• Segunda, 21 de Setembro de 2026

Mauro Júnior, novidade na Seleção, previu convocação quando virou lateral: "Sou muito esforçado"

Lateral-esquerdo do PSV, uma das caras novas de Ancelotti, conta quais são suas características, aborda sondagem da seleção holandesa e desmente história de que já jogou pelo Vasco

GLOBOESPORTE.COM / CAHê MOTA E FRED GOMES


Mauro Júnior em ação na vitória por 4 a 3 do PSV sobre o Utrecht — Foto: ANP via Getty Images

"Acredito que cheguei onde estou pelo meu esforço".

Cara nova do Brasil de Carlo Ancelotti, o lateral-esquerdo Mauro Júnior, do PSV, foi uma das grandes surpresas da lista do italiano. Mesmo em uma liga de menor visibilidade dentro da Europa, brilhou, foi notado, e agora tem o objetivo de se manter na seleção brasileira, que inicia mais um ciclo com amistosos nas próximas semanas. O paulista de 27 anos, em entrevista ao ge, indicou que a dedicação pavimentou o caminho rumo ao ápice com a convocação.

+ Quem é Mauro Júnior? Conheça lateral-esquerdo convocado para a seleção brasileira

- A realidade do que eu vivo hoje é porque eu sou muito esforçado. Então, eu acredito que pelo meu esforço, pela minha dedicação, eu cheguei aqui onde eu estou hoje. E não é à toa que eu estou há nove anos aqui no PSV, eu acho que foi muito pela minha dedicação, sabe? Porque chegou um momento da minha carreira em que o meu talento meio que igualou com o de todo mundo, e pela dedicação eu consegui me manter nesse alto nível que eu estou até hoje.

Mudança de meia para lateral

Esforço teve de sobra, mas sorte também. Mauro Júnior virou lateral-esquerdo por acaso. No delicado período da Covid-19, era comum jogadores virarem desfalque constantemente devido à pandemia que o mundo enfrentava. Quando Philipp Max, então titular, foi diagnosticado com o vírus em 2021, o técnico Roger Schmidt fez a improvisação do jovem canhoto de 22 anos. Mauro primeiramente torceu o nariz, depois gostou e não largou mais a posição.

- Eu era um meia muito ofensivo, né? Desde a base, sempre gostei de jogar de meia. Aí eu cheguei no PSV, me colocaram um pouco de extremo também, aí comecei a jogar meio que de extremo e meia. E aí nessa vinda do Roger aqui, a primeira temporada, eu acabei jogando de extremo no lado esquerdo e sendo canhoto, o que é um pouco mais difícil. E aí na segunda temporada acabou que um jogador, Philipp Max, lateral esquerdo, nossa, pegou Covid, a gente não tinha nenhum lateral-esquerdo no banco.

Como vinha pulando de posição em posição sem se firmar nos primeiros anos de PSV, a mudança de ares já era pensada como a melhor saída até que surgiu a brecha deixada por Philipp Max.

- E como eu estava jogando na esquerda, ele quis me experimentar do lado esquerdo e acabou que eu topei, né? Porque eu estava passando por um momento difícil no clube em questão de minutos. Acabou surgindo essa oportunidade na esquerda, e eu fui o melhor em campo já no primeiro jogo que a gente fez como lateral-esquerdo. Eu estava quase saindo do PSV nessa época também.

- E aí o treinador me prometeu: "se você performar desse mesmo nível que você performou nesse jogo, vou querer que você fique e vire meu lateral-esquerdo titular". E foi aí que eu me tornei lateral-esquerdo. Para mim foi um pouco difícil aceitar no começo virar lateral, mas depois desse jogo ele também me passou bastante confiança, eu senti que de lateral eu poderia atingir um nível muito maior do que jogando de meia e extremo.

Sim ao Brasil, não à Holanda

Hoje confortável na posição, Mauro lembra que profetizou a futura convocação mesmo sem saber que a adaptação não seria nada fácil (leia mais sobre na área dos outros tópicos).

- Depois do meu primeiro treino como lateral-esquerdo, eu falei para o meu empresário: "Pô, eu acredito que de lateral-esquerdo eu consiga chegar na Seleção (risos)".

Se a lateral não foi uma escolha, Mauro teve de tomar decisão importante quando a federação holandesa começou a sondá-lo para jogar pela seleção do país meses depois de decolar na nova posição.

- Houve contato da Holanda antes para saber se eu tinha interesse, mas desde o começo, eu sempre quis jogar pela seleção brasileira. Eu cresci no Brasil, moro há muito tempo aqui na Holanda, porém eu sou brasileiro, e vestir a camisa amarela é outra história. Só brasileiro sabe o peso disso. Então, a federação me contatou, perguntando se havia o interesse. Porém, o que me fez tomar essa decisão foi que eu teria que desistir do meu passaporte brasileiro. Então, principalmente isso também me fez tomar a decisão de não aceitar esse convite.

Além das questões burocráticas e mesmo com a seleção brasileira como um sonho distante à época, o atleta nunca quis abdicar da possibilidade de vestir a Amarelinha. Por outro lado, entende que também poderia não ser bem recebido por novos companheiros no caso de uma eventual naturalização.

- E maior que isso é o sonho de jogar pela seleção brasileira. Claro que no momento em que houve o interesse (da Holanda) eu estava, talvez, um pouco distante da seleção brasileira. Mas esse sonho de criança de vestir a camisa da Seleção é uma coisa que não tem como explicar.

- Eu convivi com muitos jogadores holandeses aqui que estão na seleção holandesa hoje. Me dou até muito bem com eles, porém é uma cultura totalmente diferente. Estar no meio dos holandeses como brasileiro não sei se também seria uma coisa legal para mim. Porque eu tenho outra mentalidade, outro estilo de vida, outro perfil. Então, acredito que esse seja um dos motivos das decisões que tomei no passado.

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Você já jogou Champions, mas o Campeonato Holandês não é muito visto no Brasil. Qual é o perfil do Mauro Júnior jogador em campo?

- Eu sou um lateral, como o Ancelotti falou, bem ofensivo. Gosto bastante de atacar os espaços, tanto fazendo overlapping (ultrapassagem) quanto por dentro. Também gosto de jogar por dentro. No sistema em que hoje a gente joga aqui no PSV, o treinador gosta que o lateral vá por dentro e crie essa surpresa, gerando um meio-campista a mais para a construção. E, cara, graças a Deus nos últimos anos, principalmente a última temporada, eu consegui dar bastante assistência (11 em 37 jogos) e contribuir com muitos gols. Acredito que essas são as minhas qualidades, e eu nunca desisto de cada jogada, eu sempre dou o máximo de mim em campo para que a equipe saia com a vitória.

A lateral esquerda da Seleção é peça muito importante na engrenagem, porque o jogador da posição por vezes precisa se adaptar para permitir que Vini seja protagonista, como Ancelotti quer. Está pronto para se adaptar a isso?

- Cara, com certeza, um jogador como o Vini, com as qualidades que ele tem, pode decidir uma partida. É óbvio que eu, estando por trás, tenho que fazer as melhores escolhas, sendo ofensivas ou defensivas. Mas tendo o Vini jogando na minha frente, eu darei o meu máximo para que ele possa se sentir à vontade em campo, para que ele possa desempenhar o seu futebol, que ele já mostrou nos últimos anos que é de alto nível.

- Mas, claro, no que eu puder ajudar ofensivamente, eu estarei dando todo o apoio. E no que eu precisar dele defensivamente também, eu terei que, talvez, cobrá-lo. Vou estar atrás dele ali dentro de campo para que nós possamos trabalhar juntos. E, claro, acredito que a equipe acaba ganhando jogos e ganhando campeonatos. Então, a gente precisa de todo mundo e todo mundo está disposto a se sacrificar também.

Sabe-se que, apesar da renovação proposta por Ancelotti para o próximo ciclo, há muitas posições preenchidas. A esquerda realmente está em aberto pela idade do Douglas Santos e pelo fim do ciclo do Alex Sandro. Como encara tal panorama?

- Essa oportunidade que eu estou tendo é única. Eu sonho em jogar uma Copa do Mundo pelo Brasil. Eu vou dar a minha vida, se precisar, para poder agarrar. Eu vejo esses três amistosos e também os treinos como um grande passo para mim, um grande objetivo e uma grande oportunidade para poder mostrar o que eu tenho de melhor, as qualidades que eu tenho. Eu tenho 27 anos hoje. Numa Copa do Mundo, eu estaria com 31. Então é o meu sonho, o meu objetivo, mas primeiro eu tenho que dar esse primeiro passo, que é chegar lá muito bem e poder mostrar o meu futebol. Eu acho que essa é a oportunidade que eu estou tendo hoje e, se Deus quiser, eu vou agarrá-la com muita força e poder performar o meu futebol da melhor forma para que eu possa permanecer lá.

Quais foram as maiores dificuldades de sair do meio para a lateral?

- O mais difícil foi me adaptar na questão de marcação, né? Que posicionamento de corpo e tal é um pouco mais complicado do que de meia. Com a bola é um pouco mais fácil, porque você joga de frente, tem um jogo aberto na frente, é um pouco mais fácil. E com a qualidade que eu tinha de jogar de lateral ficou mais fácil entre aspas. Só a questão defensiva mesmo ficou um pouco mais difícil.

- Mas agora eu já estou há quatro, cinco anos jogando de lateral, me sinto muito bem. Sinto que, é claro, eu tenho muito para evoluir ainda também. Mas eu me sinto muito mais à vontade. E eu lembro que depois do meu primeiro treino como lateral-esquerdo, eu falei para o meu empresário: "Pô, eu acredito que de lateral-esquerdo eu consiga chegar na Seleção (risos)". Porque a gente sabe como é ofensivamente a nossa seleção. É muito forte do meio para frente. E aí eu coloquei na minha cabeça que de lateral eu conseguiria chegar à Seleção, mesmo tendo muitos bons laterais, né?

A convocação veio. Como você reagiu ao saber primeiramente de que seu nome estava na pré-lista e depois como foi a reação ao chamado definitivo na coletiva do Ancelotti?

- Cara, sobre a pré-lista, foi falado para mim logo após o jogo do Ajax. Foi até engraçado porque a gente acabou o jogo, o treinador deu a palestra dele. E aí no final ele meteu o meu sobrenome na frente de todo mundo. Quem é Jaqueson Júnior Ferreira dos Santos? Aí, eu meio perdido falei: "Sou eu". E todo mundo em silêncio, assim, olhando, ninguém sabia de nada. E aí o treinador falou: "Parabéns, você está na pré-lista para a seleção brasileira". Nossa, foi a maior festa. Os jogadores me jogaram para cima dentro do vestiário. Claro que após uma vitória contra o Ajax fora também, que foi algo muito especial para nós e para o treinador, que nesses últimos três anos a gente não tinha vencido o time deles lá.

- E essa notícia para mim foi uma surpresa. Só de estar na pré-lista foi uma surpresa, né? Mas, claro, eu sempre tive essa esperança. E no dia da convocação, cara, eu estava nervoso. Eu estava assistindo aqui em casa, eu e minha esposa, à convocação. Tinha noção que eu estava na pré-lista, que o meu nome poderia estar lá. E acabou estando lá (risos). E, cara, foi um pouco de ansiedade e nervosismo ao mesmo tempo, mas foi uma sensação muito boa. De poder estar chegando na seleção brasileira e jogar com grandes jogadores do futebol mundial.

"Celular começou a explodir"

- Cara, no momento que o Ancelotti acabou falando meu nome, meu celular começou a explodir. Eu fiquei umas três horas recebendo ligações de todo mundo. Família, amigo, até gente que não contatava fazia muito tempo, que é uma coisa normal também. Eu e minha esposa estávamos sozinhos em casa, a gente comemorou bastante. Falei com os meus pais. Eles estavam assistindo, obviamente, também, porque eu tinha passado para eles. E foi um momento único na minha vida. Um sentimento único também, que é representar a nossa seleção brasileira. A gente sabe o quão grande é o Brasil, o quanto de jogadores de qualidade a gente tem, a gente tem disputando cada posição. E, para mim, é um privilégio estar entre esses primeiros 26 jogadores dessa primeira convocação após a Copa.

Por que recusou propostas sabendo que outros países poderiam te aproximar mais da Seleção?

- O que sempre me fez ficar aqui no PSV, e eu tive muitas oportunidades de sair já, foi por ser um baita clube na Holanda para poder jogar, uma baita oportunidade de estar jogando Champions League também nesses últimos anos. Mas o principal de tudo, cara, é que eu sou muito feliz aqui no clube e na cidade.

- Eu acho que isso é o que mais pesou, assim, na hora de tomar essa decisão de sair ou não. Eu sempre me senti muito à vontade aqui no clube, na cidade. Como brasileiro na Holanda e numa cidade estranha, eu sempre me senti muito feliz aqui. Esse foi o grande motivo de eu estar no PSV até hoje. Já tive várias oportunidades de sair e talvez para algumas vitrines que me trariam mais visibilidade, mas eu e meus empresários sempre acreditamos nesse projeto do PSV, e a gente sempre acreditou nessa convocação jogando pelo PSV. Ainda mais jogando Champions League, igual nesses últimos anos que a gente tem jogado. E, cara, o principal motivo de eu ficar nove anos aqui, como eu falei, é estar feliz aqui, cara, eu estou muito feliz. Minha esposa também está muito feliz.

E como é essa conexão do PSV com o Brasil, já que o clube teve tantos ídolos como

- "Tá" louco, a grandeza, principalmente do Romário, aqui é fora do normal. Todo lugar que a gente vai ou não sei o quê, vai na cidade, aqui no restaurante, todo mundo fala de Romário, que o Romário já passou, já comeu lá, já esteve lá, sabe? Então tem sempre essas histórias. E de conexão, Brasil e PSV, cara, é uma coisa de louco assim também, porque é um lugar que recebe muito bem brasileiros, gostam muito de brasileiros, graças também a essa geração do passado que passou por aqui e deixou esse legado na cidade, no clube. E, cara, é uma conexão que é difícil de explicar, sabe? A gente sabe muito bem que jogaram grandes nomes aqui, como Ronaldo, Romário, Gomes, Alex, Vampeta. O Gomes teve muito sucesso aqui, o Romário teve muito sucesso aqui.

Falando em Brasil, você saiu cedo daqui, mas na internet há registros de que você jogou no Vasco... É verdade isso?

- Eu nunca joguei no Vasco, acho que isso tem que ficar claro. Na internet está que eu tive uma passagem pelo Vasco, mas eu não sei quem editou, não sei quem realmente colocou isso na internet. Eu fiz a minha base toda no Desportivo Brasil desde os 14 anos até completar 18. E com 18 anos eu já vim para o PSV direto, então não tive passagem pelo Vasco. Joguei profissional pelo Desportivo Brasil, mas muito pouco, pela divisão A-3. Então fiz a base toda do Desportivo Brasil até 18, 18 já vim direto para o PSV. Não tive passagem pelo Vasco, que isso também fique claro para as próximas reportagens que forem sair.

Que jogadores reencontrará nesses amistosos que jogaram com você na base da Seleção e no ciclo olímpico para os Jogos de Tóquio?

- Eu conheço alguns jogadores que estão nessa lista de hoje porque eu também peguei a preparação para a Olimpíada com eles, né? Eu peguei sub-20 com o Vini, né? Eu peguei a Olímpica com o Gabriel Magalhães, com o Bruno Guimarães, com o Douglas Luiz também. Então, eu peguei também sub-20 com o Matheuzinho, com o Hugo Souza, do Corinthians. Então conheço muitos jogadores. E cara, a experiência de vestir a camisa do Brasil, como eu falei, na base já é uma sensação inexplicável. Agora, você imagina jogar pela principal como que não deve ser? Então, minha expectativa é bem alta para poder desempenhar o meu futebol.

Quem são seus ídolos no futebol e na posição de lateral-esquerdo?

- O meu ídolo de infância, começando assim, sempre foi o Neymar, porque eu vi o Neymar jogar desde a época do Santos, que era um futebol inexplicável também, uma qualidade absurda. Meu ídolo sempre foi o Neymar. E da posição eu sempre gostei muito do Roberto Carlos. Acredito que, olhando os vídeos dele de antigamente, era um lateral com muita qualidade com a bola, muita força, muita raça.

- É um lateral em quem eu me inspiro bastante. E eu assisti bastante também ao futebol do Marcelo. A gente sabe da qualidade técnica que o Marcelo tinha, a gente sabe da qualidade com a bola que ele tinha, que não é à toa que você fica tantos anos no Real Madrid.



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