• Sábado, 26 de Setembro de 2026

Lixo zero começa nas compras e muda a rotina de empresas em MS

Troca de descartáveis, compostagem e treinamento fazem parte do dia a dia de empreendimentos certificados

INARA SILVA / CAMPO GRANDE NEWS


Cestos indicam separação de lixo no atrativo turístico Estrela do Formoso (Foto: Divulgação)

O lixo de uma empresa começa a tomar forma antes de chegar à lixeira. Está no copo usado uma vez só, no documento impresso sem necessidade e nas embalagens que poderiam ser evitadas na compra. Reduzir o descarte exige rever escolhas feitas todos os dias e envolver quem trabalha em cada etapa.

No Estrela do Formoso, atrativo turístico de Bonito, a mudança começou com o mau cheiro dos restos de comida misturados aos demais resíduos. O material ficava armazenado até a coleta semanal e tornava desagradável o trabalho da equipe. A solução inicial foi separar os orgânicos para compostagem. Depois, a separação chegou a outros materiais.

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É a partir de experiências como essa que esta série de reportagens examina o destino dos resíduos e a busca de empresas pela Certificação Lixo Zero. Antes de pensar no reconhecimento, porém, é preciso saber o que se joga fora. A pesquisadora, advogada e professora Maira Portugal recomenda registrar, por uma ou duas semanas, o tipo, a quantidade e a origem dos resíduos. O levantamento ajuda a identificar desperdícios e a escolher onde agir primeiro.

“Quem mede, melhora; quem não mede, apenas imagina que melhora', afirma Maira, que é presidente do IBRAPARC (Instituto Brasileiro de Pesquisa Aplicada em Resíduos e Clima).

No Estrela do Formoso, os funcionários já separavam latinhas para venda quando os restos de comida passaram a ser recolhidos para compostagem. Segundo o sócio-proprietário Lucas Alves Ferreira, a empresa ampliou a prática aos demais materiais recicláveis. A equipe lava e seca as embalagens antes do encaminhamento, e um funcionário confere os pontos de descarte. O atrativo também deixou de oferecer copos plásticos e canudos.

Mudança na rotina - Para Lucas, a maior dificuldade foi envolver a equipe em tarefas que antes não faziam parte do trabalho. A implantação exigiu treinamento, consultoria e um espaço para armazenar os materiais separados. Segundo ele, a construção dessa estrutura custou cerca de R$ 40 mil. A coleta dos orgânicos para compostagem representa uma despesa aproximada de R$ 2 mil por mês. São valores da operação do atrativo, não uma estimativa do custo para outras empresas começarem a separar seus resíduos.

A mensuração no Estrela do Formoso começou em dezembro de 2024. Conforme o boletim apresentado pelo empreendimento, entre julho de 2025 e julho de 2026 foram monitorados 13.965,46 kg de resíduos. Os orgânicos responderam por 10.070,19 kg; os recicláveis, por 2.354,30 kg; e os resíduos classificados como perigosos, por 749,52 kg, incluindo óleo de cozinha, eletrônicos, pilhas, lâmpadas e baterias.

Os 791,45 kg restantes eram rejeitos, principalmente materiais dos banheiros, como papel higiênico, fraldas e absorventes, segundo Lucas. Essa parcela foi enviada ao aterro sanitário. O boletim informa taxa de desvio de aterro de 94,4% no novo ciclo, ante 93,3% na certificação anterior. O Estrela recebeu sua primeira certificação em julho de 2025.

Uma empresa de Bonito recolhe os orgânicos e os encaminha à compostagem. Lucas afirma que paga mensalmente pelo serviço conforme a quantidade gerada. Para ele, o investimento tem relação com a atividade do empreendimento, pois, na sua visão, quem trabalha com turismo ecológico também precisa cuidar dos resíduos produzidos ao receber visitantes. Ele diz que o maior retorno dessas medidas é ambiental.

Além da gestão dos resíduos sólidos, Lucas afirma que o Estrela trata os efluentes gerados na cozinha e nos banheiros e reutiliza a água tratada na irrigação. Segundo ele, é o único passeio de Bonito que trata 100% de seus efluentes. O empresário explica que a propriedade fica em área rural, sem rede de esgoto, o que exigiu uma solução própria para o tratamento.

A gerente de Sustentabilidade do Sistema Fiems, Cláudia Borges, afirma que a separação depende de orientação para todos os envolvidos. Quem gera o resíduo precisa saber onde descartá-lo, enquanto a empresa deve medir o que produz e registrar para onde envia cada material. Em um escritório, por exemplo, reduzir impressões e retirar copos descartáveis são medidas que podem iniciar essa mudança.

Maira acrescenta que instalar lixeiras de coleta seletiva, por si só, não resolve o problema. É preciso evitar desperdícios, rever compras e embalagens e comprovar a destinação dos materiais. Para ela, uma prática consistente deve ter números verificáveis, metas, responsáveis e continuidade.

A especialista alerta que o lixo zero é diferente do greenwashing, ou seja, a maquiagem verde que divulga ações ambientais sem apresentar resultados que comprovem a redução e a destinação adequada dos resíduos.

Reconhecimento - Além do Estrela do Formoso, em Bonito há outros exemplos de sustentabilidade como o Parque Ecológico Rio Formoso, o primeiro atrativo turístico do Brasil a conquistar a Certificação Lixo Zero, em fevereiro de 2025. Na gastronomia, o Bacuri Cozinha Regional recebeu a certificação em abril de 2026. Mais recentemente, a Estância Mimosa também foi certificada, após alcançar índice de 95,5% na gestão dos resíduos.

O empresário Lucas afirma que começou a mudar a gestão dos resíduos para resolver um problema da operação, antes de buscar a Certificação Lixo Zero. Após ampliar a separação e o controle dos materiais, o reconhecimento veio, nas palavras dele, para “coroar o trabalho' que já era feito.

O Instituto Lixo Zero Brasil concede a Certificação Lixo Zero após a verificação das práticas e dos registros do empreendimento. Ela tem validade de um ano. Lucas afirma que o Estrela do Formoso apresenta relatórios periódicos sobre os resíduos e passa por auditoria para validar os resultados.

Segundo Cláudia Borges, gerente de Sustentabilidade do Sistema Fiems, a Certificação Lixo Zero exige que pelo menos 90% dos resíduos sejam desviados do aterro. Quem desvia de 50% a menos de 90% pode receber o selo Rumo ao Lixo Zero. O cálculo considera, além da reciclagem, práticas como reutilização e compostagem. Para demonstrar o resultado, a organização precisa medir o que gera e comprovar o destino dos materiais.

A certificação também alcançou indústrias de Campo Grande. Entre elas estão a fábrica da Coca-Cola FEMSA Brasil, do setor de bebidas, e o Grupo Real H, que atua em nutrição e saúde animal.



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