Coronel Sapucaia
O mercado está com medo. Quem tem dinheiro deveria comprar?
RODRIGO GONçALVES PIMENTEL (*) / CAMPO GRANDE NEWS
O dólar voltou a subir, a Bolsa acumula quedas e o mercado tenta entender o que virá pela frente. Nesta terça-feira, o Ibovespa caiu mais 1,42%, enquanto o dólar se aproximou de R$ 5,50.
Em momentos assim, uma parte dos empresários prefere esperar. Suspende investimentos, segura o caixa, adia decisões.
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Outra começa a fazer exatamente o contrário.
Olha para empresas desvalorizadas, imóveis colocados à venda, participações societárias disponíveis e negócios que, até pouco tempo atrás, pareciam inacessíveis.
E aí surge uma pergunta que sempre provoca discussões.
Será que o melhor momento para comprar é justamente quando todo mundo está com medo?
Existe uma frase muito repetida no mundo dos negócios: grandes fortunas são construídas durante as crises.
Eu teria cuidado com ela.
Porque grandes fortunas também são perdidas durante as crises.
O mesmo ambiente que produz oportunidades extraordinárias pode esconder riscos que não aparecem no preço anunciado.
E aqui existe uma diferença importante entre o investidor que enxerga uma oportunidade e aquele que simplesmente se empolga com um desconto.
Imagine uma empresa que valia R$ 50 milhões e agora está sendo oferecida por R$ 25 milhões.
Para alguns, parece um negócio imperdível.
Mas por que ela perdeu metade do valor?
O mercado mudou? A empresa perdeu competitividade? Existe uma dívida que não aparece imediatamente? Os contratos continuam rentáveis? Os principais clientes permanecerão depois da venda? Há contingências tributárias, trabalhistas ou societárias?
Ou o proprietário simplesmente precisa de liquidez e está disposto a negociar?
Perceba que são situações completamente diferentes.
Uma empresa pode estar barata porque o dono precisa vender.
Mas também pode estar barata porque deixou de valer aquilo que se imaginava.
E comprar uma empresa pela metade do preço não significa fazer um bom negócio se ela vale menos da metade.
Como empresário, eu conheço a tentação de aproveitar uma oportunidade quando ela aparece. Quem empreende sabe que algumas decisões precisam ser tomadas rapidamente.
Mas, como advogado, aprendi também a olhar para aquilo que não aparece na fotografia da negociação.
Porque, muitas vezes, o problema não está no ativo que está sendo comprado.
Está na estrutura que vem junto com ele.
Uma participação societária pode trazer conflitos de controle. Uma empresa pode carregar passivos relevantes. Um imóvel pode ter restrições, obrigações ou disputas que alteram completamente seu valor econômico.
E mesmo quando o ativo é bom, a forma de adquirir pode transformar uma oportunidade em problema.
Comprar uma empresa não é necessariamente comprar apenas suas máquinas, seus contratos e sua carteira de clientes.
Dependendo da operação, você pode assumir obrigações, responsabilidades e riscos que sequer estavam na conversa inicial.
É por isso que, em determinadas negociações, a pergunta mais importante não é quanto custa comprar.
É quanto custará continuar sendo dono.
E existe outra questão que considero ainda mais interessante.
O mesmo negócio pode ser excelente para um empresário e péssimo para outro.
Uma indústria endividada pode ser uma oportunidade para um grupo que já possui estrutura, mercado e capacidade financeira para reorganizá-la.
A mesma indústria pode representar um desastre para alguém que precisará comprometer todo o seu caixa para concluir a aquisição.
Um imóvel desvalorizado pode ser interessante para quem consegue esperar anos pela recuperação do mercado.
Mas pode se tornar um problema para quem depende de renda imediata.
O preço é o mesmo.
O ativo é o mesmo.
O cenário econômico é o mesmo.
O que muda é a condição de quem está comprando.
E talvez seja justamente isso que parte do mercado esquece quando começa a falar em oportunidades durante momentos de turbulência.
Não basta identificar quem está vendendo.
É preciso compreender por que está vendendo, o que está sendo comprado e, principalmente, se você possui condições de suportar os riscos daquela decisão.
Também não acredito que esperar seja sempre uma demonstração de prudência.
Às vezes, esperar significa perder uma oportunidade que dificilmente aparecerá novamente.
Mas comprar apenas porque o mercado caiu pode ser tão irracional quanto deixar de investir simplesmente porque todos estão pessimistas.
O medo pode distorcer preços.
A euforia também.
E nenhum dos dois substitui uma análise séria.
Talvez por isso eu desconfie tanto de respostas prontas sobre o melhor momento para investir.
Há empresários que conseguem crescer justamente quando seus concorrentes recuam.
Outros preservam patrimônio porque resistem à tentação de comprar o que parece barato.
Os dois podem estar certos.
A diferença está na qualidade da análise, na estrutura financeira e na capacidade de suportar as consequências da decisão.
No fundo, existe uma pergunta que considero mais importante do que tentar descobrir se o mercado chegou ao fundo.
Se esse investimento não se recuperar no prazo que você imagina, sua estrutura financeira continuará saudável?
Porque uma oportunidade verdadeira não deveria depender exclusivamente de tudo dar certo.
Ela precisa fazer sentido também quando parte das expectativas não se confirma.
O mercado pode estar com medo.
Pode haver bons ativos sendo vendidos por preços interessantes.
E pode existir gente preparada para aproveitar esse momento
Mas também haverá quem confunda desconto com valor, coragem com imprudência e oportunidade com o desespero de quem precisa vender.
Talvez a pergunta não seja se chegou a hora de comprar.
A pergunta é se você está preparado para ser dono daquilo que pretende comprar.
(*) Rodrigo Gonçalves Pimentel é advogado (OAB/SP 421.329 | OAB/DF 68.003 | OAB/MS 16.250), empresário e corretor de imóveis (CRECI/MS 11.939). Sócio do Pimentel & Mochi Advogados e gestor da Todeschini MS e RP Imóveis. Foi Secretário de Governo e Presidente da Fundação de Cultura de Campo Grande.
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