Esportes
A camisa 10 está vazia: como a Argentina prepara a vida sem Messi
Seleção argentina busca novas lideranças para ciclo até 2030
GLOBOESPORTE.COM / GUSTAVO GARCIA
Durante quase duas décadas, poucas perguntas foram necessárias quando o assunto era a camisa 10 da Argentina. Ela tinha dono. Algo que vai mudar na seleção argentina a partir de agora.
Lionel Messi vai se despedir da seleção contra o Benim, nesta terça-feira, no Monumental de Núñez, e deixará para trás algo que vai muito além de um número na camisa. A partir da despedida do craque, a Argentina terá de descobrir como jogar, se organizar e construir novas lideranças sem um dos maiores jogadores da história.
O processo já começou. A seleção argentina atravessa uma renovação de elenco, com jovens ganhando espaço e referências do último ciclo deixando de ser intocáveis. No centro dessa transformação está uma questão simbólica: quem assumirá o peso de vestir a 10 depois de Messi? Nos últimos dois amistosos da seleção, ela esteve vazia, em respeito ao craque argentino.
Um nome aparece com força: Nico Paz.
Aos 22 anos, o meia é tratado como uma das principais peças da nova geração argentina e está entre os candidatos a receber a camisa. Para Alejandro Wall, jornalista do Olé, os sinais apontam justamente nessa direção.
- Tudo indica que a camisa número 10 vai ser de Nico Paz. Acho que, possivelmente, toda essa renovação vai estar muito centrada em jogadores como Nico Paz. Vai ser, seguramente, a oportunidade dele, pelo menos do ponto de vista futebolístico. Não falo de uma liderança nesse sentido. Vamos ver como funciona, mas acho que é um jogador de quem a comissão técnica gosta muito - disse Alejandro Wall ao ge.
Nico Paz chega à disputa respaldado também pelo que fez no futebol italiano. O meia foi eleito o melhor jovem da Serie A na temporada 2025/26, na qual marcou 13 gols, deu sete assistências e entrou na seleção ideal da competição.
Nico Paz não é, porém, o único candidato. Franco Mastantuono também aparece entre os jovens cotados para herdar a camisa 10. Até a possibilidade de não entregar imediatamente o número a um sucessor definitivo faz parte do debate sobre o início da era pós-Messi.
Para Emiliano Daniel Baratz, empresário e torcedor fanático da Argentina e do San Lorenzo, entregar a camisa a Nico Paz significaria também transformar o peso da comparação com Messi em combustível.
- Que pergunta difícil! A verdade é que começa agora um processo em que quem vestir a camisa 10 será comparado com Messi o tempo todo. Na minha opinião, acho que seria um desafio incrível para Nico Paz. É jovem, tem muito a aprender, e ter esse parâmetro de comparação vai fazer com que ele se esforce em dobro.
A renovação vai além da camisa 10
A ausência de Messi muda além da referência técnica. A Argentina também começa a reorganizar a hierarquia construída durante o ciclo mais vitorioso de sua história recente.
Cuti Romero passa a ocupar o posto de capitão neste novo momento, enquanto Scaloni abre espaço para uma geração mais jovem. É um processo que ultrapassa a busca por um novo protagonista. Passa também pela construção de novas referências dentro do grupo.
Alejandro Wall enxerga semelhanças entre o momento atual e aquele encontrado por Scaloni quando assumiu a seleção argentina, inicialmente como interino, em 2018.
- Scaloni está em um momento de "voltar a começar". E é bastante impactante porque ele assumiu a seleção em setembro de 2018, como interino, e começou a fazer um trabalho que tinha a ver justamente com formar novos jogadores de seleção. Naquele momento, a seleção estava em uma etapa de transição pós-Rússia e precisava encarar essa situação.
O jornalista argentino lembra que a preocupação de Scaloni e de sua comissão técnica naquele momento era construir uma base que sobrevivesse independentemente de quem estivesse no comando.
Naquelas entrevistas coletivas, Scaloni destacava o tempo todo que ele, Aimar e os demais estavam ali para formar novos jogadores de seleção, deixar uma boa lista de jogadores que soubessem que, quando vestissem a camisa da Argentina, saberiam o que fazer e teriam personalidade para isso.
Alejandro Wall recorda ainda uma frase repetida por Scaloni naquele início de trabalho: a preocupação era deixar uma estrutura pronta até mesmo para um eventual sucessor.
- Ele dizia: "Sem importar se somos nós ou o treinador que vier". Scaloni repetia o tempo todo que o técnico que viesse teria uma grande base.
Oito anos depois, Scaloni volta a encarar um processo de reconstrução. Desta vez, porém, depois de ter comandado uma geração que recolocou a Argentina no topo do futebol mundial.
E Scaloni?
Há ainda uma variável importante para definir como será a Argentina sem Messi: saber quem comandará essa transformação.
O contrato de Scaloni termina em dezembro. A Associação de Futebol Argentino iniciou conversas para discutir a renovação do treinador, mas ainda não há um novo acordo anunciado. Para Alejandro Wall, essa definição será determinante para entender até onde irá o processo iniciado agora.
- Todo o restante da renovação vai depender também do que acontecer com Scaloni em dezembro. Hoje é preciso começar a plantar as sementes de uma nova seleção, com Nico Paz. Rodrigo De Paul não foi convocado para estes amistosos. Vai estar na despedida de Messi, mas não foi convocado. É um jogador que foi muito importante para Scaloni, porque foi o grande unificador do grupo. E aí Scaloni vai ter que encontrar outro jogador.
A situação de De Paul exemplifica como a transformação pode atingir também jogadores que foram pilares do ciclo anterior. Não se trata apenas de encontrar quem execute as funções de Messi dentro de campo. A comissão técnica precisa reorganizar papéis, lideranças e relações que ajudaram a formar o grupo campeão do mundo. Emiliano também considera a permanência de Scaloni importante para reduzir o impacto da mudança.
- O ideal seria que Scaloni continuasse, porque conhece a dinâmica do grupo melhor do que ninguém. Imagino que será preciso pensar em uma equipe mais jovem e que aposte mais no jogo coletivo, porque não estará mais o GOAT, que mudava o jogo com sua magia.
É justamente o jogo coletivo que surge como uma das respostas possíveis para uma pergunta que dificilmente será solucionada por apenas um jogador. A Argentina até pode encontrar outro camisa 10. Encontrar outro Messi é uma expectativa diferente.
"Pensamos que nunca veríamos algo igual"
A Argentina já conhece o peso de procurar um sucessor para um camisa 10 que marcou uma geração. A aposentadoria de Diego Maradona também abriu uma longa busca por uma nova referência. Diferentes jogadores assumiram protagonismo até Messi transformar novamente a 10 em símbolo de uma era. Para o torcedor Emiliano, a história ajuda a dimensionar o tamanho da mudança que começa agora.
- Quando Maradona se aposentou, pensamos que nunca mais veríamos algo igual. Foram anos difíceis até o surgimento de Messi, e isso mesmo tendo outros grandes camisas 10, como Riquelme e Verón. Acho que virão anos difíceis, pensando em conquistar títulos, mas com a fé de que o sangue argentino poderá se reinventar para continuar competindo para ganhar.
O paralelo ajuda a explicar por que a sucessão de Messi não se resume à escolha de um número. Nico Paz pode vestir a 10. Outro jogador também pode recebê-la. Mas a reconstrução envolve substituir funções que durante anos estiveram concentradas no mesmo personagem: criação, gols, liderança técnica e a capacidade de decidir partidas em um lance.
Scaloni já viveu uma reconstrução quando assumiu a Argentina em 2018. Agora, encontra um desafio diferente. Naquela ocasião, precisava formar uma nova seleção ao redor de Messi. Desta vez, terá de ajudar a construir uma Argentina sem ele, caso permaneça no cargo depois de dezembro.
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