• Quarta, 14 de Outubro de 2026

Rossi espera renovação no Flamengo e reflete sobre posição: "Convivemos com erros e temos de saber lidar"

Goleiro concedeu entrevista exclusiva ao ge e repassou fases no quarto ano vestindo a camisa do clube carioca e às vésperas de semifinal

GLOBOESPORTE.COM / EDSON VIANA E LUIZA Sá


Rossi, durante entrevista ao ge no CT do Flamengo — Foto: Luiza Sá/ge

Mil duzentos e um dias separam Rossi da data da chegada ao Flamengo até a véspera de mais uma semifinal de Libertadores. O goleiro, que precisou assumir a responsabilidade quase do dia para a noite em um ano ruim da equipe, 2023, chega à temporada atual tendo aprendido rapidamente o quão intensos os altos e baixos são no Ninho do Urubu. Contra o Santos, foi tido como vilão. Três dias depois, no clássico com o Fluminense, foi herói. Para ele, a tranquilidade demonstrada nos momentos mais críticos é um requisito para a profissão.

— Eu, pessoalmente, sou o que mais me cobra se tenho algum tipo de falha ou ação que talvez poderia ter feito melhor, mesmo que não seja gol. Se tem um passe no campo que poderia ser por fora e eu jogo a bola longa, por exemplo. Depois de cada jogo, nós, com o Thiago e o Fabinho (preparadores de goleiros), fazemos uma análise mais detalhada. Eles passam as ideias e pequenas coisas que podem melhorar para continuarmos evoluindo. Se deixarmos de trabalhar e evoluir, fica difícil progredir. Sempre tem que ter alguma coisa para melhorar porque não é fácil ser goleiro. Muita gente não entende — disse o argentino em entrevista exclusiva ao ge.

— Falam que os goleiros são doidos, né? Acho que para escolher ser goleiro tem que ter um pouco dessa cabeça tranquila, porque acaba sendo decisivo. Se nós, como goleiro, errarmos em uma jogada cedo no jogo, tem mais 90, 70, 50 minutos ainda. Tem que estar pronto para a seguinte ação e tentar esquecer o mais rápido possível. Depois do jogo se cobrar ao máximo, mas dentro do jogo manter a cabeça fria, porque o mais importante é a jogada seguinte, que pode definir muitas coisas — completou.

Em 2023, Rossi chegou apenas no meio do ano depois de assinar um pré-contrato com o Fla em janeiro. Apresentado em julho, só foi estrear em setembro, quando o técnico Jorge Sampaoli promoveu uma mudança no gol no meio da disputa da final da Copa do Brasil. O clube viveu a pior temporada dos últimos anos, mas o goleiro se firmou como titular para não sair mais. Por ter aprendido a lidar com o ambiente em ebulição na prática, ele acredita que esta seja a melhor maneira de entender o que é Flamengo.

— A melhor forma de demonstrar para alguém como é o ambiente é a cada três dias nos jogos. Seja no Maracanã com a nossa torcida ou fora, com os rubro-negros que acompanham muito e apoiam. Para quem chega de fora é até difícil se adaptar rápido porque jogando a cada três dias não tem tempo de treino, pegar as ideias do treinador, conhecer os companheiros e as movimentações. Acaba sendo mais complicado chegar nessa janela da metade do ano. Não te dá muito tempo para trabalhar e conhecer os jogadores. Tem paradas de Data Fifa, mas mesmo assim acaba perdendo atletas. Mas, com o tempo, cada jogador se adapta para ajudar ao máximo o Flamengo e o time.

— Para quem é goleiro, está acostumado. Não só no Flamengo, em todos os times do mundo acontece. Talvez aqui, pelo tamanho do Flamengo e como vivemos o Flamengo, ainda parece que se cobra mais. Mas eu, pessoalmente, não ligo muito para isso, porque em três dias tem outro jogo. Tem que tentar resolver, tentar continuar sem falhar, que é o que eu mais procuro. Nenhum goleiro quer falhar, mas acaba acontecendo. Aconteceu agora nos jogos da Liga das Nações, goleiros tops do mundo. Vou dar o exemplo do David Raya, melhor goleiro da Premier League, acabou levando um gol que nenhum goleiro quer tomar.

Renovação e naturalização

Rossi é um dos jogadores do Flamengo que estão na fila por uma renovação de contrato. O vínculo dele é válido até o fim do ano que vem. Tanto goleiro quanto clube já manifestaram a vontade de seguirem juntos em alguns momentos no passado. Ainda não há, porém, nenhuma ação mais concreta para isso. O argentino prefere tirar o foco do tema no momento, mas não esconde a vontade de ficar.

— Hoje em dia minha cabeça está nessa reta final da temporada. Óbvio que esse desejo sempre está aqui, tenho contrato até o final de 2027. Por enquanto algumas conversas já aconteceram, mas pontual, nada além do que se tinha falado. Por enquanto manter a cabeça no momento, tentar fazer o melhor. Conquistando coisas e sendo importante nesse final de temporada, essas coisas acontecem. Vou focar no lado esportivo que é o importante agora.

Um dos 10 estrangeiros do elenco, Rossi poderá buscar a naturalização a partir do ano que vem, quando completa quatro anos no Brasil. Para o goleiro, esse é o caminho natural depois da definição sobre a redução no número de estrangeiros não só no caso dele, mas também no de outros que também têm ligações com o país.

— Se o futebol brasileiro quer potencializar os jogadores de base, tem muitas opções para apostar. Tem o campeonato sub-23 que não sei se não deu certo, mas na Argentina acontece. Muitos jogadores dessa idade jogam nessa categoria por muito tempo para chegar mais prontos para jogar no profissional. Com respeito à quantidade de estrangeiros, muitos aqui que já têm filho brasileiro, têm anos de Brasil. Muitos estrangeiros no Brasil têm essa possibilidade de naturalizar para não ocupar a vaga, será mais um problema da organização dos clubes do que do futebol em si.

— Aqui somos 10 estrangeiros, Varela, Arrascaeta e Saúl têm filho brasileiro. O Erick também pode se naturalizar porque está aqui há quatro anos, eu no próximo ano também. Já são cinco. Muitos times têm a possibilidade de encontrar essa alternativa.

Reencontro na Argentina

A Argentina entrou ainda mais na rota do Flamengo nos últimos anos. Só em 2026, será a terceira vez do time no país e também a terceira em pouco mais de um ano que os cariocas enfrentam o Estudiantes, rivais desta quinta-feira, às 21h30 (de Brasília). Na classificação às semifinais em 2025 exatamente no Estádio Jorge Luis Hirchi, em La Plata, Rossi fez até promessa a Filipe Luís na época depois de falhar do gol adversário. Na disputa de pênaltis, defendeu duas cobranças.

— Eu pessoalmente tenho muita confiança quando tem disputa de pênalti. Me sinto confortável em uma situação assim em todas as disputas que tivemos. Acabamos sendo campeões do Carioca, teve ano passado com o Estudiantes, tivemos a disputa com o PSG na final que eu peguei um pênalti ainda. Mas isso aí tem o goleiro do outro lado, os batedores. É um conjunto de situações. Naquele momento senti que o time estava um pouco nervoso, poderíamos ficar fora da Libertadores depois de fazer um bom jogo no Maracanã e sofrendo lá. Senti que tudo daria certo e falei para o Filipe que eu falhei, agora te salvo. Foi só para ele e acabou dando certo. Em uma disputa de pênaltis, quem tem mais a perder é sempre o goleiro. Graças ao estudo que tínhamos dos pênaltis fizemos um bom trabalho — declarou.

No país natal, Rossi terá o apoio da família, que vai ao estádio para assistir à partida. O filho, Bauti, que tinha menos de um ano quando o pai chegou ao Brasil, fez aniversário nesta semana e vai comemorar por lá. Ele e o goleiro esperam que o presente seja em dobro.

— É óbvio que jogamos contra eles no ano passado e também neste ano na fase de grupos, mas cada partida é especial. O que passou foi nas quartas, esse já é em uma semifinal. Cada jogo é diferente e tem que ser encarado diferente do nosso lado. A diferença do ano passado para esse é que temos a possibilidade de decidir em casa. É tentar fazer um bom jogo lá para trazer a classificação ao Maracanã.

Veja outras respostas de Rossi

Volta para a Argentina

— Óbvio que é sempre bom jogar lá, matar um pouco da saudade do futebol argentino. Mas hoje em dia estou aqui jogando no Flamengo, no Brasil. Tem várias diferenças do futebol argentino, mas na Libertadores é muita competição, raça, uma competição dura que estamos nos preparando da melhor maneira para enfrentar essa semifinal da melhor forma possível.

Relação com o Estudiantes

— Eu estive lá por um ano e meio, depois fui emprestado ao Defensa y Justicia antes de ser comprado pelo Boca Juniors. Joguei só três jogos no profissional. Foi um time que apostou em mim quando eu era mais novo, tinha 19 anos, como uma aposta futura. Acabou não dando certo. Tenho boas lembranças de todo mundo que trabalha lá, a maioria continua. Tenho boa relação com todo mundo que esteve naquela época. É um clube familiar e muito bem organizado que sempre se preparou para estar onde está hoje em dia, disputando títulos na Argentina e brigando nas fases finais da Libertadores. Passaram muitas comissões, mas o preparador de goleiros que estava naquela época continua, os médicos, dirigentes, roupeiros, essas pessoas. Daquele período tiveram jogadores que foram e voltaram, como o Carrillo, o González Pírez, o Rojo. Tem vários conhecidos com quem tenho boa relação quando vejo eles.

Momento mais marcante da Libertadores em 2025

— Depois de levantar a taça (risos). Óbvio que ano passado foi difícil para nós, ainda mais como se deu a classificação na fase de grupos, no limite. Já começou a campanha sendo muito difícil jogando contra o Táchira e terminou também difícil na final em Lima só ganhando de 1 a 0 contra o Palmeiras. Se for falar de jogo especial, óbvio que vão ter momentos decisivos e especiais, mas a lembrança que fica é levantando a taça e comemorando o título pelo Flamengo. Teve a defesa no final contra o Táchira, que ainda não se sabe se estava impedido ou não. A definição contra o Estudiantes nos pênaltis ajudando o time a se classificar para as semifinais. E da semifinal contra o Racing, não só a defesa do final. Acho que foi mais importante para mim e para o time a defesa do primeiro tempo contra o Conechny, foi para deixar o jogo 0 a 0, o placar final.

Crescimento do Flamengo no cenário sul-americano se equipara com o que River e Boca foram um dia

— Falando de nós, como Flamengo, temos jogadores de muita hierarquia e sucesso no futebol europeu e sul-americano. Isso ajuda muito. Acabamos "sentindo" essa pressão de ter que vencer a cada três dias. Então, essa pressão acaba aliviando. Às vezes nós empatamos sabendo que dava para ganhar e perdemos pontos que não merecemos perder, acabamos sofrendo porque sabíamos que merecíamos mais. Mas acho que o forte do nosso elenco é saber resolver essas questões dentro do campo que fazem a diferença contra times argentinos, brasileiros ou qualquer um que venha. Sabemos como disputar qualquer tipo de jogo. Não somos só um time que joga bem, mas um time que se entrega na raça e na luta, porque isso faz a diferença. Dentro do campo somos 11 contra 11, essa disputa iguala mais o jogo. Se disputa menos a bola, tenta jogar menos. Então, nos momentos que temos que ter paciência e cabeça fria para fazer nosso melhor dentro de campo, conseguimos fazer. Quando não consegue, sabemos sofrer e lutar, tentar fazer o melhor para sempre conseguir a classificação.

— É igual acontece no Brasil, que todo time que joga contra o Flamengo quer se mostrar. Cheguei no Boca e era a mesma coisa, era o jogo do final de semana que todo mundo vai parar para ver. Todos querem se mostrar, jogar bem, dar seu melhor. Tem muita gente olhando, é possibilidade de saída do jogador. Hoje em dia o Flamengo, Palmeiras, times brasileiros com o poder econômico que tem, essa é a principal diferença dos times argentinos atualmente. Mas, na competição, o jogo se dá dentro do campo e ali ninguém vai deixar de se sacrificar pelo seu time para tentar vencer. Isso é o que mais complica no campo porque é algo normal no futebol.

Seleção argentina olha pouco para o futebol brasileiro

— Hoje em dia o nível do futebol brasileiro permite que se olhe mais para cá. Tem o Flaco (López), o Giay, que foi titular nos jogos da Data Fifa. Tem possibilidade de todo mundo se desempenhar bem no seu time e a comissão técnica da seleção gostar do estilo do jogador, o que dá no campo e o que pode dar fora. Acho que essas possibilidades chegam, mas sempre vou falar a mesma coisa: o mais importante é fazer o melhor aqui para que essa chance possa chegar e, se chegar, será bem-vinda.

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