Esportes
Frio, correntes e águas-vivas: entenda os riscos que Ana Marcela enfrentou no Canal da Mancha
Brasileira bateu o recorde sul-americano ao completar a travessia do estreito que separa a Inglaterra da França, o mais tradicional desafio de natação em águas abertas do mundo
GLOBOESPORTE.COM / JULIANA MOTTA
Ana Marcela Cunha precisou enfrentar desafios ainda maiores do que os 42,9km de nado contínuo ao atravessar o Canal da Mancha. Nesta quarta-feira, a campeã olímpica bateu o recorde sul-americano ao completar o percurso que separa a Inglaterra da França em apenas 8h25m29s. A travessia do Canal da Mancha é a mais tradicional de natação em águas abertas do mundo, sendo conhecida pela dificuldade. Além do longo trajeto, os nadadores precisam vencer adversidades como o frio intenso, águas-vivas e fortes correntes, usando apenas óculos, touca e maiô.
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Desafio mais tradicional de natação em águas abertas do mundo, atravessar o Canal da Mancha é um sonho de muitos nadadores profissionais, assim como era para Ana Marcela. O percurso é conhecido justamente por ser o mais difícil da modalidade. As primeiras dificuldades para o atleta que vai tentar a travessia são clima e tempo, já que vento, correntes marítimas e mudanças climáticas são imprevisíveis no local. Apesar de ter uma distância de 33km em linha reta, os nadadores costumam nadar por uma distância maior justamente para evitar a correnteza.
Normalmente, os atletas programam uma janela de dias possíveis para tentar realizar a prova, mas só descobrem se vão conseguir na hora. A brasileira, por exemplo, tinha entre 20 a 29 de julho para tentar atravessar. Na madrugada desta quarta-feira (22), as condições estavam favoráveis à travessia e Ana Marcela arriscou, com temperatura do ambiente em torno de 23ºC e temperatura da água em torno de 19ºC.
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Durante o percurso, os desafios não param. Com temperaturas normalmente entre 12°C e 16°C, o frio é uma das maiores dificuldades que os atletas enfrentam, principalmente porque é proibido usar roupas especiais na travessia, já que materiais como neoprene podem ajudar na flutuação e não contam para a homologação de recordes. Vestindo apenas uma touca, óculos e maiô, Ana Marcela utilizou a tática dos nadadores de aplicar uma mistura de vaselina e lanolina (produto natural extraído do lã da ovelha) na pele. Esses componentes atuam como isolante térmico, impermeabilizador e antiatrito, prevenindo assaduras e evitando a hipotermia.
Outro perigo bastante conhecido de atravessar o Canal da Mancha são as famosas "medusas", águas-vivas venenosas da região. As queimaduras causadas por esses animais podem ser extremamente dolorosas, obviamente atrapalhando a natação contínua no trajeto.
Por ser um longo caminho, o tempo e as condições do mar ainda podem mudar sem aviso prévio, fazendo com que os nadadores precisem se adaptar. Além disso, o tráfego intenso de embarcações no estreito também geram alerta.
Recorde sul-americano
Pensando em aproveitar a luz do dia no local, Ana largou às 1h (de Brasília) na praia inglesa de Dover, chegando por volta das 9h25 no litoral em Calais, na França. Ela completou o percurso de 42,9km em 8h25m29s, superando os então recordes sul-americanos de Ana Mesquita (9h40min, em 1993) e Adherbal de Oliveira (8h49min, em 2015).
Dona de 16 medalhas em Mundiais além do ouro olímpico de Tóquio, Ana Marcela colocou como objetivo desta temporada completar a tradicional travessia do Canal da Mancha. Um barco acompanhou a brasileira no trajeto. A bordo estavam Kafu (técnico da nadadora), Igor de Souza (guia brasileiro que é referência no Canal da Mancha), um barqueiro, um árbitro responsável pela homologação, um representante do Guinness World Records (livro dos recordes) e um videomaker.
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