Esportes
Destaque do Inter nos Gre-Nais de 1992 enfrentou HIV e preconceito; conheça a história de Gerson
Centroavante marcou gols decisivos contra o Grêmio e liderou a campanha do único título colorado no torneio enquanto lidava com diagnóstico exposto por dirigente
GLOBOESPORTE.COM / TOMáS HAMMES
Em 1992, o centroavante Gerson foi a grande referência do Internacional na conquista do título da Copa do Brasil.
O atacante marcou dois gols nos clássicos contra o Grêmio, válidos pelas quartas de final daquela edição do torneio nacional.
Gerson terminou a competição com nove gols marcados no total, consolidando-se como o destaque absoluto da equipe.
O jogador alcançou o feito histórico enquanto lidava com o diagnóstico positivo de HIV e o forte preconceito da época.
Meses depois da conquista, o centroavante foi afastado por sua condição de saúde, deixou o clube e morreu em maio de 1994, aos 28 anos.
Enquanto Grêmio e Inter se preparam para decidir uma vaga na Copa do Brasil nesta quinta-feira, na Arena, a memória dos clássicos de 1992 resgata uma das histórias mais marcantes da rivalidade. Há 34 anos, o centroavante colorado Gerson foi o herói da classificação sobre o maior rival e liderou o clube ao seu único título do torneio, justamente no momento mais delicado de sua vida: ele enfrentava, sob os holofotes, o diagnóstico de HIV e o preconceito da época.
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Para avançar às semifinais, o Inter precisa vencer o Grêmio na Arena. Caso haja um novo empate, a vaga será decidida nos pênaltis, repetindo o cenário de três décadas atrás. Nas quartas de final de 1992, após dois empates por 1 a 1 nos Gre-Nais, a decisão foi para as penalidades no Beira-Rio. Gerson marcou os gols do Inter em ambos os clássicos, converteu a primeira cobrança na disputa de pênaltis – vencida pelo Inter por 3 a 0 – e pavimentou o caminho rumo à taça.
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Diagnóstico exposto
Gerson vivia o melhor momento da carreira quando foi diagnosticado com HIV. No início dos anos 1990, o vírus se espalhava rapidamente pelo mundo e o tema era cercado de desinformação. O assunto havia ganhado repercussão global meses antes, quando o astro da NBA Magic Johnson anunciou publicamente ser portador do vírus.
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Em 7 de abril de 1992, o então diretor de futebol do Inter, Romeu Masiero, concedeu entrevista coletiva no Beira-Rio e afirmou que exames indicavam que Gerson estava com HIV. A declaração teve enorme repercussão nos bastidores do clube e provocou uma guerra de versões.
O vice de futebol da época, Lauri Réquia, desmentiu o subordinado. Paulo Vianna, que comandava o departamento médico do clube, também negou o diagnóstico e disse que Gerson estava com caxumba. O jogador, então com 26 anos, deu sua versão.
– Estou com caxumba há vários dias e fui aconselhado pelo departamento médico do clube a ficar em casa de repouso para não agravar o problema – afirmou ao jornal Zero Hora.
A exposição pública do diagnóstico provocou uma forte desgaste político no Beira-Rio, foi seguida de diversas reuniões e culminou no pedido de demissão de Masiero dois dias depois. Procurado pelo ge para comentar o episódio, o ex-dirigente preferiu não se manifestar.
O impacto no vestiário
Se nos gabinetes a situação era tratada com sigilo e negação, no vestiário do Inter os jogadores tentavam processar a notícia. Conforme os jornais da época, Gerson foi o primeiro caso de atleta de elite a testar positivo para HIV no esporte brasileiro.
– Na época foi muito difícil. Não tínhamos muita informação e as coisas foram meio escondidas, talvez pela gravidade da situação. O Gerson nunca abriu nada para nós, então ficamos sem saber o que estava acontecendo. Era uma situação muito grave – recorda Marquinhos, meia daquele time e um dos jogadores mais próximos ao atacante.
O HIV foi descoberto em 1981, quando surgiram os primeiros casos em humanos. Até meados dos anos 1990, receber esse diagnóstico era praticamente uma sentença de morte. Os tratamentos que permitiriam controlar a infecção ainda estavam longe da eficácia alcançada nos anos seguintes.
– Era tudo muito novo em relação ao vírus. Falava-se muito naquela época do Magic Johnson, que tinha o vírus, mas não tinha... Era um negócio que estava lá incubado – lembra Silas, jogador do Inter em 1992 e hoje comentarista esportivo.
Luta contra o preconceito
Dias após ter sua condição exposta, Gerson foi reintegrado ao grupo e ajudou o Inter a superar o Paysandu por 1 a 0, em jogo pelo Brasileirão. O centroavante deu o passe para Lima marcar e voltou a ser protagonista do time comandado por Antônio Lopes.
O desempenho serviu como resposta às provocações. Durante a partida, Gerson ouviu gritos de "camisinha, camisinha" vindos das arquibancadas. As frequentes perguntas sobre o tema também o incomodavam.
– Não tenho a doença e vou processar quem inventou tudo isso – desabafou o jogador aos repórteres em Belém. – Tem horas que me seguro para não mandar todo mundo à merda – disse à Zero Hora.
Gerson ainda passou por outro episódio delicado no hotel que serviu de concentração do clube gaúcho em Belém. Um torcedor quis confirmar se aquele era realmente o atacante colorado.
– Esse é o famoso aidético? – perguntou, conforme reproduziu o jornal.
O grupo de jogadores do Inter tentava blindar o camisa 9 como podia.
– A pressão que era, né? Na época, tinha muita gente maldosa. Jogávamos fora do Rio Grande do Sul e o pessoal pegava no pé dele, mas ele tinha uma cabeça muito boa. A gente dava força para ele, que conseguiu seguir em frente – recorda Marquinhos.
Silêncio na intimidade
A postura firme e a negação em público transformava-se em isolamento e silêncio entre os mais próximos. Ou até constrangimento. Em depoimento dado em 2020 ao portal UOL, a viúva de Gerson, Andréa Felipe, revelou como o centroavante reagiu ao diagnóstico.
– Ele foi ficando desanimado, não queria mais treinar. Ficou com um pouco de vergonha dos amigos, do que falavam, sei lá... Eu não entendia direito porque ele se fechou muito – recordou à época.
O ge entrou em contato com Andréa, que preferiu não se manifestar.
As famílias de Gerson e de Silas eram muito próximas. A dupla se conhecia desde as convocações para as seleções de base. Juntavam juntos com frequência. Mas nem nesses momentos o atacante se abria.
– Já éramos amigos da Seleção e andávamos juntos, mas não falávamos nada (sobre o tema) – conta Silas.
O ex-meia respeitava a privacidade do amigo, mas nunca o deixou desamparado. Silas levava Gerson para realizar o tratamento.
– Acho que se chamava AZT a injeção que eles tomavam naquela época. Eu o acompanhei algumas vezes para tomar a injeção – recorda.
Brilho final e despedida precoce
Apesar do abalo físico e psicológico, Gerson foi fundamental na conquista do Inter da Copa do Brasil de 1992. Marcou nove gols na campanha e terminou como o artilheiro da competição pela terceira vez na carreira nas quatro primeiras edições do torneio.
Em fevereiro de 1993, Gerson balançou as redes pela última vez em um amistoso contra um combinado de Capão da Canoa, praia do litoral norte do Rio Grande do Sul.
Um mês depois, esteve em campo no duelo pela Libertadores diante do Nacional de Medellín, mas não aguentou até o final. Já debilitado, acabou vaiado pela torcida ao ser substituído.
Afastado dos gramados por complicações de saúde, Gerson foi internado no Hospital Conceição, em Porto Alegre, com um edema cerebral. Em setembro, recebeu passe livre e deixou o Inter.
Em março de 1994, já em São Paulo, foi novamente internado, com neurotoxoplasmose. Dois meses depois, no dia 17 de maio, Gerson morreu aos 28 anos.
– Ficamos aqui em Vicente de Carvalho sem ajuda do Internacional. Nem os pêsames me deram, não entraram em contato, nada. Foi um descaso. Eu não entendo o que passou na cabeça deles e eu fiquei sem receber nada – afirmou a viúva ao UOL.
A diferença entre HIV e aids
Embora frequentemente associados, HIV e aids não são a mesma coisa: o HIV é o vírus, enquanto a aids é a doença causada por ele. O HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana) ataca e enfraquece o sistema imunológico, responsável por proteger o corpo de doenças.
Uma pessoa infectada pelo HIV é considerada soropositiva, mas isso não significa necessariamente que ela desenvolveu ou desenvolverá a doença, visto que o vírus pode permanecer inativo ou sob controle no organismo durante muitos anos.
A aids (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida), por sua vez, é o estágio mais avançado da infecção pelo HIV. Ela se manifesta quando o sistema de defesa está gravemente comprometido, deixando o organismo vulnerável a doenças oportunistas.
Graças aos avanços da medicina e ao uso contínuo dos medicamentos, é perfeitamente possível viver com o HIV, com qualidade de vida e sem jamais desenvolver a aids, ou mesmo transmitir o vírus em alguns casos.
De acordo com o Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025, divulgado pelo Ministério da Saúde, entre 1980 e setembro de 2025 foram registradas 1.679.622 pessoas com HIV ou aids no Brasil.
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