• Quarta, 19 de Agosto de 2026

Formado no Cruzeiro e campeão pelo Flamengo, Ney Franco revela bastidores e projeta duelo decisivo

Treinador fala de gratidão aos clubes, revelação de jogadores na base do Cruzeiro, lançamento de Renato Augusto no profissional e qualidade de Léo Moura: "A bola não esquentava no pé"

GLOBOESPORTE.COM / ROBERTO MALESON


Ney Franco com as camisas de Cruzeiro e Flamengo — Foto: Montagem IA

Às vésperas do duelo na Libertadores, o técnico Ney Franco projeta um confronto equilibrado no Maracanã. Ele evitou apontar um favorito entre Flamengo e Cruzeiro.

Com 10 anos de atuação na base do Cruzeiro, o treinador ajudou a revelar grandes nomes. Ele também relembrou sua postura profissional como interino na Raposa.

Após ser campeão mineiro de 2005 pelo Ipatinga, Ney Franco foi contratado pelo Flamengo. O convite inusitado ocorreu nos vestiários do Maracanã pelo dirigente Kléber Leite.

Na Copa do Brasil de 2006, o técnico apostou no jovem Renato Augusto para a final contra o Vasco. O meia se destacou pela forte personalidade nos treinos.

Mineiro de Vargem Alegre, Ney Franco tem a trajetória como treinador marcada pelas passagens no comando de Cruzeiro e Flamengo. Foram mais de 10 anos na base da Toca da Raposa e o primeiro título nacional da carreira à frente do Rubro-Negro. O técnico projetou o duelo decisivo entre os clubes pelo jogo de volta das oitavas de final da Libertadores, mas evitou cravar um favorito. Os times se enfrentam na noite desta quarta-feira, às 21h30, no Maracanã.

- Eu acho que é um jogo muito equilibrado. O Flamengo está jogando em casa, vai ter que tomar as ações, vai ter que propor esse jogo. Só que está jogando contra uma equipe muito bem montada, com jogadores com qualidade. Vai jogar com uma equipe muito bem trabalhada, com jogadores que podem desequilibrar e jogadores rápidos, que fazem essa transição rápida.

- Dois clubes que eu tenho uma gratidão enorme, né? Estarei no Maracanã vendo o jogo. Espero ver um bom jogo de futebol e que passe aquela equipe que tiver melhor qualidade. Eu só sei que o Brasil estará muito bem representado na próxima fase da Libertadores, tendo o Cruzeiro ou o Flamengo passado, e quem passar eu acho que passa com a moral muito alta, porque a confiança cresce depois de um embate como esse.

Na longa trajetória na base do Cruzeiro, Ney Franco ajudou a formar atletas que fizeram carreira na seleção brasileira e no futebol europeu, casos dos goleiros Jefferson e Gomes, dos laterais Maicon e Maxwell, do meia Gerson Magrão e do atacante Geovanni. Ele também estava no comando da Raposa na estreia do atacante Fred, em 2004.

Quando era treinador do sub-20, Ney foi convocado para assumir o time principal em algumas oportunidades como interino. Uma delas, na reta final do Brasileiro de 2004, acabou ajudando o rival Atlético-MG a escapar do rebaixamento: o Cruzeiro enfrentou o Vitória e venceu por 4 a 0.

- Esse jogo do Vitória teve um detalhe muito importante, que a gente mostrou o nosso profissionalismo. É um jogo que tinha um interesse do Atlético Mineiro. A vitória do Cruzeiro ajudaria o Atlético Mineiro dentro do Campeonato Brasileiro. Mas a gente foi muito profissional. Nós preparamos a equipe para ganhar e a gente conseguiu vencer o Vitória, mantendo realmente o profissionalismo de todos.

Negociação para assumir o Flamengo

Após uma passagem de destaque no Ipatinga com o título do Campeonato Mineiro de 2005 e uma excelente campanha na Copa do Brasil no ano seguinte, Ney Franco foi chamado para substituir Waldemar Lemos no Flamengo. O Rubro-Negro eliminou o Ipatinga na semifinal do torneio nacional de 2006, mas optou pela troca de comando e escolheu Ney para a final e o restante da temporada. Kléber Leite, vice-presidente de futebol do Flamengo na época, fez o anúncio da escolha ao técnico nos vestiários do Maracanã após o jogo.

- Eu achava que era até uma brincadeira, uma pegadinha, porque ele iniciou a conversa falando assim: “Ney, eu sei que você tem propostas de outros clubes, mas eu gostaria que você ouvisse o Flamengo primeiro'. Internamente, fiz cara que tinha mesmo proposta, mas não tinha nada para mim. Era uma novidade que ele estava me falando e realmente se confirmou. Depois, na segunda-feira, o Kléber me ligou, confirmou a minha ida para o Flamengo. E realmente aí entra o que eu falei logo no início da entrevista: a gratidão que eu tenho também pelo Flamengo de apostar, pegar um treinador de Série C do Campeonato Brasileiro e trazer para essa instituição, o maior clube do futebol brasileiro em termos de torcida.

Aposta em Renato Augusto no Flamengo

Ney Franco contou que recebeu de Kléber Leite a indicação sobre Renato Augusto pouco antes da intertemporada do Flamengo em Manaus, durante a parada da Copa do Mundo em 2006, mesmo sem nunca ter visto o jogador atuar na base do clube. Deu oportunidade ao meia nos treinos, viu a personalidade se sobrepor à falta de rodagem e decidiu escalá-lo na final da Copa do Brasil contra o Vasco.

Na sequência, o treinador destacou que a segurança de Renato Augusto chamou atenção desde os primeiros treinos, quando o jogador se apresentou para cobrar uma falta em um jogo-treino, mesmo com Renato Abreu, batedor oficial, no elenco. Sem sinais de ansiedade às vésperas da decisão, o meia correspondeu em campo, ajudou no título da Copa do Brasil e, no ano seguinte, decidiu o Campeonato Carioca, consolidando-se como titular e camisa 10 do Flamengo.

- Além da qualidade técnica, me impressionou a personalidade. Ele chegou no grupo profissional na viagem (para Manaus) assumindo alguma responsabilidade. Me mostrou o tempo todo personalidade, e eu senti muita confiança para colocá-lo nessa final. Foi uma decisão acertada, porque ele nos ajudou muito no título.

Íntegra da entrevista

Processo de formação com 10 anos na base do Cruzeiro

- Trabalhei 10 anos na base do Cruzeiro: um ano como treinador do sub-15, cinco anos e meio como treinador do sub-17, três anos e meio como treinador do sub-20, e no final ainda foi o clube que criou para mim um projeto para iniciar minha carreira profissional num convênio lá em Ipatinga. E nesse caminho de 10 anos no Cruzeiro, eu ajudei na formação de vários atletas, na revelação de vários atletas. E eu me formei como treinador. É um clube que eu tenho uma gratidão enorme porque me deu essa oportunidade de me tornar um treinador. Foi no Cruzeiro que eu fiz os meus experimentos de metodologia, foi no Cruzeiro que eu pratiquei aquilo que a gente chama do “olho do treinador', que é avaliar atletas, além de treinar, você captar o atleta para o clube, ajudar na formação desses atletas, ser um mecanismo dessa parte de formador.

- E nesse processo todo, tive oportunidade de trabalhar com grandes jogadores, que se tornaram realidades do futebol. Entre esses jogadores, o Jefferson goleiro, Gomes goleiro, Maicon lateral, Maxwell que jogou na seleção brasileira, o Geovanni, do Barcelona, o Wendel que esteve aqui no Vasco. Logicamente que eu vou esquecer alguns nomes aqui... Então, me formei como treinador no Cruzeiro. A gratidão é enorme. E nesse processo todo também, além dessa experiência com jogadores, tive a oportunidade de trabalhar ao lado de grandes treinadores. Principalmente no período que eu estava como treinador da seleção sub-20, e é interessante você estudar o perfil de cada treinador que passou pelo Cruzeiro.

- Quando eu cheguei no Cruzeiro, por exemplo, o primeiro treinador que eu conheci lá foi o seu Ênio Andrade, que é um dos maiores treinadores da história do futebol brasileiro. Depois acompanhei o trabalho de perto de grandes treinadores. Alguns treinadores abriam espaço para gente da base, deixavam a gente acompanhar treinamento.

- Hoje, quando eu chego no clube de futebol, principalmente um clube que tem trabalho de base, uma das primeiras ações que eu tenho é tentar uma comunicação e um intercâmbio com esses profissionais das categorias de base. Porque eu vivenciei isso dez anos e eu sei qual que é a importância do treinador do profissional na ajuda da transição desses atletas da base para o profissional. Eu já vivi isso durante 10 anos do Cruzeiro, de perceber que em alguns momentos chegava algum treinador profissional que preferia trabalhar com medalhões e esquecia de vez a base. Percebi que não é uma forma legal de trabalho. Então, eu fui mais na linha daqueles treinadores que têm a visão para as categorias de base.

- Acho que o treinador tem que ter essa responsabilidade também de ajudar nessa parte econômica do clube, e no final de tudo, também a importância de você ajudar esses garotos que têm o sonho de se tornarem profissional. Eu acho que é o nosso papel como treinador o tempo todo estar ligado às categorias de base. O Cruzeiro me ensinou muito. O Cruzeiro foi uma escola para mim. Não só em parte técnica e parte tática, mas esse comportamento dentro de um clube de futebol de entender bem essa estrutura, como funciona um clube de futebol.

Principais jogadores que ajudou a revelar no Cruzeiro

- Quando eu estava na categoria sub-20, estava muito próximo do treinador profissional. Geralmente, a gente era solicitado a dar opiniões sobre jogadores da base que tinham condições de jogar no profissional. Esses profissionais, por exemplo, como o Luxemburgo, com seu auxiliar técnico PC (Gusmão), a gente conversava muito. O Felipão com o Murtosa, o Murtosa era esse elo conosco lá na base. Então a gente fazia isso muito bem com o Felipão e o Murtosa. O Levir Culpi era aquele treinador que abria as portas, a gente não vivia com ele só ali dentro do clube. Era um treinador que nos convidava para sair para o restaurante, a gente conversar de futebol, e nessas conversas a gente falava sobre atletas, né? E dessa forma, por exemplo, subiu o Wendel, Augusto Recife, Cléber Monteiro, o Geovanni atacante, Alex Santos, que era um lateral-esquerdo que jogou pouco no profissional, mas foi negociado com uma equipe do Japão, o próprio Jefferson goleiro e Gomes também.

Experiências como interino no Cruzeiro

- Essa também foi uma grande experiência que o Cruzeiro me deu. No momento em que eu estava como treinador do sub-20, todo momento que tinha uma troca de treinador no profissional, eu dirigi o Cruzeiro. Entre esses jogos aí, tem esse jogo do Palmeiras, e ficou também marcante para mim um jogo contra o Internacional no Mineirão. Foi o jogo de estreia do Fred no Cruzeiro. O Cruzeiro contratou o Fred do América. Começou o jogo no banco de reserva, entrou no segundo tempo. Inclusive, fez o gol e já deu ali o seu cartão de visita.

Guarda algum jogo com carinho?

- A maioria das experiências foi boa. Esse jogo do Vitória teve um detalhe muito importante, que a gente mostrou o nosso profissionalismo. É um jogo que tinha um interesse do Atlético Mineiro. A vitória do Cruzeiro ajudaria o Atlético Mineiro, dentro do Campeonato Brasileiro. Mas a gente foi muito profissional. Nós preparamos a equipe para vencer, e a gente conseguiu essa vitória em cima do Vitória, mantendo o profissionalismo de todos. Também teve os jogos que marcaram negativamente, né? Eu lembro que no final de 2004, a gente teve uma derrota para o Flamengo em Volta Redonda, uma goleada de 6 a 2.

Parte do time já estava de férias. Para o Cruzeiro já não valia mais nada, enquanto para o Flamengo valia ali a permanência na Série A. O Cruzeiro entrou mais relaxado nesse jogo?

- Já estava desmobilizado, vários jogadores que estavam dentro daquele jogo ali já sabiam que não ficariam no clube no ano seguinte. O Cruzeiro não tinha pretensão nenhuma dentro do Campeonato Brasileiro, e o Flamengo precisando de uma vitória para se livrar de rebaixamento, mas eu como treinador fiz um trabalho o tempo todo pensando numa possível vitória. Logicamente que ela não veio, mas a gente entende que realmente a gente tinha uma equipe muito desmobilizada para aquele jogo. É uma experiência negativa, mas ao mesmo tempo uma experiência que te bota dentro de uma realidade do futebol. Mostra que se você não tiver compromisso dentro do jogo, primeiramente em treinamento, compromisso para ir para uma partida, não tiver mobilização, você está sujeito, principalmente quando você está numa competição de nível técnico alto, a tomar uma pancada da forma como a gente tomou.

Título do mineiro em 2005 sobre o Cruzeiro

- Foi mais um projeto vitorioso que eu agradeço ao Cruzeiro. Quando me foi apresentada essa possibilidade, eu fui chamado numa reunião no Cruzeiro pelo na época diretor de futebol, saudoso (Eduardo) Maluf, e o Alvimar Perrella, me dando a segurança para ir para o Ipatinga com atletas do Cruzeiro. Na época, eu era treinador do sub-20. E dessa forma eu fui para o Ipatinga com o salário do clube, do Cruzeiro. E, comigo, 16 atletas oriundos das categorias de base.

- A gente fundiu com os atletas que já estavam lá no Ipatinga. Contratamos alguns atletas... Entre esses atletas, o William, zagueiro, que foi um jogador muito importante para nós dentro da campanha do Mineiro. Além de atender tecnicamente, foi o nosso capitão dentro de toda a competição e deu certo. A gente conseguiu criar uma base no Ipatinga. Essa base que foi campeão mineiro em 2005.

Contratação no Flamengo após trabalho no Ipatinga

- Eles já vinham acompanhando meu trabalho no Ipatinga, chamando a atenção, e quando foi definido esse confronto de semifinal entre Ipatinga e Flamengo, eles acompanharam ainda mais de perto o meu trabalho. Depois desse jogo, estávamos no vestiário lá meio tristes pelo resultado, porque a gente esteve muito próximo de passar. O Kléber Leite esteve no nosso vestiário, conversou comigo, falou que o clube estava decidido (a fazer) a troca de treinador. Eu me lembro direitinho... Nós estamos falando aí de quarta para quinta-feira, já de madrugada, o Flamengo jogaria no outro final de semana contra o Cruzeiro. Ele falou que trocaria o treinador após esse jogo, que não dependia só dele o nome do próximo treinador, mas que ele gostaria de conversar comigo sobre essa possibilidade.

- No início, eu achava que era até uma brincadeira, uma pegadinha, porque ele iniciou a conversa falando assim: “Ney, eu sei que você tem propostas de outros clubes, mas eu gostaria que você ouvisse o Flamengo primeiro'. Internamente, fiz cara de que tinha mesmo proposta, mas não tinha nada para mim. Era uma novidade que ele estava me falando, e realmente se confirmou. Depois na segunda-feira, o Kléber me ligou, confirmou a minha ida para o Flamengo, e realmente aí entra o que eu falei logo no início da entrevista: a gratidão que eu tenho também pelo Flamengo de apostar, pegar um treinador de Série C do Campeonato Brasileiro e trazer para essa instituição, o maior clube do futebol brasileiro em termos de torcida.

Responsabilidade de treinar o Flamengo

- A responsabilidade era enorme. Não era uma simples final. Era uma final contra o Vasco e era a primeira grande final de dois clubes da mesma cidade dentro de uma Copa do Brasil. Então, eu me lembro muito bem que o Vasco vinha num bom momento, até num momento melhor do que o Flamengo dentro do Campeonato Brasileiro, com a equipe muito forte. A preparação que a gente teve na parada da Copa do Mundo foi muito importante, e essa parada foi o tempo que a gente teve para fechar com os atletas no hotel lá em Manaus.

- Então, as decisões que a gente tomou nessa parada, de estudar o perfil, de pensar numa forma diferente de jogar. Me preocupava muito as laterais do Flamengo. Por exemplo, o Léo Moura e o Juan apoiavam muito e como eu trabalhei no Ipatinga, eu estudei muito Flamengo para enfrentá-lo, e a gente percebia que apesar dos atletas serem bons, eram regiões que ficavam vulneráveis. Então, eu trabalhei esse tempo todo pensando como corrigir, dar essa liberdade para o Léo Moura e para o Juan sem deixar a defesa exposta.

- E o caminho que eu achei na época era jogar com três zagueiros ou colocar um dos volantes fazendo um terceiro zagueiro. A gente conseguiu fazer isso muito bem na final contra o Vasco. Então, essa parada para Copa do Mundo foi essencial para que eu pudesse realmente conhecer o elenco todo, testar, ver o posicionamento desses atletas dentro de campo e tomar decisões que foram superacertadas na parte tática para esse confronto contra o Vasco.

Importância do Obina no Flamengo

- Eu queria falar do carisma do Obina e principalmente da pessoa do Obina. É um ser humano sensacional, espetacular. Estava vivendo um bom momento no Flamengo. Além disso, essa parte técnica do gol que ele fez, colocou ele nessa história e tem esse carinho enorme aí pela torcida do Flamengo, e o Flamengo criou esse coro aí. Na época, o Eto’o estava no auge na Europa, e foi justa essa comparação, e realmente foi um atleta que tem uma história muito bonita dentro do Flamengo, como atleta e como pessoa também. Uma pessoa muito querida.

Aposta em Renato Augusto no profissional

- Embora eu não tenha visto o Renato Augusto jogar na base do Flamengo, esse jogador, através do Kléber Leite, quando a gente parou para a Copa do Mundo, onde iríamos para uma intertemporada em Manaus, ele me falou desse atleta, e eu levei o atleta comigo para Manaus. Chegamos lá, dei todas as oportunidades para ele em treinamento. Ele se adaptando aos novos colegas, e ele mostrou muita personalidade.

- Além da qualidade técnica, me impressionou a personalidade, porque ele já chegou no grupo profissional na viagem e nos treinamentos lá assumindo alguma responsabilidade. Eu me lembro que teve um primeiro jogo-treino que ele fez, ele já se apresentou para bater uma falta. Lembrando que nós tínhamos o Renato Abreu, que era o batedor de falta. A ida do Renato Augusto foi muito em cima também da procura que eu tinha de achar um meia de ligação para o Flamengo para a sequência do Campeonato Brasileiro, e me foi apresentada essa possibilidade que na base tinha o Renato e se confirmou. Me mostrou o tempo todo personalidade, e eu senti muita confiança para colocá-lo nessa final. Foi uma decisão acertada, porque ele nos ajudou muito no título. Depois deu uma sequência como titular do Flamengo. No ano seguinte, a gente foi campeão carioca com o gol dele, e ele se firmou, assumindo a camisa 10.

Como foi trabalhar com o Renato Abreu?

- Foi muito bom. O Renato é um jogador muito competitivo. O Renato, assim como o Juan, você tinha que controlar em treinamento. É um jogador muito intenso. E eu peguei o Renato justamente nesse momento, num momento especial no Flamengo, adorado pela torcida. É aquele jogador que ele dá ao treinador essa possibilidade de ser um jogador que joga próximo do gol do adversário, mas ao mesmo tempo aquele jogador que volta e ajuda na armação. Ele acha esses espaços. No momento que está difícil para jogar um pouco mais à frente, ele tem essa parte cognitiva de vir mais atrás, trabalhar essa bola mais de trás. Um jogador que além de achar os companheiros nesse trabalho de passe, ele tinha a força do chute ali de média/longa distância.

Léo Moura e Juan

- Tanto o Juan como o Léo Moura entraram na história do Flamengo como grandes laterais que o Flamengo já teve na história. O Leonardo Moura era aquele lateral da segurança que a gente tinha, principalmente quando tinha a posse de bola. O jogo apertava e qualquer coisa você virava essa bola para o lado direito do Léo Moura, que a bola não esquentava no pé dele. Ele com a bola não rifava. Sempre no pé dele saía uma jogada interessante, principalmente verticalmente. Dava para o meio e apoiava muito bem, com cruzamento perfeito.

- Do lado esquerdo, você tinha um Juan com característica diferente. Um jogador que passava muito pelo fundo e tinha também essa qualidade de apoiar pelo meio, virar um meia também. Tanto que ele finalizou a carreira dele jogando como camisa 10, inclusive jogou comigo no Vitória e no Goiás como meia. O Juan era esse elemento surpresa, principalmente apoiando pelo meio. E aí, você vê por exemplo o nosso gol da final contra o Vasco, que foi um gol do Juan. Toda a estrutura daquele gol está ali, o pensamento, que eu imaginei pra forma desses dois jogadores atuarem. O gol nosso é uma participação do Léo Moura chutando a gol e um rebote com o Juan por dentro e finalizando.

- Além da qualidade técnica, do lado do Léo Moura, um jogador muito equilibrado emocionalmente, muito frio, que sabia passar pela pressão. Nos momentos de pressão, ele conseguia resolver as suas questões técnicas e ainda ajudava o grupo. E do outro, o temperamento explosivo do Juan em alguns momentos nos ajudou dentro de campo, brigando contra o adversário, cobrando dos próprios colegas, se indignando quando ele ou a equipe errava. Ele sempre foi ligado em uma tomadinha 120 volts. E isso ajuda também alguns momentos dentro de campo. Era aquele cara brigão, enchia o saco da arbitragem, enchia o saco do adversário, dos colegas. A gente tinha que controlar em treinamento. De vez em quando, saía de treino brigando, mas tinha uma qualidade técnica enorme.

Contratação do goleiro Bruno no Flamengo em 2006

- O Bruno, eu pedi a contratação dele. O Bruno estava no Corinthians na época, mas eu já conhecia o Bruno há muito tempo. Primeiramente, o Bruno com 17 anos, ele fez um teste no Cruzeiro no sub-17. Então, eu já conhecia ele desse momento. Do Cruzeiro, ele foi para o Tombense e do Tombense foi contratado para o Atlético. Então, eu acompanhei muito o Bruno nas categorias do Atlético Mineiro. Quando eu estava no Flamengo, nós estávamos projetando uma reformulação do elenco para 2007. Além do Campeonato Carioca, a gente conseguiu uma classificação para a Libertadores.

- E a gente achou a necessidade da contratação de mais um goleiro. Tínhamos o Diego, que estava no momento muito bom, tínhamos o Getúlio também, que fazia parte do elenco. Tínhamos um quarto goleiro que tinha pedido para sair do clube, que é o Wilson, que foi para o Figueirense. (Ele) conversou comigo, pediu essa oportunidade de sair do Flamengo para a gente liberar para que pudesse fazer a carreira fora do clube. Foi liberado e fez uma carreira bonita lá no Figueirense. Então, avaliando o mercado e por eu já conhecer esse atleta, a gente chegou a um acordo primeiramente internamente de trazer o Bruno. E realmente o Bruno veio, assumiu a posição de titular do Flamengo, nos ajudou muito na conquista do campeonato (Carioca) de 2007, tanto que foi uma final que foi para os pênaltis contra o Botafogo. E nos pênaltis ele desequilibrou.

- É um jogador que no dia a dia ele tinha um perfil... Em alguns momentos, o Bruno estava bem, em outros momentos o Bruno mudava de humor um pouco. Mas sempre foi internamente um bom atleta conosco. Nesse período que eu fiquei no Flamengo, eu nunca tive nenhum problema com o Bruno. É um atleta que me respeitava como treinador, até porque ele conhecia também meu histórico. E ele foi uma contratação que também ajudou o Flamengo nessa reconstrução na parte técnica. A gente não discute isso porque, profissionalmente como goleiro, deu retorno ao Flamengo.

Como acompanhou o noticiário do assassinato da Eliza Samudio?

- A primeira vez que eu escutei isso, eu lembro que eu estava no Coritiba. Vale lembrar que quando eu vim para o Flamengo eu trouxe comigo o Robertinho, treinador de goleiro. Quando eu saí do Flamengo, o Robertinho continuou. E a primeira vez que eu fiquei sabendo dessas possibilidades, a primeira pessoa que eu fiz contato foi com o Robertinho. O Robertinho: “não, o Bruno tem nada a ver com isso'. Depois, foi se desenvolvendo a história, foram alguns fatos descobertos, e eu confesso que eu fiquei muito surpreendido porque o Bruno internamente... Já vi o Bruno ajudar muitas pessoas. O Flamengo vivia um outro momento do que o Flamengo vive hoje. Em alguns momentos, tinha salário atrasado. Já vi o Bruno ajudando pessoas dentro do Flamengo, jogador de base que estava iniciando, funcionários, né? Eu fiquei surpreendido com os acontecimentos que todos nós sabemos. Lamentável, né? Primeiramente, o que aconteceu com a pessoa no caso Eliza, né? E lamentável também.

Projeção do duelo entre Cruzeiro e Flamengo na Libertadores

- Eu acho que é um jogo muito equilibrado. O Flamengo está jogando em casa, vai ter que tomar as ações, vai ter que propor esse jogo. Só que está jogando contra uma equipe muito bem montada, com jogadores com qualidade. Vai jogar com uma equipe muito bem trabalhada, com jogadores que podem desequilibrar e jogadores rápidos, que fazem essa transição rápida.

- Dois clubes que eu tenho uma gratidão enorme, né? Estarei no Maracanã vendo o jogo. Espero ver um bom jogo de futebol e que passe aquela equipe que tiver melhor qualidade. Eu só sei que o Brasil estará muito bem representado na próxima fase da Libertadores, tendo o Cruzeiro ou o Flamengo passado e quem passar eu acho que passa com a moral muito alta, porque a confiança cresce depois de um embate como esse.



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