• Sábado, 27 de Junho de 2026

Capitão de Cabo Verde na Copa é investigado por estupro de uma brasileira na Nova Zelândia

Denúncia feita à polícia contra Ryan Mendes tem fotos de hematomas e relatório médico registrando lesões na brasileira, que foi intérprete de Cabo Verde durante amistosos em março na Nova Zelândia

GLOBOESPORTE.COM / CAMILA ALVES


Ryan Mendes, capitão de Cabo Verde, em jogo contra a Arábia Saudita na Copa do Mundo — Foto: Rico Brouwer/Getty Images

Atenção: esta reportagem contém dados sensíveis sobre violência sexual.

O atacante Ryan Mendes, capitão da seleção de Cabo Verde na Copa do Mundo, é investigado pela polícia da Nova Zelândia em denúncia de estupro feita por uma brasileira (que terá o nome preservado nesta reportagem). O caso ocorreu em março, no hotel onde a equipe cabo-verdiana estava hospedada para a disputa de amistosos na Oceania, e está sob investigação desde 10 de abril.

O ge teve acesso a fotos de hematomas que foram entregues à polícia, ao registro da denúncia e ao relatório médico da clínica que deu assistência à brasileira, com exames e atendimento psicológico após o ocorrido. A brasileira estava no local contratada pela Federação Neozelandesa de Futebol como intérprete para a delegação de Cabo Verde, cujo idioma oficial é o português, e apoio operacional da seleção durante o Fifa Series.

A reportagem procurou a família da brasileira, representantes de Ryan Mendes, a polícia, a Federação de Futebol da Nova Zelândia, a Federação de Cabo Verde, a Fifa e advogados que conhecem o trâmite jurídico no país.

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Segundo a denúncia, o caso ocorreu em 27 de março deste ano, no hotel onde a delegação de Cabo Verde estava hospedada em Auckland, na Nova Zelândia. A equipe participava do Fifa Series, que são amistosos disputados por seleções de diferentes confederações.

Em março, houve jogos do Fifa Series em oito países diferentes. A seleção de Cabo Verde atuou na Nova Zelândia e disputou duas partidas: derrota para o Chile por 4 a 2, no dia 27, e empate com a Nova Zelândia por 1 a 1 (com vitória nos pênaltis por 4 a 2), no dia 30.

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A brasileira, que vive na Nova Zelândia com visto de residência e trabalho, fez parte do evento contratada pela Federação Neozelandesa como intérprete e apoio operacional da seleção de Cabo Verde. Ficou, por isso, hospedada no hotel da delegação, de plantão 24 horas à disposição da equipe.

Ela relatou à polícia que após o primeiro jogo, contra o Chile, foi convidada para uma reunião em uma das salas reservadas à seleção no hotel e compareceu imaginando que seria necessário atuar como intérprete.

Observou, porém, que se tratava de uma confraternização e voltou para o seu quarto ao se sentir fisicamente mal. Relata que pouco depois ouviu batidas na porta do quarto e abriu, pensando se tratar de uma solicitação de apoio do trabalho.

Foi neste momento, segundo a denúncia, que Ryan Mendes entrou no quarto, agrediu-a fisicamente, com esganaduras, socos e mordidas, à medida que ela tentou se defender, e a estuprou.

A brasileira, ainda no hotel, fotografou lesões visíveis, como cortes na boca, hematomas no pescoço, na perna e na lateral do corpo, que foram vistas pelo ge. As imagens que a identificavam foram preservadas pela reportagem.

Atendida em uma clínica que auxilia sobreviventes de violência sexual, a brasileira foi submetida a exame forense. O relatório médico identificou múltiplas esquemoses (ou manchas roxas) nas mamas, no pescoço e nos lábios, além de áreas de sensibilidade no couro cabeludo e nas nádegas.

No exame genital, há o registro de "duas lesões circulares, dolorosas à palpação, na base dos pequenos lábios". Após a assistência da clínica, que ainda presta atendimento psicológico a ela, a brasileira fez o registro de ocorrência policial e passou por uma perícia na delegacia. Ela relata que procurou a Federação Cabo-Verdiana de Futebol, mas não obteve apoio.

Procurada pelo ge, a polícia da Nova Zelândia confirma o inquérito em andamento. Por leis rigorosas de privacidade do país, não se posiciona sobre nomes de acusados.

– A Polícia da Nova Zelândia confirma que uma denúncia está sendo investigada, registrada em 10 de abril de 2026 na região central de Auckland. Não podemos fornecer mais informações neste momento.

O ge apurou que a polícia colheu imagens das câmeras de segurança do hotel e aguarda o laudo pericial dos exames de corpo de delito, realizados há três meses, para fechar o inquérito. Ao fim dessa investigação, a polícia vai decidir se oferecerá a denúncia à justiça.

Uma advogada criminal consultada pela família diz que esse procedimento, de análise dos exames, pode durar até seis meses.

Ao mesmo tempo, a brasileira e o marido enviaram, no dia 10 de maio, notificações extrajudiciais à Federação de Cabo Verde e à Fifa, com o relato, provas e um pedido de punição: a não participação do jogador na Copa. No dia 20, preencheram o formulário de Safeguarding da Fifa, usado para denúncias. Relatam, porém, que não receberam resposta.

Ryan Mendes, de 36 anos, atua no Igdir FK, da Segunda Divisão da Turquia, e foi titular de Cabo Verde nas três partidas da fase de grupos na Copa de 2026. A seleção africana ficou em segundo lugar no Grupo H e se classificou à segunda fase. A adversária será a Argentina, na sexta-feira, em Miami.

A Federação Neozelandesa de Futebol, que sediou o Fifa Series de março com a participação da seleção cabo-verdiana, limitou-se a dizer:

– Entendemos que este assunto está com a Polícia da Nova Zelândia, então eles seriam mais apropriados para comentar a situação.

A Fifa, para a qual a família da brasileira enviou uma das notificações extrajudiciais, disse que não comenta o caso.

A Federação Cabo-Verdiana de Futebol, por sua vez, não se posicionou até o momento desta publicação.

O ge enviou cinco e-mails para os três endereços disponíveis no sistema da Fifa e no site da Federação Cabo-Verdiana, sem nenhuma resposta. O assessor de imprensa disse não ter informações e afirmou que a resposta precisaria vir dos e-mails institucionais.

O ge procurou mais três funcionários que estavam cientes do caso, segundo prints de conversas com a brasileira após o ocorrido. Só um deles respondeu: Gerson Melo, então Diretor de Desenvolvimento, para dizer que não faz mais parte da federação e que não esteve na Nova Zelândia na comitiva.

A reportagem também procurou pessoalmente o assessor da federação em Houston, depois do jogo contra a Arábia Saudita. Ele informou que a entidade não comentaria a denúncia.

O ge procurou ainda o empresário do atacante e ainda não teve resposta. Em caso de retorno, esta reportagem será atualizada.

O trâmite jurídico

O ge consultou o guia do Ministério da Justiça da Nova Zelândia e o advogado especialista em direito internacional Mauricio Ejcher para explicar o trâmite jurídico no país da Oceania. Segundo a lei neozelandesa, uma condenação por violência sexual pode resultar em prisão de até 20 anos, de acordo com a gravidade do caso.

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Na ordem cronológica, a polícia investiga, decide se tem provas suficientes para apresentar acusação e, se sim, o caso vai a julgamento na Corte Distrital. Os casos criminais, na Nova Zelândia, são julgados por um juiz singular ou por um grupo de júri.

O advogado de acusação, por sua vez, representa a Coroa do país, o público, e as informações que apresenta são baseadas no caso preparado pela polícia. Quem denuncia participa como testemunha.

– O processo judicial tem quatro partes: a administração, para juntar e organizar documentos, a revisão prévia com participação do juiz, o julgamento e a sentença. Cabe uma apelação só, na corte superior, que é regional – explica Mauricio Ejcher.

Em um caso que precise envolver extradição do acusado, caso a polícia ofereça denúncia e decrete prisão, há duas possibilidades: colocar o nome na Interpol, e a pessoa pode ser parada em qualquer fronteira ou país, ou solicitar a extradição através de pedido de cooperação. A Nova Zelândia não tem acordo de extradição com Cabo Verde.

Quem é Ryan Mendes

Ryan Mendes é atacante, tem 36 anos e atua pelo Igdir FK, da Segunda Divisão da Turquia Antes, passou por Batuque, de Cabo Verde, Le Havre e Lille, da França, Nottingham Forest, da Inglaterra, Al-Nasr e Al Saharjah, dos Emirados Árabes, e outros três clubes da Turquia. Ele está na Copa do Mundo pela estreante seleção de Cabo Verde e antes do Mundial disputou quatro edições da Copa Africana de Nações (2013, 2015, 2022 e 2024).



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