• Quarta, 29 de Abril de 2026

O time que superou a polarização política, uniu cidade e agora sonha com inédito acesso à Série A

Teceiro colocado da Série B do Brasileiro, São Bernardo tem pouco mais de 20 anos de fundação e foi controlado por grupos políticos opostos até ser vendido e conquistar resultados expressivos

GLOBOESPORTE.COM / EMILIO BOTTA


São Bernardo tem pouco mais de 20 anos de fundação — Foto: Divulgação São Bernardo

Há quem diga que política e futebol não se misturam, mas dois dos principais pilares de uma sociedade se cruzaram ao longo do caminho no ABC paulista. A polarização política ajuda a explicar a história do São Bernardo, clube com pouco mais de 20 anos de fundação e que sonha figurar entre os principais times do futebol brasileiro em um futuro próximo.

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Durante os seus primeiros 12 anos de existência, o clube alternou o comando entre políticos de direita e de esquerda, sempre com relação direta a partir do resultado das eleições municipais. Depois de ser comprado por um empresário, o São Bernardo se considera "apolítico" e agora sonha com voos mais altos no futebol brasileiro. O time, atualmente, ocupa a terceira colocação da Série B do Brasileiro.

Com quatro competições no calendário de 2026 (Paulistão, Copa do Brasil, Série B e Copa Sul-Sudeste), será a primeira vez em que o Bernô jogará mais de 50 partidas ao longo da temporada.

Da direita para a esquerda

O São Bernardo foi fundado em 2004 pelo político Edinho Montemor, na época filiado ao PSDB, partido que era opositor ao Governo Lula, do PT, que tem a cidade do ABC paulista como o seu reduto político.

É neste cenário que a história do clube começa a ser escrita.

A ideia inicial era ter mais um clube no ABC para competir com os vizinhos São Caetano e Santo André, que naquele ano foram campeões do Paulistão e da Copa do Brasil, respectivamente.

– Desde o início, a nossa ideia era ter um clube que representasse a cidade, que conquistasse a torcida, porque São Bernardo tem uma tradição muito grande no futebol. O São Bernardo cresceu bastante, nosso clube passou a ter a maior torcida da região e teve sucesso até chegarmos aonde chegamos hoje – explica Edinho Montemor, fundador do clube.

Durante o período em que foi administrado pelo grupo considerado de centro-direita, o São Bernardo conseguiu dois acessos, deixando a quarta e última divisão do Campeonato Paulista para figurar na Série A2 estadual.

Foi em 2008 que o São Bernardo passou pela sua primeira mudança de gestão. Derrotados nas eleições municipais quando foram candidatos a prefeito e vice, respectivamente, Orlando Morando e Edinho Montemor deixaram o São Bernardo, que passou a ter o então deputado estadual Luiz Fernando Teixeira, do PT, como presidente. O político era aliado de Luiz Marinho, do mesmo partido de esquerda, que venceu as eleições e passou a ser prefeito de São Bernardo do Campo.

Edinho Montemor foi colocado como uma espécie de “presidente de honra' do clube, tendo menos voz ativa nas decisões do dia a dia. A mudança de gestão durou até 2016.

Durante o período em que foi gerido por políticos de esquerda, o São Bernardo conseguiu chegar à elite do Campeonato Paulista, conquistando o acesso em 2010. Porém, no ano seguinte, o time não conseguiu fazer uma boa campanha e acabou sendo rebaixado para a Série A2.

– Nós nunca discutimos a polarização no futebol, mas o presidente do São Bernardo era de viés de esquerda. Nós tivemos, no jogo contra o Corinthians, em 2011, na inauguração - reinauguração do estádio Primeiro de Maio, depois de sofrer uma reforma pelo então prefeito Luiz Marinho -, a presença do presidente Lula no estádio, vestindo metade da camisa do Corinthians e metade da camisa do São Bernardo .

– Então, nunca fizemos um debate ideológico, político. Mas ele foi criado por políticos de direita, de extrema direita, e depois foi gerido por sete ou oito anos por políticos de esquerda, no meu caso, e também no caso do Thiago, meu filho, que foi presidente por um ano do São Bernardo. Depois, retornou à mão daqueles criadores, do Edinho Montemor, que depois o vendeu. O Edinho recebeu de nós de graça e depois ele vendeu. Foi interessante essa polarização ideológica que teve na gestão – explica Luiz Fernando Teixeira, ex-presidente do São Bernardo.

Em 2012, o São Bernardo fez boa campanha e conseguiu carimbar o retorno para a primeira divisão estadual sendo campeão da A2. No retorno à elite, o São Bernardo terminou a competição em 12º lugar e conseguiu se manter entre os principais times de São Paulo.

No mesmo ano, o São Bernardo ainda disputou a Copa do Brasil, vencendo o Paraná Clube na primeira fase e sendo eliminado pelo Criciúma na fase seguinte. O ano do Tigre terminou com o título da Copa Paulista sobre o Audax.

Nos anos seguintes, em 2014 e 2015, o São Bernardo conseguiu campanhas regulares para se manter na elite do Campeonato Paulista, mas sem repetir o brilho na Copa Paulista.

Novamente com a direita

O resultado das eleições municipais novamente interferiu na gestão do São Bernardo em 2016. O então prefeito Luiz Marinho, do PT, não conseguiu manter um candidato do mesmo grupo político no comando da cidade, sendo derrotado nas urnas por Orlando Morando. O clube voltou a ter Edinho Montemor como presidente e líder do futebol.

– Na verdade, não houve alternância de direita e esquerda, até porque a gente nunca trouxe isso para dentro do clube. Quem acabou fazendo isso foi um prefeito que acabou confundindo muito as coisas e achando que o clube era ligado a esse ou aquele partido, quando, na verdade, não era. São Bernardo, ainda que o presidente, na época, o Luiz Fernando, usasse o clube como um certo palanque eleitoral, político para ele, não era um clube de partido, não era um clube que tinha direita ou esquerda, até porque eu não sou de esquerda. E, apesar do Luiz Fernando e do Luiz Marinho serem de esquerda, dentro do clube não havia isso. Tanto que o clube voltou para as minhas mãos depois.

– A gente procurou sempre trabalhar junto lá, o Luiz Fernando, eu, meu filho, o prefeito na época, Luiz Marinho, que ajudou bastante também reformando o estádio, iluminação, deixando o nosso gramado, o nosso estádio realmente em condições de disputar campeonatos importantes de Série A1, Copa do Brasil, etc – explica Edinho Montemor.

Em 2016, o São Bernardo avançou às quartas de final do Paulistão, sendo eliminado pelo Palmeiras de Gabriel Jesus. O Tigre, no entanto, conquistou uma vaga para disputar a Série D do Brasileirão.

No ano seguinte, em 2017, o São Bernardo amargou novamente o rebaixamento para a Série A2 do Campeonato Paulista depois de ficar na penúltima colocação do estadual. Apesar disso, o clube fez boa campanha em sua primeira participação no Campeonato Brasileiro. O São Bernardo foi eliminado apenas na terceira fase, encerrando o torneio com a nona melhor campanha na classificação geral.

Em 2018 e 2019, o São Bernardo não conseguiu fazer boas campanhas e permaneceu na Série A2 do Campeonato Paulista. O clube ainda apostou em uma parceria com a Elenko Sports, mas o projeto durou pouco tempo e o clube optou por um novo modelo de negócio.

Como o Bernô era mantido?

Apesar da forte ligação com a política, ambas as gestões que passaram pelo São Bernardo antes da SAF afirmam que nunca houve qualquer entrada de dinheiro público no clube. A manutenção do elenco e da estrutura eram basicamente por meio de patrocinadores locais – o São Bernardo sempre teve apoio de empresários da cidade – e de cotas da Federação Paulista de Futebol.

A manutenção e os custos com o estádio Primeiro de Maio eram de responsabilidade do clube, e a exceção foi a reforma do local com dinheiro público. Além da construção de setor para imprensa e camarotes, a prefeitura de São Bernardo do Campo mandou instalar iluminação no estádio, que até 2011 não recebia jogos à noite por conta da falta de refletores.

Tanto Edinho Montemor quanto Luiz Fernando dizem que chegaram a colocar dinheiro do próprio bolso no clube. Por conta do recurso limitado para investimentos, o São Bernardo alternou entre rebaixamentos e acessos até conseguir se consolidar depois da venda para um empresário.

O fim da polarização

No fim de 2019, o São Bernardo foi vendido por Edinho Montemor ao Grupo Magnum, empresa fabricante de relógios e do mercado financeiro, encabeçada pelo empresário Roberto Graziano, que chegou a ter interesse na aquisição do Guarani.

A negociação foi praticamente uma troca de dívidas. A família do fundador do clube acumulava dívidas de cerca de R$ 2 milhões, além de pendências fiscais e trabalhistas em nome do São Bernardo. O acordo entre as partes foi o pagamento desses ativos para a transição de poder.

O empresário comprou 100% das ações da SAF do São Bernardo e passou a ser o único controlador do clube, sem qualquer ligação com grupos políticos. Desde então, o Tigre tem conseguido bons resultados esportivos.

– Hoje te afirmo que o São Bernardo é apolítico, nós não defendemos e levantamos bandeira política para nenhum lado, seja esquerda ou direita. O clube tem um proprietário e nós praticamos apenas o futebol e a gestão do negócio em si. Mas, se faz parte da história, eu acho que precisa ser lembrado por aqueles que fizeram, e hoje a gente vive uma realidade distinta disso – disse Marco Gama, atual executivo de futebol do São Bernardo.

No primeiro ano da nova gestão, o São Bernardo acabou eliminado na semifinal da Série A2 e da Copa Paulista. O grande choque foi a morte do técnico Marcelo Veiga, vítima da pandemia de Covid-19.

No ano seguinte, em 2021, o São Bernardo conquistou o título da Série A2 do Paulista, retornando para a elite estadual, e da Copa Paulista, garantindo participação na Série D do Campeonato Brasileiro.

Em 2022, o São Bernardo chegou a ter a melhor campanha geral do Paulistão. Classificado para as quartas de final, o Tigre acabou sendo eliminado pelo São Paulo. Na Série D do Brasileiro, o Tigre fez grande campanha e conseguiu o acesso, mas acabou eliminado na semifinal da competição pelo América-RN.

Na temporada seguinte, o São Bernardo novamente garantiu vaga nas quartas de final do Paulistão, mas acabou eliminado pelo Palmeiras. O Tigre foi campeão da Taça Independência – antigo Troféu Interior – ao derrotar o Mirassol na decisão. Na Copa do Brasil, o São Bernardo caiu ainda na primeira fase para o Náutico. Em sua primeira participação na Série C do Brasileiro, o time ficou pelo caminho.

Em 2024, o São Bernardo foi eliminado na primeira fase do Campeonato Paulista. Na Copa do Brasil e na Série C do Brasileiro, o Tigre acabou caindo na segunda fase.

No ano passado, o São Bernardo avançou em primeiro lugar do seu grupo no Campeonato Paulista e acabou eliminado nas quartas de final para o Palmeiras. A campanha foi a melhor do clube na história do estadual. Na Série C, entre altos e baixos, o clube conseguiu conquistar o sonhado acesso ao terminar a competição no quarto lugar, garantindo uma das vagas na Série B deste ano.

Nos últimos seis anos, o clube teve apenas três técnicos: Marcelo Veiga, que morreu de Covid-19, foi substituído por Márcio Zanardi. Desde 2024, Ricardo Catalá comanda o São Bernardo, sendo o terceiro treinador mais longevo do Brasil, atrás apenas de Abel Ferreira, do Palmeiras, e Rogério Ceni, do Bahia.

– Acho que o fato de estar sob uma gestão que é neutra nesse aspecto facilita muito, mas eu acho que não se deve negligenciar tudo isso porque isso é parte da história do clube e provavelmente também é parte da construção de uma identidade do torcedor. O torcedor do São Bernardo se forjou e foi sendo constituída essa torcida ao longo dessas outras gestões. Então, o clube acaba tendo uma conexão com tudo que aconteceu politicamente no clube nos últimos anos e no país. Embora hoje eu possa te dizer que as nossas decisões são totalmente isentas de qualquer teor político.

– Futebol, religião e política precisam andar separados porque culturalmente são muito intrínsecos. Elas estão muito lá dentro daquilo que é cada um como indivíduo e eu acho que o primeiro passo para a gente conviver bem em sociedade é que cada um respeite a posição do outro. Hoje a gestão nova do São Bernardo faz bem para que o São Bernardo cresça livre de qualquer influência política – disse Ricardo Catalá, técnico do Bernô.

A atual temporada é de calendário cheio para o São Bernardo, com quatro competições. O clube acabou eliminado na primeira fase do Paulistão, caiu na terceira fase da Copa do Brasil e ocupa a terceira colocação da Série B do Brasileiro, além da penúltima posição na primeira edição da Copa Sul-Sudeste.

Em termos de estrutura, atualmente o Bernô aluga o centro de treinamento de propriedade do ex-jogador Marcelinho Carioca em Atibaia. O grupo que controla o clube recentemente adquiriu um terreno na divisa de São Bernardo do Campo e Diadema para a construção de um CT próprio.

Estádio emblemático

O estádio Primeiro de Maio, casa do São Bernardo, tem o nome em homenagem ao Dia do Trabalhador. O local tem ligação direta com os movimentos de esquerda, com o presidente Lula sendo o grande articulador dos primeiros movimentos grevistas desde a instauração da ditadura civil-militar no Brasil.

Em maio de 1979, estima-se que cerca de 60 mil metalúrgicos estiveram no estádio, no que é considerada até hoje a maior greve da história do Brasil.

Inaugurado em 1968, o estádio era batizado de Arthur da Costa e Silva, militar e eleito o 27º presidente da história do Brasil, o segundo do período da ditadura militar. Na década de 1980, no entanto, o local foi rebatizado como Primeiro de Maio por Tito Costa, prefeito de São Bernardo do Campo na época pelo PMDB.

Desde fevereiro de 2022, o Primeiro de Maio é explorado pelo Grupo Magnum em um contrato de concessão válido por 10 anos, podendo ser prorrogado por outros cinco. Com isso, o São Bernardo tem o direito de explorar todas as propriedades do local com a contrapartida de custear a sua manutenção.

O EC São Bernardo, outro clube da cidade, tem mandado os seus jogos em Mogi das Cruzes, já que o estádio Giglio Portugal Pichinin, o Baetão, está interditado pela Federação Paulista.

Mais sobre o São Bernardo

Fundação: 20 de dezembro de 2004 Uniforme: camisa amarela, calção preto e meias bicolor Mascote: Tigre Apelido: Bernô, Tigre do ABCTítulos: Copa Paulista (2013 e 2021); Série A2 do Paulista (2012 e 2021), e Taça Independência (2023).



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