, uma camiseta, ou arrumo meu celular.'

O outro afirma que o pai guarda os valores arrecadados para a compra de uma bicicleta. “Não sei quanto já tem. Quando der, meu pai vai comigo à loja', conta.

Apesar das abordagens relatadas, os adolescentes afirmam que nunca foram impedidos diretamente por policiais de vender os doces. Segundo eles, quando viaturas passam pelo cruzamento, costumam oferecer jujubas aos militares e recebem brincadeiras em resposta.

A reportagem procurou a Prefeitura de Campo Grande, por meio da SAS (Secretaria Municipal de Assistência Social), e o MPT para saber quais medidas são adotadas em casos de trabalho infantil nos semáforos da Capital, se a situação dos adolescentes já havia sido comunicada aos órgãos e quais procedimentos são realizados após as denúncias. Até a publicação desta reportagem, nenhum dos órgãos havia respondido aos questionamentos.

Esse caso foi sugerido por leitor que enviou mensagem pelo canal Direto das Ruas.



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