Coronel Sapucaia
Crime recruta jovens pela internet e desafia segurança a agir antes da violência
Encontro no Chile debate recrutamento de crianças e adolescentes e cobra ações de inteligência e educação
JOSé CâNDIDO / CAMPO GRANDE NEWS
O primeiro contato pode ocorrer pela internet. A tarefa inicial pode ser vigiar uma rua ou transportar uma encomenda. Aos poucos, crianças e adolescentes são envolvidos em atividades mais graves por organizações criminosas. Interromper esse caminho antes que a violência aconteça é um dos desafios discutidos nesta quinta-feira (22), no 2º Encontro da Rede Parlamentar de Segurança do ParlAmericas, no Chile.
O debate coloca a prevenção no centro da política de segurança: além de investigar crimes e prender responsáveis, como identificar quem está sendo recrutado e impedir que o aliciamento avance? A resposta apresentada por especialistas reúne inteligência, educação, proteção social e responsabilização de quem explora crianças e adolescentes.
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Representante do Instituto Interamericano da Criança e do Adolescente, ligado à Organização dos Estados Americanos (OEA), Sara Rodríguez alertou que o recrutamento pode começar com tarefas de vigilância e transporte. Também destacou que adolescentes envolvidos em atos infracionais podem ter sido coagidos ou explorados, condição que precisa ser considerada no atendimento e na atuação das autoridades.
A dimensão do problema, porém, ainda esbarra na falta de informações. Em setembro, o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) alertou para a insuficiência de registros estatísticos capazes de dimensionar o recrutamento de crianças e adolescentes no Brasil. Sem conhecer o alcance e as formas de atuação dos aliciadores, o poder público tem mais dificuldade para direcionar medidas de prevenção.
“O indicador de sucesso de uma política de segurança pública em relação à infância não pode ser quantos adolescentes são apreendidos, mas quantos deixaram de ser aliciados', afirmou Alexandra Martins, representante do UNODC, em debate realizado em São Paulo no mês passado.
Único parlamentar brasileiro presente no encontro no Chile, o senador Nelsinho Trad (PSD-MS) é relator do PL 6.423/2025, que estabelece regras para a atividade de inteligência de Estado. A votação foi adiada em julho, a pedido da liderança do governo, para ampliar a discussão sobre o texto. Senado Notícias
A proposta aborda técnicas sigilosas, acesso a dados e mecanismos de controle. O desafio legislativo é dar ao Estado condições de identificar ameaças e antecipar respostas, com limites e fiscalização que protejam os cidadãos contra abusos e o uso político da inteligência. Senado Notícias
Em Mato Grosso do Sul, que faz fronteira com Paraguai e Bolívia, a discussão tem relevância diante da atuação de redes criminosas que atravessam países. O aliciamento em ambientes digitais acrescenta outra dificuldade: a aproximação entre recrutadores e vítimas pode ocorrer a distância, exigindo cooperação e troca de informações entre autoridades.
A capacidade de transformar decisões em resultados também foi discutida no encontro. Rodrigo Nakada Castro, do Centro de Estudos de Justiça das Américas (CEJA), apresentou estudo preliminar segundo o qual 61,2% das reformas analisadas na região são parciais ou incrementais.
O pesquisador defendeu que mudanças na legislação penal tenham objetivos definidos, recursos previstos e indicadores de resultado, com avaliação antes e depois da implementação. O endurecimento das penas, por si só, não garante redução da criminalidade quando faltam profissionais, estrutura e condições de execução.
A proteção de mulheres e meninas foi outro eixo do debate. Ana Elena Obando-Mendoza, assessora jurídica para a América Latina e o Caribe da organização Equality Now, apontou obstáculos no acesso à Justiça, entre eles estereótipos de gênero, repetição de depoimentos e falhas na articulação entre polícia, Judiciário e serviços de saúde.
Segundo ela, grupos criminosos também usam ameaças, violência sexual e dependência econômica para controlar mulheres e meninas. Enfrentar essa exploração exige uma rede capaz de reconhecer o risco, acolher as vítimas e oferecer condições para que rompam com a violência.
Em Mato Grosso do Sul, os números reforçam a necessidade de prevenção. Segundo os dados do Monitoramento Nacional da Violência contra a Mulher citados no encontro, o Estado registrou 18 vítimas de feminicídio entre janeiro e julho de 2026, ante 17 no mesmo período de 2025.
Os debates convergem para uma cobrança concreta: medir a segurança também pela violência que o poder público consegue evitar. Isso exige identificar o recrutamento antes que ele se consolide e fazer a proteção chegar a crianças, adolescentes e mulheres enquanto ainda há tempo de interromper a ameaça.
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