• Terça, 15 de Setembro de 2026

Prefeitos reagem a alerta dos EUA sobre risco máximo de violência em MS

Corumbá e Ponta Porã estão em área classificada como de alto perigo pelo governo norte-americano

CLARA FARIAS E BRUNA MARQUES / CAMPO GRANDE NEWS


Fuzis, pistolas, revólver, munições e equipamentos apreendidos durante operação em Corumbá, após a morte de soldado (Foto: Divulgação)

“Não viaje'. A recomendação é do governo dos Estados Unidos e coloca em nível máximo de alerta uma faixa de 160 quilômetros da fronteira brasileira com Paraguai e Bolívia. Em Mato Grosso do Sul, a classificação atinge cidades como Corumbá e Ponta Porã, justamente em uma região marcada pela atuação de organizações criminosas e pelas rotas internacionais do tráfico de drogas.

Diante do alerta, o Campo Grande News procurou os prefeitos das duas cidades para saber se eles consideram a avaliação norte-americana justa ou exagerada e quais medidas pretendem adotar diante do cenário.

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Para o prefeito Eduardo Campos (PSDB), de Ponta Porã, a classificação é um “exagero gritante'. Na avaliação dele, o alerta não prejudica a imagem da cidade nem o turismo local.

“Ponta Porã é uma cidade que tem um clima absolutamente tranquilo. Esse clima que estão tentando vender não é uma realidade. [...] Não imagino que a Prefeitura tenha que tomar nenhuma medida concreta com relação a isso. É vida que segue, a gente vai continuar tocando a nossa vida aqui com normalidade dentro daquilo que a gente entende que seja bom para a cidade', disse à reportagem.

Já em Corumbá, a cerca de 600 quilômetros de Ponta Porã, o prefeito Gabriel Alves de Oliveira (PSB), avalia que é preciso reconhecer os desafios existentes na região de fronteira, mas sem transformar a classificação em um retrato da cidade inteira. “É preciso separar as coisas. A fronteira, por sua própria característica, exige atenção permanente e não podemos ignorar a atuação de organizações criminosas e os crimes transnacionais que existem nessa região', afirmou.

Segundo Gabriel, Corumbá tem uma população que vive e trabalha normalmente, além de receber turistas e manter uma relação histórica, cultural e econômica com a Bolívia. Para ele, o alerta pode afetar a percepção de quem planeja uma viagem, mas não deve ser interpretado como uma avaliação específica sobre a segurança do município.

“Temos que trabalhar para mostrar a realidade da cidade com transparência, sem esconder os desafios, mas também sem permitir que eles sejam generalizados', disse.

O prefeito também destacou que a segurança da fronteira não é uma atribuição exclusiva do município e defendeu o trabalho conjunto entre as forças de segurança estaduais, federais e municipais.

Gabriel citou como exemplo a Operação Integrar - Fronteira Pantanal, realizada em março deste ano, que reuniu Polícia Militar, Polícia Civil, DOF (Departamento de Operações de Fronteira), Polícia Federal, PRF (Polícia Rodoviária Federal), Receita Federal, Forças Armadas, Ministério Público, Guarda Municipal e Agência Municipal de Trânsito de Corumbá.

Para o prefeito, a estratégia deve envolver integração, inteligência, presença ostensiva e ações permanentes de prevenção e repressão ao crime organizado. “A Prefeitura vai continuar fazendo aquilo que está dentro das suas atribuições e, principalmente, cobrando e trabalhando em parceria com quem tem competência direta sobre a segurança de fronteira', afirmou.

Gabriel disse ainda que pretende defender o fortalecimento das forças de segurança que atuam na região, a ampliação das operações integradas e investimentos em tecnologia, inteligência e estrutura.

“A fronteira precisa ser protegida, mas Corumbá também precisa ser valorizada pelo que ela é: uma cidade segura para sua população, acolhedora para quem visita e estratégica para o Mato Grosso do Sul e para o Brasil', completou.

Guerra que segue aumentando em todo Estado

A disputa entre organizações criminosas pelo território sul-mato-grossense segue desenfreada. Os episódios, no entanto, não ficam restritos à área fronteiriça, e as investigações apontam para o envolvimento de integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital) e do CV (Comando Vermelho). De Corumbá, na fronteira com a Bolívia, ao leste do Estado, a violência tem colocado diferentes cidades no radar das forças de segurança.

Em Corumbá, onde o soldado da Polícia Militar Marcelo Pimenta da Silva, de 32 anos, foi morto durante uma abordagem, a própria PM (Polícia Militar) aponta que o conflito estaria relacionado a um desacordo interno entre traficantes pelo controle da droga que entra no Estado pela fronteira com a Bolívia.

Na época, o comandante-geral da corporação, coronel Renato dos Anjos Garnes, afirmou que o chamado “arrocho', termo usado para o desvio ou roubo de carregamentos de entorpecentes, está entre os motivos da violência registrada na região.

Já em Maracaju, a 159 quilômetros de Campo Grande, a Polícia Civil passou a investigar a possibilidade de que a execução de Deborah Martines Escardin, de 32 anos, esteja relacionada ao embate entre o PCC e o CV. Ela foi morta a tiros dentro de uma casa na noite de domingo (13), enquanto um homem de 43 anos também foi baleado. Dois homens invadiram o imóvel e efetuaram diversos disparos.

Outro caso marcante, ocorrido em Cassilândia, mais ao leste do estado, matou Márcio Aparecido da Silva Filho, de 27 anos, e a filha de apenas 3 anos. A principal linha de investigação é de que o ataque tenha relação com a guerra entre facções. Dias antes, Márcio havia sobrevivido a outro atentado e teve o nome incluído em uma lista atribuída ao CV.

Em meio aos assassinatos, também passaram a circular listas com nomes e fotografias de pessoas apontadas como integrantes do PCC. As publicações, associadas a perfis de propaganda do CV, trazem ameaças e, em alguns casos, passam a chamar de “eliminados' os alvos que acabam mortos. A Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública), porém, afirma que as postagens são monitoradas pelas forças policiais e não representam uma ameaça relevante à segurança pública do Estado.

Com isto, vem o alerta

Na atualização do alerta de viagens para o Brasil, o governo dos Estados Unidos classificou como nível 4, o mais alto da escala, a faixa de até 160 quilômetros das fronteiras brasileiras com Paraguai e Bolívia. A recomendação para essas áreas é de “não viajar', devido a riscos como atuação de organizações criminosas, violência e sequestros.

Em Mato Grosso do Sul, a zona de atenção inclui municípios como Corumbá, Ladário, Ponta Porã, Bela Vista, Porto Murtinho e Mundo Novo, além de outras cidades próximas às divisas internacionais.

Para funcionários do governo norte-americano, a entrada nessas regiões depende de autorização específica. O alerta, porém, traz uma exceção que pode gerar confusão: o documento informa que a restrição não se aplica ao “Parque Nacional do Pantanal'.

A referência é ao Parque Nacional do Pantanal Matogrossense, que fica em Poconé, no Mato Grosso. A exceção, portanto, não significa que todo o Pantanal esteja fora da área de risco nem altera a classificação de municípios sul-mato-grossenses como Corumbá e Ladário, que permanecem dentro da faixa de 160 quilômetros considerada no alerta.



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