• Sábado, 26 de Setembro de 2026

Regatas, circos e bailes contam como Corumbá se divertia há mais de um século

Pesquisa da UFMS mostra onde aconteciam as diversões e por que algumas eram celebradas e outras, reprimidas

INARA SILVA / CAMPO GRANDE NEWS


Embarcações no Rio Paraguai, em registro histórico de Corumbá, no Pantanal. (Foto: Album Graphico do Estado de Mato Grosso)

Entre o fim do século 19 e o início do século 20, o Rio Paraguai virava palco de regatas, passeios e banhos em Corumbá, no Pantanal de Mato Grosso do Sul. Pelas ruas, circos, bailes, teatro e jogos também movimentavam a cidade. Essas diversões revelam como os moradores ocupavam os espaços públicos e por que algumas práticas eram celebradas, enquanto outras enfrentavam restrições.

É essa a história que o professor Leonardo do Couto, do campus Pantanal da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), investiga desde 2024. Ao examinar jornais da época e outros documentos, ele busca entender onde aconteciam os divertimentos, quem participava deles e por que alguns eram apresentados como sinais de progresso, enquanto outros recebiam críticas ou eram alvo de vigilância.

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O Rio Paraguai é uma das peças centrais no estudo, uma vez que, além de servir ao transporte, ao comércio e ao abastecimento, suas margens recebiam banhistas, passeios e espectadores. As regatas aparecem nos registros das últimas décadas do século 19. No início do século 20, ganharam horários, categorias, premiações e juízes, em um processo gradual de organização como esporte.

O centro da cidade também era palco para diversão. Por ali, circos também se instalavam em praças e terrenos acessíveis. Segundo Leonardo, os primeiros registros circenses localizados pela pesquisa são de 1880. Mais tarde, espetáculos de variedades chegaram a reunir números de circo, teatro e exibições cinematográficas.

Conforme o levantamento, o porto ajudava a trazer essas novidades. Por ele circulavam viajantes, companhias artísticas, notícias e costumes de outras cidades e países. Cinema e teatro também na região central conviveram com festas, cururu, jogos e banhos de rio, às vezes no mesmo período e sob olhares bem diferentes da imprensa.

“Perguntamos não apenas como Corumbá se divertia, mas quem podia se divertir, em quais espaços, sob quais regras', explica o pesquisador. Clubes, competições e certos espetáculos podiam exigir dinheiro ou relações sociais que restringiam o acesso. Já festas públicas, circos, ruas e margens do rio reuniam públicos mais amplos. Banhos, ruídos noturnos, jogos e festas populares, porém, também apareciam em queixas e tentativas de controle.

Olhar da imprensa - Os jornais são a principal fonte do estudo, mas, conforme o pesquisador, exigem cuidado. Eles registravam com mais facilidade autoridades, organizadores e pessoas de maior reconhecimento social. Homens aparecem frequentemente como competidores e dirigentes; mulheres, sobretudo em relatos de bailes, plateias e ações beneficentes. Leonardo ressalta que há pouca visibilidade de mulheres, trabalhadores e grupos racializados nesses documentos, no entanto, isso não quer dizer que eles não participassem da vida da cidade.

Até agora, a pesquisa resultou em dois artigos publicados e um terceiro aceito para publicação. O trabalho também envolve estudantes da UFMS, que organizam fontes e ajudam a reconstruir a história dessas práticas. Os próximos passos incluem ampliar a consulta a documentos municipais, registros de clubes, fotografias e relatos pessoais.

Para o professor, olhar para as antigas diversões é também uma maneira de reconhecer a Corumbá de hoje. O porto, as margens do rio e o Casario permanecem na paisagem, ainda que seus usos tenham mudado.



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