Esportes
Por que um rapper com patrimônio milionário decidiu jogar a 4ª divisão do Rio? Chefin responde
Com mais de 12 milhões de seguidores nas redes sociais, artista de 22 anos se lança como jogador profissional: "Estou vivo, sou novo, meus sonhos não acabam na música"
GLOBOESPORTE.COM / TéBARO SCHMIDT
O rapper MC Chefin, de 22 anos, estreou como jogador profissional pelo Arouca Barra Clube na Série B2 do Carioca, realizando um sonho de infância sem receber salário.
Após fazer amizade com Philippe Coutinho e o ex-jogador Souza, atual técnico do time, o cantor passou em testes enviando vídeos de suas jogadas em peladas.
Conciliando shows nos fins de semana com treinos diários às 6h, o artista afirma que no elenco se sente uma pessoa normal chamada apenas de Natanael.
Mesmo com apenas 22 anos, Natanael Cauã Almeida de Souza, o MC Chefin, realizou vários dos sonhos que estão ao alcance do dinheiro. O rapper carioca tem carros de luxo na garagem, deu uma casa de presente para a mãe e recentemente comprou a mansão no Recreio, na Zona Sudoeste do Rio de Janeiro, onde vive com a esposa e as duas filhas pequenas.
O local também sempre está cheio de amigos. "A verdade é que eu não gosto muito de sair de casa, gosto de ficar aqui", conta ele. No dia em que Chefin abriu as portas de casa para receber a reportagem do ge, havia mais de 10 pessoas entre assessor, empresário, amigos e familiares.
Com mais de 12 milhões de seguidores nas redes sociais e quase 7 milhões de ouvintes mensais no Spotify, o jovem artista concilia nos últimos meses a agenda de shows com a rotina de treinos. Ele acabou de se lançar como jogador profissional. Mas por que um rapper com patrimônio milionário decidiu jogar a Série B2 do Carioca, o equivalente à quarta divisão?
— Eu posso ter realizado o meu sonho de comprar uma casa, de comprar uma casa para a minha mãe, de poder andar com uma roupa boa, comprar o que eu quero, o que eu almejo. Mas estou vivo, sou novo. Tenho sonhos, vários sonhos — explica o próprio Chefin, que atua como ponta esquerda.
— Meus sonhos não acabam na música. Meu sonho é todo dia. Meu sonho de ser jogador não era só quando eu era criança, está em mim até hoje. Não é que eu quero chegar e "Ah, só porque eu tenho dinheiro hoje eu vou querer jogar bola". Não é isso. Eu quero jogar bola porque eu gosto — acrescenta.
Chefin foi inscrito na competição para defender o Arouca Barra Clube/Rio de Janeiro, uma equipe recém-formada que tem como treinador Souza, ex-volante do Vasco e do Fenerbahçe. O rapper não recebe salário ou qualquer tipo de pagamento
A estreia como jogador foi na quinta-feira passada, na vitória por 2 a 0 sobre o Barra Mansa, em Xerém. Entrou restando cinco minutos para o fim do jogo. E garante que foi um dos dias mais legais da vida dele.
"Eu joguei cinco minutinhos. Estava ansioso pra caraca no banco, vendo a rapaziada jogando. Mas só de poder entrar, sentir aquela energia...", conta.
Na segunda-feira, na goleada por 4 a 0 sobre o Paraty, Chefin teve mais minutos e entrou na metade do segundo tempo. O Rio de Janeiro está em sexto lugar e colou na parte de cima da tabela com as duas vitórias consecutivas. Na Série B2, só os quatro primeiros se classificam para as semifinais. Os finalistas sobem para a Série B1.
"Não é o Chefin, é o Natanael"
Com aproximadamente cinco anos de carreira e um currículo que tem até show no Palco Sunset do Rock in Rio em 2024, Chefin é artista da Mainstreet Records, gravadora carioca que pertence ao rapper empresário Orochi e cuida da carreira de outros talentos do gênero.
Ele se apresenta em eventos e casas noturnas praticamente todas as sextas, sábados e domingos. Nos últimos sete meses, Chefin vem preenchendo os dias livres durante a semana com treinos numa academia de performance na Barra da Tijuca, perto de sua casa.
Fez amizade com Philippe Coutinho e passou a frequentar as peladas do jogador que recentemente acertou com o Santos. Foi lá, também, que ele conheceu Souza.
— Os caras perguntaram: "Pô tu joga bola? Maneiro". Conheci o Souza ali, fizemos amizade. Acabou que ele me fez um convite (para o time). Entreguei o material para ele, ele me chamou para fazer teste e deu certo — resume.
O "material" é o compilado de lances de Chefin em ação em peladas e eventos dos quais costuma participar. Alguns ele mesmo publica nas redes sociais. De repente, o sonho que o rapper alimentou quando era mais novo estava prestes a ser realizado.
"Desde criança, quando eu tinha 10 anos, 11 anos, eu já treinava futebol. Eu morava em Bangu, na Vila Kennedy. Minha vó me levava sempre para jogar bola, sempre gostei", conta.
— Com 12 anos eu fiz um teste no Vasco, não consegui passar. Fiz teste no Bangu, também não passei. Mas sempre gostei, nunca parei de sonhar. Eu sonhava dar o melhor para a minha família. Não consegui realizar o meu sonho de ser jogador porque eu bombei muito novo nas músicas - acrescenta ele, que estourou em 2022 com a música "212" (hoje com mais de 200 milhões de streams no Spotify).
A rotina desde que entrou para a equipe tem sido desgastante, já que a maioria dos treinos ocorre na parte da manhã, em um campo no bairro da Penha, na Zona Norte. Chefin acorda todos os dias por volta das 6h da manhã e leva 1h30 para chegar no local. Como os jogos do campeonato costumam ser em dias de semana, ele consegue conciliar com a agenda de shows.
A sensação de pertencer a um grupo onde todos têm o mesmo objetivo, para ele, tem sido a melhor parte.
—Ali, na verdade, eu sinto que não é o Chefin, é o Natanael. Me sinto uma pessoa normal... como eu posso falar? Porque, às vezes quando eu saio na rua, alguém diz "Chefin, vamos tirar uma foto". Ali, não. Ali é muito a sério mesmo. É um querendo vencer, o outro querendo vencer. E assim vai.
"Eu não estou só pelo que eu sou, não entrei no clube só pelo que eu sou, entendeu? Eu entrei porque me chamaram, eu passei. E estou lá para somar, para ajudar".
Se tudo der certo, o plano é continuar jogando. Chefin e sua equipe têm a preocupação de não fazer com que isso pareça uma aventura passageira.
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