• Quarta, 30 de Setembro de 2026

"Não dá para ter jogador mais ou menos": Brasfoot inspirou técnico que mudou o Corinthians sub-20

William Batista foi anunciado em agosto de 2025 e tem aproveitamento de 61%; treinador coordenou a dispensa de mais de 40 atletas: "Recebi muitas críticas ao longo da temporada"

GLOBOESPORTE.COM / GABRIEL OLIVEIRA E VITOR CHICAROLLI


William Batista é o atual técnico do Sub-20 do Corinthians — Foto: Vitor Chicarolli

— O mais difícil nisso tudo foi mexer em lugares que ninguém mexia.

Foi assim que William Batista definiu a parte mais complexa do trabalho à frente do time sub-20 do Corinthians. Um dos responsáveis por uma drástica reformulação na base corintiana, o treinador de 33 anos participou da saída de mais de 40 jogadores e da reconstrução do elenco, culminando em uma temporada de evolução em 2026.

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Em entrevista ao ge, em um dos campos do centro de treinamento da base do clube, William detalhou as dificuldades encontradas ao longo de sua trajetória no Corinthians, iniciada em agosto de 2025.

— Hoje temos 23 jogadores no nosso elenco sub-20. Recebi muitas críticas ao longo da temporada, de fakes em Instagram e Twitter de jogadores que foram demitidos do Corinthians sub-20. Minha pergunta é: eu não tenho nada contra os jogadores que saíram daqui, em qual clube eles estão tendo destaque? Qual saiu do Corinthians e virou destaque de um outro clube? Os jogadores que a gente demitiu do Corinthians não jogaram em outros clubes.

— Tem duas frases que eu gosto: o tempo é o senhor da razão e a verdade tem luz própria. A verdade tem luz própria porque os jogadores que a gente dispensou não jogaram em clube nenhum e o tempo é o senhor da razão porque os que a gente trouxe nos ajudam.

— Eu não mando o jogador ir embora torcendo para dar errado para prejudicar a vida de ninguém. A gente só tenta ser coerente com a grandeza do clube e, para jogar no Corinthians, tem que ser os top do país, não dá para ter jogador mais ou menos no Corinthians.

— Eu dei treino na Copinha para 60 jogadores. Aí eu separava os grupos. E é difícil tu ir limpando, né?

Em um processo iniciado em junho de 2025 e que se estendeu até este ano, a diretoria do Corinthians dispensou 216 atletas da base, de diversas categorias. Muitos deles contratados na gestão anterior, do ex-presidente Augusto Melo.

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Não foi fácil para William chegar a esse momento da carreira. No início da trajetória no futebol, muito antes do Corinthians, o profissional tentou se consolidar como jogador nos gramados da Europa. Em Portugal, porém, sofreu algumas lesões e não conseguiu se desenvolver como esperava.

Mas foi justamente durante a passagem pela Europa que William começou a enxergar o esporte de outra maneira. Nos tempos em que defendia o Rio Ave, organizava torneios de Brasfoot com companheiros de equipe no alojamento e passou a se interessar pela função de comandar um time.

No jogo, gostava de contratar, vender jogadores e montar elencos mesclando jovens e experientes. A brincadeira, aos poucos, despertou uma curiosidade que viria a se transformar em profissão.

— Quando eu fui para Portugal, estava no auge o duelo entre Barcelona e Real Madrid, Mourinho e Guardiola. Eu organizava no Rio Ave os torneios de Brasfoot. Os brasileiros gostavam na época. Os portugueses, que não conheciam muito, passaram a gostar. Dava para jogar, montar uma liga e fazer o confronto entre seis, sete e até dez pessoas na época.

— Aquilo virava uma guerra dentro do alojamento. E eu, por incrível que pareça, me saía super bem. E eu sacaneava muito os caras e falava assim: "Pô, eu sou melhor jogando um jogo de manager de Brasfoot do que jogando no dia a dia". E a gente fazia apostas no dia a dia, aposta de quem ia pagar a janta de quem, quem ia pagar um café da manhã, quem ia carregar o café da manhã numa concentração. O Brasfoot me influenciou muito no desejo.

— Eu gostava muito de escolher clubes menores para tentar crescer nas ligas. Você podia vender jogador, contratar, negociar jogador, então acaba que, de maneira empírica, você mexe com a parte financeira de um clube. E, ao longo do tempo, fui percebendo no jogo que a mescla de jovens e mais experientes talvez era o que funcionasse melhor. Isso que eu trago muito do Brasfoot.

Lançado em 2003, o Brasfoot é um clássico jogo brasileiro de gerenciamento de clubes de futebol, no estilo manager, para computadores e celulares. O jogo fez sucesso no país e conquistou uma legião de fãs ao longo dos anos.

Altos e baixos marcaram a transição de William dos gramados para a carreira de treinador. Antes de chegar a um grande clube, passou pelo sub-15 do Atibaia, no interior de São Paulo, e, para conseguir pagar a faculdade de Educação Física, precisou trabalhar como motorista de aplicativo.

— O Uber estava na moda na época. Eu tinha um dilema muito grande: como fazer Uber se eu estou sonhando outra coisa? Você precisa ter humildade. Com 23 anos, você não entende que essa vaidade é inútil, e, quando o calo aperta, busca solução em qualquer lugar para sustentar seu sonho. Tenho muito orgulho de ter feito Uber em 2017. Eu começava às 16h e parava às 4h da manhã. Precisava trabalhar 12 horas por dia para conseguir pagar minha faculdade.

— Até que, depois de quatro ou cinco meses, alguns jovens derrubaram bebida alcoólica dentro do carro. Eu comecei a chorar e percebi que tinha chegado ao meu limite. Cheguei em casa e falei para os meus pais: "Eu não consigo mais. Eu estou tentando, mas está muito difícil para mim. Eu quero ser treinador, eu sonho em ser treinador".

Momento no Corinthians

William já soma 44 jogos no comando do sub-20 do Corinthians, com 24 vitórias, nove empates e 11 derrotas - aproveitamento de 61%.

Depois de cair na segunda fase da Copa São Paulo de Futebol Júnior, diante do Guarani, o treinador levou o Corinthians às quartas de final do Brasileirão Sub-20, melhor campanha do clube desde 2023, e também avançou ao mata-mata do Paulistão da categoria.

— A exigência do Corinthians no sub-20 é muito alta, maior até do que em alguns clubes profissionais do país. Existe a cobrança por desenvolver jogadores e por resultado esportivo. Eu tinha uma missão, junto com a diretoria, de devolver a honra e a credibilidade para o sub-20, para que fosse uma categoria respeitada novamente. Hoje, vejo que o Corinthians sub-20 é respeitado pelos adversários e pela torcida, e isso é importante para valorizar os ativos do clube.

— A gente começa a ter uma linha de sucessão dentro do clube. Não vamos precisar chegar em janeiro e mandar 35 jogadores embora para refazer um elenco. Já teremos jogadores subindo do sub-17 para ajudar. É uma evolução muito grande, porque não começamos mais do zero: começamos com o alicerce construído. A expectativa é continuar evoluindo e valorizar a categoria com desenvolvimento, jogadores no profissional e resultado esportivo.

— Eu tinha uma missão junto com a diretoria aqui que era devolver a honra e a credibilidade para o sub-20. Que o sub-20 fosse olhado como uma categoria respeitada pelo clube de novo. Eu acredito que, vendo hoje, olho jogos e o que acontece, o Corinthians sub-20 é respeitado.

Para o treinador, com o elenco enxuto e as contratações realizadas na primeira janela de transferências do ano, as perspectivas para a base corintiana são positivas.

— A gente já vai ter jogadores que sobem da categoria sub-17 para sub-20 para ajudar e começa a ter linha de sucessão. Isso já é um ponto de evolução grandioso para nós, a gente não começa tendo que limpar a casa, a gente começa com o alicerce construído. A expectativa é que a gente consiga maximizar ainda mais o tamanho do clube, em conjunto com a categoria e valorizá-la com desenvolvimento, com jogador profissional e com resultado esportivo. Essa é a nossa missão.

As categorias de base do Corinthians passam por uma reconstrução. De volta ao Movimento dos Clubes Formadores (MCF) depois da resolução do conflito com o Palmeiras nos bastidores, o clube retornou às principais competições do país.

O rival acusava o Corinthians de assédio ao atleta Pedro Morelli na gestão do ex-presidente Augusto Melo. O Palmeiras fez a denúncia ao Movimento e apresentou provas. Os outros clubes do grupo analisaram a solicitação e decidiram expulsar o Corinthians.

Na prática, durante a vigência da proibição, o Corinthians disputava apenas as competições organizadas pela Federação Paulista e pela CBF, perdendo uma série de torneios preparatórios espalhados pelo país.

O Corinthians rescindiu com o garoto em agosto e voltou ao Movimento dos Clubes Formadores.

Confira a entrevista com o técnico William Batista:

Relação com Fernando Diniz

— Em 2016, quando eu estava no Atibaia, o Diniz era uma referência para mim. O Audax dele estava no auge, e a gente tentava copiar aquela maneira de jogar. Depois de um jogo contra o Juventus, o Marcel, que era amigo do Diniz, me procurou e disse que ia tentar me levar para acompanhar os treinos. Acabei passando três dias com eles em Barueri. Naquela época, eu tinha 22 ou 23 anos, era treinador do sub-17 do Atibaia e não tinha acesso a ninguém. O Diniz me recebeu e me deu a oportunidade de conhecer coisas que despertavam muita curiosidade em mim.

— Os anos passaram, mantivemos contato e, dez anos depois, calhou de trabalharmos no mesmo clube. Depois que fomos eliminados pelo nosso rival no Brasileiro Sub-20, ele me ligou. A primeira pergunta foi: "Eu quero saber como está o William treinador, não o treinador William. Como é que você está? Você está bem?". Isso me cativa, porque ele quis saber como eu estava, não apenas por que perdemos o jogo. Tenho muita gratidão e admiração por ele. Hoje, essa proximidade entre as comissões e as diretorias melhora o fluxo de informação e, acredito, quem ganha com isso é o Corinthians.

Como a base e o profissional trabalham no CT?

— Essa conexão existe hoje dentro do CT e é algo raro. Trabalhei em muitos clubes, com diferentes diretores executivos e treinadores da equipe principal, e o caminho mais comum acaba sendo o distanciamento, até pela correria do dia a dia. Aqui é diferente. Há muita conversa sobre os jogadores que estão aqui e que podem ir para lá, além da troca de assistir aos treinos, daqui para lá e de lá para cá. Eu tinha visto algo parecido no Red Bull e o que tenho visto aqui no Corinthians é muito próximo disso.

Indicação da base para o profissional

— Essa conexão não é unilateral. Ela acontece no dia a dia e envolve minha comissão técnica, o Ricardo Drubscky, o Erasmo Damiani e o departamento profissional. A gente conversa constantemente sobre quais jogadores estão bem e troca relatórios. Temos alguns protocolos justamente para não deixar as decisões apenas no campo da subjetividade. Uma opinião pode mudar de acordo com um jogo, uma vitória ou uma derrota. Quanto mais claros são os processos e quanto mais pessoas participam dessas avaliações, mais conseguimos minimizar os erros.

— A partir dessas conversas, conseguimos indicar os jogadores que estão se destacando no sub-20 e que podem estar mais preparados quando surgir uma oportunidade na equipe principal. Essa troca constante faz com que, quando chega o momento de tomar uma decisão, todos tenham o máximo de informação possível. Ter processos claros diminui a subjetividade e aumenta a efetividade.

Carreira como treinador

— Eu me sinto muito feliz e realizado no Corinthians. É um clube no qual eu tinha muito desejo de trabalhar e que também envolve um desejo familiar. Olho para trás e vejo que o caminho foi difícil: passei por clubes menores, fiquei um ano desempregado, fui para a Chapecoense, depois América, Vasco, Red Bull e, agora, Corinthians. Estar aqui é motivo de muita honra e orgulho.

— Essa trajetória em diferentes lugares também me deu repertório para entender as características de cada ambiente. O mineiro é mais receptivo e familiar, o carioca é mais extrovertido e lúdico, enquanto o paulistano é mais metódico e pragmático. Isso influencia a maneira como você conduz o dia a dia. Mesmo quem chega de fora acaba se moldando um pouco à cultura do lugar. Ter passado por diferentes estados me ajuda hoje a adaptar o trabalho sem perder aquilo que penso e gosto de desenvolver.

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