• Sexta, 24 de Julho de 2026

Por que o clube que revelou o primeiro craque do Brasil abandonou e proibiu o futebol

Um dos times fundadores da Federação Paulista, Ypiranga vetou o futebol profissional em seu estatuto e divide os sócios sobre a retomada da modalidade

GLOBOESPORTE.COM / EMILIO BOTTA


Sede do Clube Atlético Ypiranga, em São Paulo — Foto: Acervo Clube Atlético Ypiranga

Fundado em 1906, o Ypiranga foi um dos clubes pioneiros do futebol paulista;

A força do Ypiranga na época ficou comprovada com o clube sendo, em 1941, um dos fundadores da Federação Paulista de Futebol;

Foi atuando pelo Ypiranga que Arthur Friedenreich surgiu como o primeiro grande nome do futebol brasileiro até o surgimento de Pelé;

A sua saída do futebol, em 1958, tem relação direta com problemas financeiros e o rebaixamento no Campeonato Paulista;

O Ypiranga tentou retornar ao futebol em 2004 e 2020. O clube voltaria como uma SAF usando apenas a marca do clube, mas não deu certo.

Um clube de quase 120 anos em São Paulo vive há pelo menos 68 deles um grande dilema entre os seus associados: voltar ou não ao futebol profissional? Atualmente, a resposta é um mistério.

O Clube Atlético Ypiranga foi fundado em 1906 por um grupo de trabalhadores de São Paulo, algo comum na época. A maioria dos times de futebol surgiu de reuniões entre colegas de trabalho dispostos a praticar o esporte trazido ao Brasil anos antes por Charles Miller.

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Assim, o Ypiranga rapidamente se tornou um dos principais clubes do futebol paulista. Protagonista ao lado de Corinthians, Paulistano (extinto), Germânia (extinto), Palestra Itália (atual o Palmeiras), entre outros, foram três vice-campeonatos estaduais (1913, 1935 e 1936).

A força do Ypiranga na época ficou comprovada com o clube sendo, em 1941, um dos fundadores da Federação Paulista de Futebol, entidade criada para regular o esporte em todo o estado.

A história começou a mudar em 1958, ano em que o Ypiranga foi rebaixado para a segunda divisão estadual, viu os seus investidores desistirem e passou a sofrer ainda mais com problemas financeiros, tendo que se desfazer completamente dos seus principais jogadores.

– O Ypiranga passou por alguns momentos difíceis no futebol e foi obrigado a vender quase todo o time profissional, que era um time de primeira linha, e acabou sucumbindo. E os empresários que investiam aqui, aqueles parceiros, deixaram de investir. E o Ypiranga se licenciou da Federação Paulista por um período. Quando retornou, acabou sendo rebaixado e aí foi quando desistiu definitivamente do futebol.

– Os conselheiros da época acharam que o futebol profissional não deveria voltar mais, mantendo só as atividades sociais aqui nessa nossa área. Foi quando trancaram a gente no estatuto. Houve possibilidades de retorno já naquela época, mas infelizmente nós não conseguimos aprovação – explicou Roberto Nappi, ex-presidente do Ypiranga.

Sem condições de seguir no futebol profissional sem a ajuda de investidores que mantinham o esporte, o clube optou por abandonar as competições e ainda evitar uma reversão da decisão, colocando em seu estatuto (veja abaixo) um veto para um retorno às atividades.

Art. 142 - Fica vedado à Diretoria Administrativa do CAY, por si ou por terceiros, manter um Departamento de Futebol Profissional, salvo se vier a obter, por parte do Conselho Deliberativo, na forma contida neste Estatuto, a competente autorização.

Quase sete décadas depois, as chances de retorno ao futebol são remotas. Para que isso aconteça, é necessário que dois terços dos 120 conselheiros estejam presentes e votem a favor da mudança no estatuto em duas votações consecutivas. A idade avançada de boa parte dos membros inviabiliza a presença de muitos deles em reuniões e a formação de quórum.

– Hoje o Estatuto proíbe o futebol profissional. Ainda somos um celeiro de craques, continuamos formando muitos atletas. Historicamente, estamos com jogadores desde 1906 até hoje, com muitos atletas, mas, profissionalmente, a gente não pode.

– Uma missão difícil. Nós tentamos, mas ainda não conseguimos – explicou Fernando Oberle, outro ex-presidente do Ypiranga.

Foram duas tentativas de retorno ao futebol, em 2004 e 2020, sendo a última a que esteve mais próxima de acontecer. O clube voltaria constituindo uma SAF bancada por investidores interessados apenas na marca do clube, que adotaria a grafia de Clube Atlético Ipiranga e teria apoio esportivo do ex-jogador Jamelli, com passagens por São Paulo, Santos e Corinthians.

O projeto incluía a compra de um terreno vizinho a atual sede do Ypiranga para a construção de um estádio, além de um centro de treinamento. Em virtude da pandemia de Covid-19 e outros problemas, o plano acabou não seguindo.

– Não dá para a gente pensar isso imediatamente. Não é impossível de acontecer. Eu acho que hoje, com a modernidade da gestão, com a SAF, com vários modelos de futebol profissional, não acho impossível. Mas, sim, é um sonho meu de ter o Clube Atlético Ypiranga, como fundador, voltando a ser um membro do futebol profissional – complementou Oberle.

Prestes a completar 120 anos, o Ypiranga tem o sonho compartilhado de um retorno do seu mais novo sócio até o mais antigo, mas uma tradição e uma espécie de maldição precisam ser superadas para que o clube possa, talvez futuramente, voltar a figurar novamente no futebol profissional.

– Eu sou da origem do futebol. Nasci aqui no futebol. Vivi o futebol. O meu maior sonho era realmente ver aqueles clássicos. Isso sempre foi um grande sonho nosso. Mas, mesmo sendo da velha guarda, éramos sempre barrados por outros que pensavam diferente e que não eram do futebol. Nós, que somos da origem do futebol, sonhávamos com isso – explicou Nappi.

O primeiro craque do Brasil

Foi atuando pelo Ypiranga que Arthur Friedenreich surgiu como o primeiro grande nome do futebol brasileiro a ser apontado como craque. Até o surgimento de Pelé, o atacante era considerado o melhor jogador de futebol do país.

Friedenreich construiu história no futebol amador até chegar a ser convocado para a seleção brasileira, sendo o autor do gol do primeiro título sul-americano do Brasil. A grande decepção da carreira do atacante foi ter ficado fora da Copa de 1930 por boicote a jogadores que atuavam em São Paulo na época.

– O Friedenreich nasceu no Ypiranga praticamente logo após a fundação do clube. Ele veio jogar para o Ypiranga, jogou alguns anos e foi considerado o maior artilheiro na época. Seria, entre aspas, o Pelé da época. Essa foi uma das glórias que a gente tem marcada – relembrou Roberto Nappi.

O atacante atuou durante 26 anos e deixou o futebol depois dos 40 anos.

Quem foi Friedenreich

Nome: Arthur FriedenreichNascimento: 18/07/1892Morte: 06/09/1969 (77 anos)Posição: atacanteCarreira: Ypiranga, Germânia, Mackenzie, Paulistano, São Paulo, Atlético-MG e Flamengo.Seleção brasileira: 22 jogos | 10 gols e 2 títulos (Copa América 1919 e 1922).

Outro importante jogador do futebol brasileiro revelado pelo Ypiranga foi o ex-goleiro já falecido Barbosa, marcado por ter falhado na final da Copa de 1950 no Maracanã, quando o Brasil foi derrotado pelo Uruguai.

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Barbosa acabou enfrentando problemas de depressão por ter ficado marcado como "culpado" pela perda da Copa pelo Brasil em casa. Nos últimos anos de vida, foi abraçado pelo Ypiranga.

– Foi revelado aqui, jogou três anos e depois se transferiu para o Vasco da Gama, onde jogou por 20 anos. O Vasco, com ele, fez um grande sucesso na época, a ponto de ele ser convocado para a Copa de 1950, que foi, a meu ver, o maior desastre esportivo da história. Foi aquela Copa que acabou com a vida do Barbosa.

– Ficou tão triste, tão revoltado, que guardou essa mágoa até o fim da vida. E ele falava o seguinte: o cara é condenado a 30 anos e sai da prisão, eu só vou sair quando morrer. Ele foi condenado pela vida toda. Nós o trouxemos de volta, conviveu com a gente até os últimos dias de vida. Foi o Ypiranga que o abraçou de volta, num momento financeiro difícil dele no Rio de Janeiro. Prestigiamos muito o Barbosa, para nós ele continuou sendo o grande campeão – disse Nappi.

Como o clube sobrevive?

Com uma sede ocupando uma área de mais de 30 mil metros quadrados em uma região privilegiada em São Paulo, o Ypiranga se mantém graças aos seus mais de 6,5 mil sócios. Ou seja, a manutenção do clube é custeada pela mensalidade e aquisição de novos títulos de interessados em frequentar o clube.

Atualmente, o Ypiranga oferece 13 opções de modalidade esportivas para os seus associados, como natação, basquete, judô, sinuca, futevôlei e squash - mais da metade da seleção brasileira é composta por atletas do clube.

O futebol segue sendo praticamente de forma amadora no clube, que tem parceria na captação e formação de jovens atletas com o Sfera FC, time que não deseja se profissionalizar e tem foco na venda de jogadores para clubes europeus e ser apenas uma empresa dentro do futebol.

O Ypiranga conta com 200 atletas militantes, isentos do pagamento de mensalidade e que utilizam a estrutura do clube em troca de representá-lo em competições oficiais. A prática é comum em diversos clubes esportivos brasileiros.

Enquanto aguarda uma possível reviravolta e retorno ao futebol profissional, o Ypiranga segue forte como um dos principais clubes sociais da capital depois de ter sido peça fundamental na popularização, expansão e profissionalização do futebol no estado de São Paulo.

– A gente, lá na década de 50, deixou de ser um clube profissional de futebol e passou a ser um clube social. Desde então, fomenta a questão social. Então, hoje, a gente é um clube preponderantemente social: 30 mil metros quadrados de sede própria, com duas piscinas, um parque aquático formidável, campo de futebol, dois ginásios. Hoje, a gente tem toda uma estrutura social que consegue tratar bem o pessoal do bairro e quem mora aqui muito perto. O futebol de campo ainda é o nosso esporte, mas não é profissional. Eu acho que esse é o grande segredo de a gente estar de pé até hoje – finalizou Fernando Oberle.



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