• Sexta, 05 de Junho de 2026

Quanto mais alto, mais pesada a subida

GILLIANNO MAZZETTO (*) / CAMPO GRANDE NEWS


Caro(a) conviva,

Existe uma mentira que é tomada como lugar comum na boca de muitas pessoas bem-intencionadas. Aliás, a coisa mais perigosa que tenho encontrado nestes anos são as pessoas bem-intencionadas, sabe por quê? Porque elas cometem danos querendo ajudar. O seu comportamento padrão é o passivo agressivo.

E sabe qual é a mentira? A que diz que, quanto mais você evolui, mais leve fica o caminho. Que a experiência afia a lâmina e o aço cortará mais fácil. Que a sabedoria acumulada é um atalho. Pois eu te afirmo, nobre vivente, não é assim que a banda da existência toca. Quanto mais você cresce, mais difícil fica crescer. E se ninguém te disse isso, é porque ninguém queria estragar a festa.

Há alguns anos, li um livro pequeno e brutal chamado A Guerra da Arte, de Steven Pressfield. Em certo momento ele escreve sobre a Resistência, com R maiúsculo, como se fosse uma força viva, invisível, onipresente. Ela não dorme. Ela não negocia. E o seu único objetivo é impedir que você se torne quem você deveria ser.

O que Pressfield observou, e que poucos têm coragem de dizer em voz alta, é que a Resistência não ataca os fracos. Ela se reserva para os que estão prestes a fazer algo que importa. Quanto maior a obra em potencial, maior a força que tenta te afastar dela. Porque ser grande, completo, demasiadamente humano é um lugar perigoso que nos obriga a renunciamos à mediocridade, do efeito manada.

Este lugar convida a visitarmos as memórias do nosso subsolo, no sentido mais dostoievskiano que possa parecer. O iniciante não sente esse peso porque ainda não há nada a perder. Ele tropeça com a leveza de quem desconhece o abismo. É quase uma graça, essa ignorância. A Resistência o observa, desinteressada. Não vale a pena. Afinal, como ensinava meu avô a ignorância é atrevida.

Mas o ser humano que já construiu algo, que já provou para si mesmo que pode, esse a Resistência conhece pelo nome. E ele também a conhece, o seu alento gélido habita a cada passo que ele dá. O seu sucesso aconchegante e aprisionante habita em cada nova renúncia que ele precisa fazer.

Ela sabe onde doem os seus medos. Ela conhece a narrativa que você conta a si mesmo às três da manhã quando o projeto emperrou, quando a decisão não veio, quando a coragem ficou na gaveta mais uma vez. Ela é sofisticada. Ela não aparece como preguiça simples. Ela aparece como prudência. Como responsabilidade. Como 'ainda não é o momento certo'. Ou ainda, como: “Está bom do jeito que estou, para que crescer mais?'

Honoré de Balzac escrevia dezesseis horas por dia, bebia cinquenta xícaras de café para não dormir e acumulou dívidas que o perseguiram por décadas. Não porque era desorganizado. Mas porque o tamanho da obra que ele carregava dentro de si era desproporcional a qualquer vida razoável.

Ele sabia disso. E escrevia mesmo assim, com a lucidez aterrorizante de quem sabe que parar seria trair algo maior do que ele mesmo. Balzac não venceu a Resistência. Ele simplesmente se recusou a obedecê-la, e morreu aos cinquenta anos, exausto e grandioso, com noventa e um romances escritos.

Porque é isso que o crescimento faz com a gente. Ele nos dá mais a perder.

O escalador iniciante sobe sem olhar para baixo. O alpinista experiente sabe exatamente de que altura está prestes a cair. E esse conhecimento, esse maldito conhecimento preciso, é o que enrijece os pés. Não a fraqueza. O saber.

Já fui esse tipo de pessoa que confundia movimento com progresso. Lembro de um período em que chegava cedo, saía tarde, respondia e-mails no jantar e chamava isso de comprometimento. A agenda cheia era minha armadura. Enquanto eu estava ocupado, não precisava responder à pergunta que ficava parada no canto da sala, esperando: o que, de fato, você está evitando construir? A corrida não era ambição. Era fuga com boa aparência.

A Resistência adora o barulho é irmã siamesa da distração. Ela prospera na agenda cheia, nas distrações digitais, nas vidas recortadas das redes, nas frases fazias que a multidão repete unissonamente. Ela é mestra em fazer o urgente parecer importante. E você, cansado e honesto por apenas um segundo, sabe exatamente do que estou falando. O paradoxo do crescimento não é cruel por acidente. Ele é necessário.

Porque o ser humano que nunca sentiu a Resistência pesada é alguém que ainda não chegou perto o suficiente do que realmente importa. A dificuldade de crescer, quando você já cresceu, é a medida precisa do quanto ainda há pela frente. É o peso de uma obra que ainda não foi feita. É o chamado que você está evitando responder.

Pressfield diz que a Resistência é mais forte no último quilômetro. Que ela ataca com maior ferocidade quando estamos mais próximos de terminar, de entregar, de nos tornarmos. Eu acredito nele. Não pela teoria, mas pela experiência de reconhecer esse inimigo no espelho, disfarçado de cansaço razoável, de maturidade, de cautela legítima.

Crescer, então, não é ficar mais forte para suportar menos peso. É ficar mais honesto para identificar de onde vem o peso. E então carregá-lo com os olhos abertos, não porque é agradável, mas porque o único caminho que vale a pena percorrer é exatamente aquele que a sua Resistência mais teme que você tome.

A pergunta que fica, e que eu te faço com o respeito de quem também não tem a resposta pronta: qual é a obra que a sua Resistência está guardando para você?

Ela está lá. Reconhecível pelo tamanho do desconforto que você sente quando se aproxima demais.

Pense nisso.

(*) Gillianno Mazzetto é filósofo e doutor em psicologia.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.



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