Coronel Sapucaia
Cinco são presos em MS por tráfico interestadual e lavagem de dinheiro
Operação mira grupo suspeito de abastecer o Distrito Federal e ocultar patrimônio com empresas de fachada
BRUNA MARQUES E GENIFFER VALERIANO / CAMPO GRANDE NEWS
Cinco pessoas foram presas em Mato Grosso do Sul durante a Operação Fornitore, deflagrada pela Polícia Civil do Distrito Federal na manhã desta quinta-feira (18) para combater tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e associação para o tráfico. No Estado, os mandados foram cumpridos em Campo Grande, Ponta Porã e Bela Vista, na região de fronteira.
Ao todo, a operação cumpriu 15 mandados de prisão e 20 de busca e apreensão em quatro unidades da federação: Mato Grosso do Sul, Goiás, Distrito Federal e Pará. A ação mobilizou 120 policiais.
Segundo o delegado Paulo Fernando Coppi, de Brasília, em entrevista ao Campo Grande News na sede do Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubos a Bancos, Assaltos e Sequestros), o grupo investigado montou uma estrutura para movimentar e ocultar dinheiro do tráfico.
“Os envolvidos fizeram uma ampla engenharia criminosa, utilizando contas de fachada de terceiros para lavar o dinheiro, oriundo do tráfico de drogas, adquirindo bens de luxo e fazendo o transporte de droga, abastecendo o Distrito Federal', explicou.
Em Mato Grosso do Sul, a ação teve apoio de policiais do Garras, além da Dracco (Delegacia de Repressão ao Crime Organizado) do Distrito Federal. As diligências ocorreram em residências dos alvos, já que as empresas investigadas seriam de fachada.
Em Campo Grande, foram cumpridos dois mandados de prisão, contra um homem e uma mulher. Em Bela Vista, um casal foi preso. Em Ponta Porã, uma mulher também acabou detida. Os alvos têm entre 30 e 40 anos e não tiveram os nomes divulgados pela polícia.
Durante o cumprimento dos mandados em Mato Grosso do Sul, a polícia também apreendeu duas armas de fogo. Uma delas foi encontrada em Campo Grande, com um dos investigados, o que levou à prisão em flagrante dele. A outra foi apreendida em Bela Vista, também resultando em flagrante.
Além das armas, foram recolhidos celulares, notebooks, documentos e anotações. O material será analisado pelos investigadores e pode ajudar a detalhar a movimentação financeira, os contatos e a divisão de tarefas do grupo.
O delegado Roberto Guimarães, do Garras, afirmou que um dos presos em Campo Grande é considerado um dos principais alvos da operação. “Ele já teve passagem por tráfico de drogas, receptação e outros crimes também. Foi preso em 2018 pela Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico), então já é recorrente no tráfico de drogas', disse.
A operação contou com três equipes do Garras em Campo Grande, uma equipe em Bela Vista e uma equipe da Delegacia de Polícia Civil em Ponta Porã.
De acordo com o delegado Paulo Fernando Coppi, o grupo atuava na logística do tráfico, levando drogas da fronteira até o entorno do Distrito Federal. “Eles utilizavam a casa cofre e depois distribuíam no Distrito Federal e no estado de Goiás, então, é tráfico interestadual de drogas e eles tinham poder aquisitivo bem alto', afirmou.
As investigações apontam que integrantes do grupo adquiriram bens de luxo, como carros de alto valor. No entanto, em Campo Grande e no restante de Mato Grosso do Sul, nenhum bem de valor elevado foi apreendido durante a ação.
Parte dos alvos no Estado é apontada como “laranja'. No contexto da investigação, laranja é a pessoa usada para emprestar o nome, contas bancárias, documentos ou empresas a terceiros, com o objetivo de esconder quem realmente controla o dinheiro, os bens ou os negócios.
Segundo a polícia, há empresas de fachada envolvidas no esquema. O grupo atuaria dessa forma há pelo menos cinco anos e vinha sendo investigado há cerca de um ano e meio.
Durante as investigações, foram feitas apreensões de drogas vinculadas aos alvos da operação. Conforme a polícia, alguns dos investigados não foram presos em flagrante porque não manuseavam diretamente os entorpecentes.
“Mas eles não caíram no flagrante porque ele era o patrão. Não colocava a mão na droga, só mandava', disse o delegado, ao se referir a um dos líderes presos na operação.
Em Mato Grosso do Sul, houve o sequestro de um imóvel. No total, sete imóveis foram sequestrados na ação desta quinta-feira. Eles estão localizados em Bela Vista (MS); São José do Rio Preto (SP); Caldas Novas (GO); e no Distrito Federal (DF), onde há dois imóveis atingidos pela medida judicial.
A Operação Fornitore segue com foco na identificação do patrimônio do grupo e na estrutura usada para lavar dinheiro obtido com o tráfico de drogas.
Enquanto a reportagem esteve na sede do Garras, uma prima de um dos alvos de Campo Grande aguardava informações sobre a prisão. Ela relatou que os policiais entraram na casa dele durante a madrugada e disse que esperava a chegada de um advogado, porque ainda não sabia o motivo da detenção. Segundo ela, na delegacia, a família não havia conseguido esclarecimentos sobre o caso.
Em uma conversa por telefone, a mulher afirmou que, por causa do horário da ação, o investigado chegou a pensar que a casa estivesse sendo invadida por ladrões. Ela também relatou que, durante a análise de documentos, os policiais perguntaram se ele vendia roupas, o que foi confirmado pelo próprio alvo, conforme a versão da familiar.
À reportagem, a prima disse que o homem já tinha passagens criminais, mas afirmou que ele havia cumprido a pena e que, segundo ela, não se envolvia mais com atividades ilícitas. A familiar declarou não entender o motivo da prisão.
Investigação - A apuração que deu origem à Operação Fornitore começou em 2023, conduzida pela Polícia Civil do Distrito Federal, por meio da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado. Segundo a investigação, fases anteriores já haviam alcançado lideranças e executores de uma facção com origem no Distrito Federal. A etapa deflagrada nesta quinta mira o elo apontado como responsável pelo fornecimento em maior escala e pelo transporte interestadual da droga.
A polícia sustenta que o grupo tinha divisão de funções. A suspeita é de que uma liderança estratégica comandasse parte das ações à distância, usando documentos falsos e pessoas interpostas para reduzir a própria exposição. Na base da estrutura, ficariam operadores encarregados de guardar, fracionar e distribuir os entorpecentes no Distrito Federal e no entorno.
A investigação também cita a prisão anterior de uma das lideranças do esquema, em dezembro de 2025, em Redenção, no Pará. O homem estava foragido desde 2008, após condenação a mais de 30 anos de prisão por triplo homicídio, e, conforme a polícia, continuava ligado à articulação do tráfico mesmo fora do Distrito Federal.
O inquérito relaciona o grupo a apreensões anteriores de grande volume, entre elas mais de seis toneladas de maconha no início de 2023 e cerca de duas toneladas apreendidas posteriormente em Mato Grosso do Sul. Esses episódios são usados pela polícia como indicativo da capacidade logística da organização investigada.
Além dos imóveis sequestrados, a Justiça autorizou o bloqueio de contas bancárias pelo Sisbajud (Sistema de Busca de Ativos do Poder Judiciário) até o limite de R$ 1 milhão por investigado ou empresa vinculada ao caso. Também houve afastamento dos sigilos fiscal e financeiro de pessoas físicas e jurídicas suspeitas de participação no esquema.
Fora de Mato Grosso do Sul, as diligências ocorreram no Distrito Federal, nas regiões administrativas de Taguatinga, Ceilândia e Recanto das Emas, e em Goiás, nos municípios de Novo Gama, Caldas Novas, Anápolis e Abadiânia, em Goiás . A operação teve apoio da PCGO (Polícia Civil de Goiás) e da Divisão de Operações Especiais da Polícia Civil do Distrito Federal.
Os investigados poderão responder, conforme a participação atribuída a cada um, por tráfico interestadual de drogas, associação para o tráfico, organização criminosa e lavagem de capitais. Somadas, as penas previstas para esses crimes podem passar de 40 anos de prisão.
Fornitore é uma palavra de origem italiana que significa fornecedor, prestador de serviços ou provedor.
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