• Sexta, 30 de Outubro de 2026

"Vi meu filho desabar": Cain Velasquez relata trauma familiar e dia em que foi preso

Ex-campeão do UFC, que hoje está em liberdade condicional, diz que suspeito de abusar de seu filho foi solto após denúncia e explica o que o levou à perseguição que terminou em sua prisão

GLOBOESPORTE.COM / COMBATE.COM


Cain Velasquez no programa Shawn Ryan Show — Foto: Reprodução/YouTube

O ex-campeão peso-pesado do UFC Cain Velasquez está em liberdade condicional há oito meses, e nesta semana entrou em detalhes sobre o que aconteceu no dia 28 de fevereiro de 2022, quando acabou preso após uma perseguição em alta velocidade na Califórnia. Naquele dia, ele tentou atirar num veículo onde estava Harry Goularte, acusado de abusar sexualmente do filho de Velasquez.

Em agosto de 2024, Velasquez se declarou inocente das acusações, incluindo tentativa de homicídio, e depois foi condenado a cinco anos de prisão. Ele obteve a liberdade condicional em fevereiro deste ano, após ter cumprido parte da pena em prisão domiciliar e depois na prisão. Em entrevista ao programa Shawn Ryan Show, Velasquez relembrou a história, ainda antes do episódio que terminou na sua prisão.

- Uma noite, coloquei meu filho para dormir e ele começou a me contar coisas que estavam acontecendo com ele na creche. Então, comecei a fazer perguntas sobre o que tinha acontecido. Ele me contou. Perguntei há quanto tempo aquilo vinha acontecendo. Ele disse que já fazia um tempo. Então fizemos o que deveríamos fazer. Fizemos uma denúncia, chamamos as autoridades. Eles apenas registram tudo, iniciam o processo, e eu entendo que existe um plano divino e existe também um plano terreno, com leis que precisamos seguir aqui na Terra. As leis de Deus são um pouco diferentes, mas você precisa agir de acordo com as leis daqui - disse o lutador, segundo reportagem do site "MMA Fighting".

- Então fizemos tudo da forma correta. Fizemos a denúncia e tudo mais. Ficamos sabendo que o filho do homem de 40 anos, Harry Goularte, trabalhava lá, e foi essa pessoa que meu filho apontou como responsável por tudo isso. Perguntei: "há outras crianças envolvidas?" E meu filho respondeu: "Sim, outras crianças. Sim". Então, depois da denúncia, ele foi preso, mas saiu na sexta-feira daquela mesma semana. Saiu na sexta-feira sem tornozeleira eletrônica, sem nada. Sexta-feira, no fim do dia. Como os órgãos responsáveis não funcionam no fim de semana, ele ficou dois dias solto sem qualquer monitoramento. Não voltou para a creche, que funcionava em uma casa, mas foi isso que aconteceu.

- Ver meu filho e ver todos os traumas vindo à tona agora que ele revelou tudo aquilo. Ver aquela dor nele, vê-lo desabar em lágrimas. Ele colocava tudo para fora, chorava e tudo mais (...). Sabia que na creche, a mãe e o padrasto que a administravam estavam envolvidos. Eles permitiram que tudo acontecesse, então pensei: "Eles também são culpados". Durante o período em que frequentava a creche, ele entrava, ficava com as crianças e depois as levava para o banheiro, enquanto elas saíam chorando e tudo mais, e eles simplesmente deixavam aquilo acontecer. Mais tarde, tivemos informações de que o pai vinha fazendo isso há muito tempo'.

Velasquez e sua família se sentiram traídos, não apenas pela creche, mas também pela comunidade. Segundo ele, pessoas sabiam do suposto comportamento de Goularte e não fizeram nada para impedir. Num dia, a família organizou um passeio para distrair o filho dos acontecimentos recentes, mas tudo terminou de outra forma.

- Era uma segunda-feira. Tínhamos levado meu filho ao zoológico para distraí-lo, tirar a cabeça dele daquilo tudo. Acreditávamos que a creche seria fechada, mas então a proprietária da creche, Patty Goularte, enviou um e-mail para todos os pais e manteve a gente na lista de destinatários, sem nos remover, dizendo: "não, essas acusações são falsas. Essa criança nem estava aqui naquele dia", e afirmando que a creche abriria normalmente na segunda-feira. Tecnicamente eles nem poderiam fazer isso, mas aquilo simplesmente explodiu minha cabeça. Pensei: "fizemos tudo isso e mesmo assim nada vai parar isso? Que absurdo".

- O sistema é horrível. Está quebrado. As pessoas não sabem o que estão fazendo. Então todas essas coisas começaram a passar pela minha cabeça. Quando voltamos do zoológico, pensei: "preciso dar uma volta de carro". Eu estava armado naquele momento e tinha pensamentos como: "queria encontrar esse cara", mas quais seriam as chances disso acontecer na rua? Eu nunca o tinha visto em público antes. Mas naquele dia eu o vi.

Velasquez relata que chegou a parar e buscar ajuda espiritual, mas decidiu seguir em frente com seus pensamentos.

- Eu os vi. Tive outra conversa com Deus e pensei: "Deus os colocou na sua frente. E agora?" Então respondi: "Deus, o Senhor sabe o que vou fazer. Faça com que o resultado seja o que o Senhor quiser, mas sabe exatamente o que estou prestes a fazer". Eu os segui e eles foram buscar Harry... e perdi completamente o controle. Seja lá o que significa estar consciente de si mesmo, deixei de estar. Perdi a vontade de viver. Não me importava morrer, não me importava com mais nada. Eu estava em outro estado mental naquele momento. Não estava agindo dentro dos parâmetros do que chamamos de vida normal. Eu estava em outro lugar. Então fiz o que fiz.

Velasquez iniciou uma perseguição de carro e disparou enquanto os veículos trafegavam pelas ruas. O padrasto de Goularte foi atingido por um tiro.

- Foram cerca de 18 quilômetros de perseguição enquanto eu atirava neles. Todos eram culpados, então qualquer um deles poderia ter sido atingido. Olhando as fotos da cena hoje, a caminhonete deles ficou cheia de marcas de bala. Foi nesse nível. Só acertei o padrasto, que fazia parte daquilo, e atingi o braço dele. Poderia ter sido muito pior, mas não foi. Quando vi a cena depois, pensei: "uau". Qualquer um deles poderia ter sido atingido. Era isso que eu pretendia.

- Então foram 18 quilômetros de perseguição e dois carregadores de munição. Houve momentos em que paramos no trânsito, com policiais por perto, e pessoas inocentes poderiam ter sido atingidas. Eu tentava evitar isso, mas eu não estava raciocinando normalmente. Entendo hoje que poderia ter ferido muitas pessoas que não tinham nada a ver com o caso. Depois disso fui preso naquela mesma noite.

Harry Goularte respondia a acusações de abuso sexual infantil na época do incidente, ocorrido em fevereiro de 2022. A situação atual do processo não é conhecida. Desde a prisão do lutador, ele acabou cumprindo nove meses preso na cadeia, enquanto cumpriu outra parte maior na prisão domiciliar.

- Fiquei lá nove meses e depois consegui liberdade condicional. Foram nove meses de isolamento, mas sabia que aquilo fazia parte do meu caminho. Por alguma razão, sabia quem estava no controle final de tudo. Sabia que aquilo seria para o meu crescimento, então não deixei que me destruísse. Não enlouqueci lá dentro. Me sentia protegido, guiado. Sabia que aquilo tinha um propósito maior. Não sabia qual, mas já naquele primeiro dia as pessoas descobriram o motivo de tudo aquilo. Isso uniu muitas pessoas. Tornou mais fácil falar sobre certos assuntos, sobre experiências de vida e traumas que elas também haviam vivido. Por isso, passei a enxergar aquele isolamento como uma bênção disfarçada.

- Pensei: "você já esteve no topo, já esteve no fundo do poço, já viveu tantas coisas. Quando alguém tem a oportunidade de experimentar uma verdadeira solidão, a menos que seja um monge?" Aprender a estar confortável consigo mesmo, independentemente do que exista ao seu redor. Eu não tinha nada, apenas aquelas quatro paredes e aquele pequeno quarto. Ficava ali 21 horas por dia. Tinha três horas para tomar banho, ver um pouco de televisão e me movimentar. Fora isso, eu era meu melhor amigo, e precisava ser. Assim que entrei, fiquei um pouco claustrofóbico, me sentindo como um rato preso numa gaiola. Então, disse a mim mesmo: "não. Você não vai passar por isso dessa forma. Vai aprender a ficar confortável aqui e agora. Essas quatro paredes estão te cercando, mas tudo o que você acabou de viver e aprender precisa ser colocado em prática neste momento". E, a partir daí, minha visão sobre a vida se tornou muito mais especial e profunda.



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