• Sexta, 02 de Outubro de 2026

A tabuleta do Custódio

GILLIANNO MAZZETTO (*) / CAMPO GRANDE NEWS


Rua do Catete, Rio de Janeiro, novembro de 1889. Um confeiteiro olha para uma tabuleta recém-pintada e não sabe onde enfiá-la.

O confeiteiro se chama Custódio e nunca existiu; é invenção de Machado de Assis em Esaú e Jacó. Mas aquela tabuleta talvez seja o documento mais honesto já produzido sobre a república brasileira. Durante trinta anos, a casa se chamou Confeitaria do Império. As letras desbotaram, o pintor avisou que retoque não havia, e Custódio, com dor no bolso, encomendou placa nova, com o nome de sempre. Pagou. Na manhã de 15 de novembro, com a tinta ainda fresca, o Império acabou.

Custódio corre ao Conselheiro Aires, diplomata aposentado e homem que concorda com todos para não precisar discordar de ninguém. Trocar para Confeitaria da República? E se a república não pegar? Aires, então, sugere a saída mais brasileira que um personagem de ficção já concebeu: Confeitaria do Governo. Serve para qualquer regime. O confeiteiro hesita, porque todo governo tem oposição, e oposição costuma atirar pedra em tabuleta. Acaba pintando o próprio nome. Gastou alguma coisa com a troca de uma palavra por outra, anota o narrador, 'mas as revoluções trazem sempre despesas'.

Lembrei-me de Custódio ao revisitar Presidente da Semana, a série da Folha de S.Paulo em que o jornalista Rodrigo Vizeu contou, em 29 episódios lançados em 2018, a vida de cada presidente do país, de Deodoro ao eleito daquele ano. Ouvida em sequência, como quem folheia o álbum de uma família numerosa, ela deixa uma impressão incômoda. Mudam os rostos, os bigodes, as fardas, as siglas. A tabuleta é a mesma.

Comece pelo início. O homem que proclamou a República era monarquista e amigo pessoal do imperador. Deodoro saiu de casa, doente, para derrubar um gabinete, não um trono. Conta-se, e a versão é saborosa demais para que alguém se dê ao trabalho de enterrá-la, que ele só assinou o fim da monarquia quando lhe sopraram que dom Pedro chamaria para chefiar o governo o gaúcho Silveira Martins, seu desafeto antigo e, segundo as más línguas, seu rival no afeto de uma mesma senhora. Um regime de 67 anos caiu, entre outras razões, por despeito. O povo, escreveu dias depois o republicano Aristides Lobo, assistiu a tudo 'bestializado'.

Quatro dias depois veio a bandeira. O lema que está nela é recorte de uma frase do filósofo francês Auguste Comte: o amor por princípio, a ordem por base, o progresso por fim. Os positivistas que a desenharam guardaram a ordem e o progresso. O amor ficou no chão do ateliê, como retalho de pano. Até hoje não voltou. Afinal, amor não sustenta regime: é instável, volátil, nitroglicerínico.

Depois vieram os civis do café. Campos Sales montou um acordo de cavalheiros que dispensava cavalheirismo: o presidente sustentava os chefes estaduais, e os chefes estaduais devolviam a gentileza em forma de bancadas obedientes. Havia eleição. O resultado, quase sempre, chegava antes dela. São Paulo e Minas revezavam a cadeira como quem reveza a cabeceira do almoço de domingo.

Em 1930, um gaúcho de baixa estatura chegou ao Rio prometendo acabar com aquele arranjo, e acabou, para instalar outro, mais centralizado, que em 1937 fechou o Congresso e passou a se chamar Estado Novo. Mas o momento mais machadiano de Getúlio Vargas vem em 1945, quando ele sente o vento virar. Do mesmo homem nascem dois partidos de almas opostas: o PSD, dos interventores e dos chefes políticos do interior, e o PTB, dos sindicatos. Um para a sala de visitas, outro para a cozinha. Meses depois, Getúlio é deposto pelos generais, com o aval de Eurico Dutra, que fora seu ministro da Guerra e agora disputava a sua sucessão. E o que faz o deposto? Às vésperas da eleição, manda avisar: 'Ele disse: vote em Dutra'. Cinco anos depois, voltava ao palácio pelo voto, nos braços do mesmo povo que o vira cair.

Em 1960, o eleitor, que podia escolher presidente e vice separadamente, produziu uma obra-prima. Elegeu Jânio Quadros, com sua vassoura apoiada pela UDN, e João Goulart, herdeiro de Getúlio, da chapa adversária. Houve comitê que distribuía as duas cédulas juntas, o tal Jan-Jan. A vassoura durou menos de sete meses.

Em 1964, os civis que aplaudiram a queda de Jango esperavam a eleição presidencial marcada para o ano seguinte, cada qual com o seu nome já pintado na placa. A eleição não veio. E então Carlos Lacerda, o tribuno que passara a vida combatendo Getúlio, Juscelino e Jango, foi sentar-se com Juscelino e Jango na mesma Frente Ampla. A conveniência faz milagres que a fé não ousa.

Em junho de 1984, José Sarney presidia o PDS, o partido do regime militar. Em agosto, era candidato a vice na chapa da oposição. Em abril de 1985, com a morte de Tancredo, tornava-se o primeiro presidente civil em 21 anos. A Nova República foi inaugurada pelo presidente do partido da velha.

Daqui em diante, prefiro parar de dizer nomes. Não por prudência de véspera de eleição, mas por método: o padrão que vem depois vale para todos os lados, e quem precisa de um rosto para enxergá-lo já escolheu de que lado vai ser cego. Quem acompanhou as últimas décadas viu o adversário de uma campanha virar ministro do governo seguinte, o partido que pedia impeachment pedir cargos, siglas mudarem de nome como Custódio quis mudar a placa. Escrevi aqui há algumas semanas que, entre nós, a culpa é sempre da bala. Faltou dizer que a bala também troca de coldre.

A república brasileira trocou de constituição meia dúzia de vezes e de moeda mais vezes do que a memória alcança. Nunca trocou de bandeira. Não falo da de Teixeira Mendes, que segue lá, com sua ordem e seu progresso. Falo da outra, a que ninguém hasteia e todos saúdam. A da conveniência.

Até aqui, este texto é confortável. Dá para lê-lo com o prazer de quem assiste a um desfile de culpados, cada qual com sua farda ou seu terno, todos bem longe, no Catete, em Brasília ou nos livros. Mas releia a cena da Rua do Catete e repare em quem está com medo. Não é o marechal, nem o conselheiro. É o comerciante. E o comerciante não teme a república; teme o freguês.

Tabuleta é coisa que se pinta para quem passa na calçada. Nenhum confeiteiro escreveria Confeitaria do Governo se a freguesia não entrasse justamente para isso: buscar o doce do governo, venha ele de onde vier. Os presidentes desta galeria penduraram as placas que vendiam. Quem comprava éramos nós.

Desconfio de quem trata a conveniência como vício exclusivo dos poderosos. Ela é a primeira língua que aprendemos: a criança que chora mais alto para o pai que cede, o funcionário que concorda com o chefe da vez, o eleitor que pergunta, antes de qualquer coisa, o que vai levar para casa. Querer viver bem nunca foi pecado. O pecado começa quando chamamos isso de convicção.

Res publica, diziam os romanos: a coisa pública, aquilo que é de todos. Nós a transformamos, sem decreto e sem quartelada, na Confeitaria do Governo, esse balcão onde cada um entra para buscar a sua parte e sai reclamando do preço. O nome do confeiteiro, aliás, não é acaso. Custódio é aquele que guarda. Guardou a loja. A república ficou na calçada.

Domingo, 4 de outubro, milhões de nós vão entrar numa cabine de votação sem celular, sem testemunha, sem freguês a agradar. É talvez o único lugar do país onde ninguém precisa pendurar tabuleta. Diante da urna haverá números, rostos, siglas e, no fim, uma tecla verde com uma única palavra escrita: confirma.

Resta saber o quê.

(*) Gillianno Mazzetto é filósofo e PhD em Psicologia.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.



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