Coronel Sapucaia
UBS fluvial percorre o Pantanal de Corumbá levando cidadania aos ribeirinhos
SILVIO ANDRADE, DE CORUMBá / CAMPO GRANDE NEWS
A embarcação atraca no barranco do rio, naqueles confins do Pantanal, e Neide Leones Pereira, 64 anos, se apressa para montar o seu palco no chão batido da comunidade ribeirinha. E enquanto os demais integrantes da expedição preparam a estrutura para o atendimento médico e assistencial àquelas famílias, ela reúne as crianças a sua volta para algumas horas de lazer, contação de histórias, oficinas e orientações sobre o mundo conturbado lá fora.
Seu trabalho, realizado há 15 anos, faz parte do processo transformador da vida dos moradores tradicionais do bioma que o programa social Povo das Águas proporciona àquela gente ao longo de 17 anos. Lei municipal desde 2012, a ação da prefeitura de Corumbá leva dignidade e cidadania a mais de 600 famílias – uma UBS fluvial, que percorre milhares de quilômetros anualmente pelos meandros dos rios Paraguai, Taquari e Cuiabá.
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Quando a arte-educadora – ela atua na educação desde 1988 – chega é uma alegria geral, ambiente peculiar durante as jornadas envolvendo também toda a equipe da prefeitura e os residentes.
Neide recebe o carinho e abraços de adultos que eram crianças quando o programa começou e hoje tem filhos, seus novos “alunos'. Perto de se aposentar, ela se sente gratificada: “é minha energia, não tem preço, faz bem. Eu pegava esses pais no colo'.
O Povo das Águas foi um divisor de águas, no melhor sentido da palavra, para as comunidades tradicionais do Pantanal, que se estende por mais de 90% do território de Corumbá, um dos maiores do país, com 64 mil km². Até o início do século XXI, o isolamento desses moradores, que vivem da pesca, era implacável, ignorados pelos governos. Sem documentos pessoais, era uma população excluída e invisível para os mapas e estatísticas.
Direitos garantidos
Após a primeira década, iniciativas governamentais e instituições públicas e privadas abraçaram a causa ribeirinha – a maioria dos nativos são oriundos ou descendentes da leva de trabalhadores que perderam o emprego nas fazendas após a devastadora cheia de 1974. Além da assistência básica e acesso a documentos, as ações (então esporádicas) promoveram até casamento coletivo.
Depois, vieram as escolas, o telefone, a energia solar... O programa social da prefeitura assumiu esses núcleos de difícil acesso, com pelo menos duas expedições por ano a cada uma das três regiões (alto Pantanal, até a divisa do estado com Mato Grosso, na Serra do Amolar; baixo Pantanal, ao sul, até o Forte Coimbra; e o médio Pantanal, abrangendo as colônias do Taquari). Cada viagem da equipe multidisciplinar, a bordo de uma embarcação de grande porte, tem um custo de R$ 300 mil bancado pelo município.
A última edição ocorreu na semana passada, de 8 a 14 de maio, na região Norte (alto Pantanal). A equipe de 20 pessoas, formada por médico, enfermeira, assistentes sociais, técnicos em enfermagem, cirurgiões dentistas, auxiliares bocal, agentes de endemias, farmacêutica e voluntários (barbeiro e auxiliar bocal) e uma pedagoga, percorreu 600 quilômetros, enfrentando queda de temperatura e chuva.
Apesar das dificuldades – alguns moradores mais isolados são atendidos por equipes volantes –, o resultado alcançado ao final da jornada é motivo de celebração pelos servidores. “A gente volta para a cidade mais renovado com o sorriso e o carinho dos ribeirinhos, sabendo que seus direitos estão sendo respeitados', diz Josiney Santos, coordenador. “Fazer o bem a essa gente me deixa muito feliz', comenta Ewerton Martins, 25, o barbeiro voluntário.
Outra realidade
Os ribeirinhos chegam aos postos de atendimento (residências) em seus barcos ou canoas tipo rabeta (de longo eixo com hélice). O frio de 11 graus e a chuva não foram empecilhos para não atualizar a carteira de vacina ou receber os benefícios.
Dona Rosenda Ferreira, 58, navegou pela Baia do Castelo para levar os netos, de 3 e 8 anos, todos gripados. Moradora no Paraguai-Mirim, Francilene Alpides, 34, pilotou o barco por longa distância com os sete filhos, vacinados e medicados. “O Povo das Águas melhorou muito a nossa vida, desde a saúde e alimentação, até o nosso conhecimento. O pessoal dá a vida deles para nos atender. A gente se sente superior hoje; antes éramos migalhas, esquecidos nesse mundo', comenta Nilza Mariana Arruda, 65, uma das mulheres líderes na região. “Quando o navio chega é uma benção, a gente se sente mais forte, tem remédio, cesta básica', fala Joana Batista, 54, do Amolar.
As ações tem a participação de órgãos federais, do Judiciário e também do Governo do Estado. Na edição do alto Pantanal, que corresponde a quarta deste ano, o Imasul (Instituto de Meio Ambiente de MS) teve papel importante na expedição de autorizações para transporte e comércio de pescado.
O casal José Moura, 59, e Rosangela Campos, 49, conseguiu regularizar-se. “Agora podemos vender dentro da lei', diz Moura, que também produz mel. A ação contabilizou dois mil atendimentos, incluindo consultas médicas, incluindo gestantes e crianças, procedimentos de enfermagem, palestras (campanha Maio Amarelo), testes de gravidez, medicação injetável, planejamento familiar e visitas domiciliares. A assistência social atendeu 487 pessoas, com entrega de 173 cestas básicas. Foram aplicadas 325 doses de vacinas, 60 cortes de cabelo e 208 procedimentos odontológicos.
