Coronel Sapucaia
Alemã morta em queda de avião dedicava pesquisas aos tamanduás no Pantanal
Lydia Möcklinghoff estudava a fauna de Mato Grosso do Sul e atuava em pesquisas sobre espécies silvestres
BRUNA MARQUES / CAMPO GRANDE NEWS
Lydia Theresia Möcklinghoff, de 45 anos, uma das vítimas do acidente aéreo registrado na manhã desta sexta-feira (3), no Aeroporto Santa Maria, em Campo Grande, era zoóloga, ecóloga tropical, bióloga comportamental e jornalista científica alemã. Com forte ligação com o Pantanal, ela dedicou parte importante da carreira ao estudo da fauna brasileira, especialmente dos mamíferos da planície pantaneira.
Lydia tinha mestrado em Zoologia pela Universidade de Würzburgo, na Alemanha, e cursava doutorado em Zoologia pela Universidade de Bonn, também na Alemanha, com tese intitulada “Conservação dos mamíferos no Pantanal'. Ela era membro do Grupo de Pesquisa em Ecologia Tropical do Museu de Pesquisa Zoológica Alexander Koenig, em Bonn, e da CO.BRA, Computational Bioacoustics Research Unit.
- Leia Também
- Piloto e pesquisadora alemã morreram em queda de aeronave em Campo Grande
- “Virou caixinha de fósforo', diz bombeiro sobre avião que caiu em Campo Grande
Sua atuação era voltada principalmente à ecologia tropical, ao comportamento biológico e ao monitoramento automatizado da biodiversidade de mamíferos do Pantanal mato-grossense. Em campo, Lydia passava longos períodos no Brasil em expedições científicas, muitas delas em áreas alagadas e remotas da planície pantaneira, com foco na conservação de espécies e habitats ameaçados.
Além do Pantanal, Lydia também realizou pesquisas no norte do Brasil e em uma floresta tropical de montanha no Panamá. No país da América Central, trabalhou com o povo Naso na documentação de espécies ameaçadas, em uma tentativa de impedir projetos de construção de barragens. O objetivo de suas pesquisas era contribuir para estratégias mais eficientes de proteção da biodiversidade.
Ela também atuava como guia de natureza, autora, palestrante e jornalista. Produzia e apresentava o podcast “Tierisch!', da Weltwach, e também foi apresentadora de um podcast da revista GEO. Como autora freelancer, trabalhou em projetos para rádio e televisão, incluindo produções ligadas ao programa “A Sendung mit der Maus'.
Nos conteúdos que produzia, abordava temas como vida selvagem, ciência, biodiversidade e conservação. Em um dos episódios sobre o Brasil, apresentou o país como o maior da América do Sul, conhecido pelo futebol, pelo carnaval, pela diversidade cultural e pelos contrastes sociais das grandes cidades. O episódio também tratava do Pantanal, descrito como a maior área úmida da Terra, da vida de pecuaristas em meio à natureza e da luta de povos indígenas pela preservação de sua cultura.
Como especialista em biodiversidade e proteção de espécies, Lydia era convidada frequente em programas de rádio e televisão. Suas palestras e apresentações de divulgação científica receberam prêmios. Ela também escreveu os livros “Ich glaub mein Puma pfeift' e “Die Supernasen', com ilustrações e fotos próprias.
No centro de seu trabalho estava a tentativa de aproximar o público da zoologia e da importância da conservação ambiental. O Pantanal e a vida selvagem brasileira ocupavam papel central nessa trajetória.
Cerca de 16 horas antes do acidente, Lydia havia publicado no Instagram um vídeo feito da janela de um avião que deixava o Rio de Janeiro.
Amizade construída no Pantanal - O Campo Grande News conversou, na manhã de hoje com a médica veterinária Flávia Miranda, professora da Universidade Estadual de Santa Cruz, em Ilhéus (BA), e fundadora e presidente do Instituto Tamanduá.
Flávia disse que conhecia Lydia Theresia Möcklinghoff havia mais de 10 anos e que mantinha uma relação muito próxima com a zoóloga alemã. “Eu tinha uma relação muito boa com ela. Ensinei ela um monte de coisa, ela me ensinou'.
Segundo Flávia, Lydia estudava tamanduás no Pantanal e fez o doutorado na Barranco Alto, no Pantanal do Rio Negro.
“Ela fez o doutorado dela com os tamanduás lá na Barranco Alto e o Instituto Tamanduá era o parceiro dela para fazer as coletas, as capturas. A gente capturou vários tamanduás para ela', relembrou.
Flávia contou que Lydia conheceu o Instituto Tamanduá por causa do projeto com tamanduás. A pesquisadora entrou em contato pedindo apoio para trabalhar no Brasil.
De acordo com Flávia, o trabalho de Lydia envolvia o estudo do comportamento dos tamanduás com uso de câmera trap.
A amiga comentou que Lydia vinha ao Pantanal com frequência, especialmente para a Barranco Alto, onde também atuava como guia para estrangeiros.
“Ela vem sempre, vem com frequência, trabalhava até de guia estrangeira lá'.
A última conversa entre as duas havia ocorrido há menos de um mês, segundo Flávia, mas ela disse não se lembrar do assunto. Ao ser informada da morte de Lydia no acidente aéreo em Campo Grande, Flávia reagiu com choque e incredulidade.
“Mentira! Não estou acreditando. Nossa, estou até passando mal aqui. Ai, meu Deus'.
Flávia também disse que conhecia o piloto Henrique Martins, que conduzia a aeronave no momento da queda e também morreu no acidente.
Acidente - Na manhã de hoje, o avião decolou do Aeroporto Santa Maria, em Campo Grande, com destino a Aquidauana, a 141 quilômetros da Capital.
Os destroços foram localizados por um funcionário do hangar, que fazia buscas a pé desde as primeiras horas da manhã. O avião estava do lado direito da pista, em uma área de mata próxima ao Condomínio Atlântico.
Conforme consulta ao RAB (Registro Aeronáutico Brasileiro), da ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil), a aeronave de matrícula PT-WYQ aparece como modelo NEIVA EMB-810D, fabricada em 1983, com situação normal. O CVA (Certificado de Verificação de Aeronavegabilidade) tem validade até 4 de junho de 2027.
O registro informa ainda que o avião estava autorizado para voo IFR (regras de voo por instrumentos) noturno, modalidade em que a navegação pode ser feita com apoio dos instrumentos da aeronave, inclusive à noite. Não há gravame apontado, ou seja, não consta restrição financeira ou jurídica sobre o avião.
Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.



