• Quarta, 04 de Novembro de 2026

O papel do arquiteto no planejamento bioclimático diante das mudanças climáticas

CAIO FREDERICO E SILVA (*) / CAMPO GRANDE NEWS


A arquitetura é, antes de tudo, uma ciência ligada ao ambiente local. É esse vínculo que explica por que as melhores obras arquitetônicas se destacam pelo uso eficiente de materiais regionais e de estratégias adaptadas ao clima do lugar. Recorrer a técnicas locais é fundamental tanto para produzir boas obras quanto para enfrentar a crise climática e é justamente esse princípio que está em jogo num mundo cada vez mais desafiado pelo clima.

Desde que o ar-condicionado se tornou uma tecnologia comum nas edificações, porém, muitos projetistas passaram a substituir as técnicas vernaculares em favor da simples instalação de sistemas mecânicos de climatização. É preciso entender que o ar-condicionado não é a única solução para se obter conforto térmico, mas deve ser uma solução complementar à boa arquitetura bioclimática. Nesse contexto, o maior desafio do arquiteto contemporâneo é convencer as pessoas de que um sistema mecânico não deve ser a única resposta ao conforto térmico, dispensando a escolha adequada de materiais e outras estratégias de projeto. As melhores edificações são aquelas que combinam boas práticas de arquitetura vernacular e técnicas locais com sistemas mecânicos, em vez de depender exclusivamente deles.

Diante disto, acredito que os arquitetos têm muito a oferecer para reduzir os problemas climáticos nas edificações e nas cidades. Na escala urbana, a estratégia mais importante é garantir a preservação das áreas verdes, sobretudo as de uso público como parques, ruas e praças arborizadas. A vegetação é peça chave para moderar o clima extremo e preservar a biodiversidade, pois enquanto infraestrutura verde, é uma solução eficaz para manter condições ambientais mais equilibradas e reduzir o impacto das ondas de calor e de fenômenos climáticos como o El Niño, relacionados às mudanças climáticas nas cidades. Infelizmente, a distribuição de áreas verdes das cidades não é a mesma para todos. No caso do Distrito Federal, áreas como a Estrutural tem vinte e uma vezes menos arborização do que o Lago Sul (Romero e Silva, 2022), assim, compreendemos que o impacto microclimático traz certamente um recorte socioeconômico que requer um planejamento bioclimático que reequilibre essa equação.

Arquitetos e urbanistas devem ser profissionais socialmente engajados e capazes de propor soluções para os problemas socioambientais. Na escala do edifício, algumas estratégias se somam a essa lógica: preservar áreas verdes e permeáveis no entorno das edificações, projetar elementos de sombreamento para as fachadas, garantir o isolamento térmico das coberturas, projetar janelas e aberturas com adequada proteção solar, coberturas e telhados com materiais isolantes que reduzam o ganho excessivo de calor, projetar elementos construtivos como paredes cuja composição diminua a transmissão solar, pois arquitetos devem projetar espaços para minimizar os problemas climáticos e que favoreçam a ventilação natural e cruzada, o que garantem, além do conforto, qualidade do ar e salubridade.

Ponderamos que as mudanças climáticas não são uma questão apenas de decisões locais pois estão relacionadas às esferas política, econômica e de gestão. Mesmo que individualmente, alguém pretenda preservar uma área verde ou promover a ventilação natural em sua própria casa, a garantia dessa possibilidade depende de políticas públicas voltadas ao seu bairro. No contexto do campus universitário, por exemplo, é preciso que a comunidade acadêmica esteja convencida da importância da melhoria dos espaços acadêmicos como salas de aula, mas também dos seus espaços públicos, coletivos e uso comum. Enquanto comunidade universitária, precisamos apoiar os tomadores de decisão na defesa de que as estratégias bioclimáticas são um caminho real para enfrentar a crise climática. Nesse contexto, investir em letramento ambiental e bioclimático para todos é essencial para promovermos espaços mais sustentáveis e mais preparados para enfrentar os problemas ligados aos climas extremos.

(*) Caio Frederico e Silva é diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília. Doutor pela UnB e Arquiteto e Urbanista pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Bolsista Produtividade do CNPq (desde 2023). Fez Pós-doutorado na Graduate School of Design (GSD) da Universidade de Harvard (2019-2020).

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