• Sábado, 13 de Junho de 2026

Brasil de Ancelotti e Vini Jr: com tempo perdido e ciclo reduzido, dá pra ganhar a Copa?

Seleção chega à Copa do Mundo de 2026 com uma contradição curiosa: vive seu melhor momento desde 2022 e, ainda assim, dentre as maiores equipes, é uma das menos preparadas

GLOBOESPORTE.COM / CABRAL NETO


Vinicius Junior e Raphinha estão entre os mais valiosos da seleção brasileira Brasil Panamá — Foto: Rafael Ribeiro / CBF

A Seleção Brasileira chega à Copa do Mundo de 2026 carregando uma contradição curiosa. Vive seu melhor momento desde 2022 e, ainda assim, dentre as maiores equipes, é uma das menos preparadas em termos de ciclo.

Poucas seleções importantes desperdiçaram tanto tempo entre uma Copa e outra. Depois da eliminação para a Croácia, no Catar, o Brasil passou mais de dois anos trocando ideias, treinadores e prioridades sem conseguir estabelecer uma identidade clara. Ramon Menezes, Fernando Diniz e Dorival Júnior representaram caminhos diferentes, mas nenhum deles deixou um legado aproveitável. Quando Carlo Ancelotti estreou, em junho de 2025, a sensação era de que o relógio havia sido reiniciado.

Um ciclo de preparação que poderia ter tido quase quatro anos, mas teve apenas um.

Não é exagero.

Enquanto os principais concorrentes utilizavam o período para consolidar conceitos, desenvolver lideranças e amadurecer mecanismos coletivos, a Seleção Brasileira parecia viver em permanente estado de improvisação. O trabalho que deveria ter começado em dezembro de 2022 só foi retomado, de fato, em junho do ano passado.

É justamente por isso que a chegada de Carlo Ancelotti assume uma dimensão muito maior do que a simples contratação de um treinador.

O italiano não chegou apenas com títulos. Ele desembarcou com algo ainda mais raro: a capacidade de acelerar processos sem comprometer resultados.

Em uma seleção que desperdiçou tanto tempo, isso vale ouro.

Cinco vezes campeão da Liga dos Campeões, vencedor das cinco principais ligas da Europa e acostumado a conviver diariamente com alguns dos maiores jogadores da história recente do futebol, Ancelotti construiu uma reputação singular.

Ao contrário dos treinadores que enxergam o sistema como protagonista, Ancelotti sempre enxergou os jogadores como ponto de partida. Seus times não são reconhecidos por um desenho específico, uma pressão característica, uma ideia revolucionária ou uma saída de bola padronizada. São reconhecidos pela inteligência com que potencializam seus melhores atletas.

Ter esses padrões táticos bem definidos não é, necessariamente, um defeito de nenhum profissional, mas as características de Ancelotti são fundamentais para encontrar os atalhos que o Brasil precisa nesse momento.

Foi se adaptando ao elenco e inovando ideias que ele encaixou o Milan de Kaká e Pirlo.

E fez o mesmo no Real Madrid de Cristiano Ronaldo e depois com Vinicius Junior, Bellingham e Rodrygo.

E provavelmente será assim na seleção brasileira.

Essa característica é especialmente valiosa para uma seleção que teve pouco tempo para construir mecanismos coletivos refinados, mas possui talento suficiente para competir com qualquer adversário do mundo.

Por isso, quem espera uma inovação tática talvez esteja olhando para o lugar errado.

Não haverá revolução no jeito de jogar, mas a evolução já começou.

Potencializar o talento individual e explorar toda a capacidade dos jogadores parece simples.

Mas o Brasil não conseguiu fazer isso nos últimos anos.

E, certamente, hoje tem o treinador com a maior capacidade de atingir esse objetivo.

Nenhum jogador simboliza melhor essa nova fase do que Vinicius Junior.

Nos últimos anos, o atacante deixou de ser uma promessa extraordinária para se transformar em um dos principais nomes do futebol mundial. Sua capacidade de acelerar o jogo, atacar espaços e decidir confrontos de altíssimo nível o colocou definitivamente entre os atacantes mais temidos do planeta.

Esse salto de qualidade, entre o Vinicius que prometia para o Vinicius que brilha foi no Real Madrid de Ancelotti.

A Seleção Brasileira nunca conseguiu reproduzir a mesma versão de Vinicius que encanta a Europa.

Não por falta de qualidade.

Muitas vezes, por falta de contexto.

Durante anos, a equipe tentou lhe encaixar em estruturas que não exploravam sua principal virtude: atacar espaços em velocidade.

Ele recebeu a missão de resolver problemas que não eram seus. Atuou em equipes sem equilíbrio, sem conexões claras e frequentemente distante dos cenários que potencializam suas melhores características.

Ancelotti conhece esse caminho melhor do que ninguém.

Mais do que um grande jogador, Vinícius chega à Copa como a principal arma ofensiva do Brasil.

Ele não precisa ser adaptado ao sistema. O sistema é que precisa ajudá-lo.

Hoje, ele corre menos sem a bola. Não tem a responsabilidade de voltar marcando pelo corredor esquerdo. Sua área de influência, com a bola, alterna entre a ponta e o centro do campo, sempre buscando a aproximação da área adversária. Mas na recomposição, ele se junta ao centroavante na linha mais ofensiva para sofrer menor desgaste e reservar energia para decidir jogadas.

E Neymar?

Nenhuma convocação gerou tanto debate quanto a de Neymar.

E com razão.

Suas atuações recentes pelo Santos não justificariam uma convocação baseada exclusivamente em desempenho. Desde a grave lesão sofrida contra o Uruguai, em outubro de 2023, Neymar não conseguiu estabelecer uma sequência compatível com o nível exigido por uma seleção candidata ao título mundial.

A convocação não se apoia no que ele produziu.

Aposta no que ainda pode produzir.

Ancelotti não procura o Neymar explosivo que desequilibrava em velocidade. Procura o jogador capaz de desacelerar o jogo quando todos querem acelerar.

E, nesse elenco da Seleção Brasileira, faltava esse jogador.

Um cara capaz de ampliar o controle da posse de bola, com visão de jogo, passe entre linhas e bola parada.

Com a capacidade de “colocar o pé na bola', fazer o jogo respirar, reduzir a velocidade da partida quando necessário.

Em uma seleção construída para atacar espaços com Vinícius, Martinelli, Luiz Henrique, Raphinha, Matheus Cunha e Endrick, ter alguém capaz de organizar o caos pode ser extremamente valioso.

Isso não significa que Neymar será protagonista.

Significa apenas que ele pode ser útil.

E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.

O time de Ancelotti pode ser dividida por pares:

Vinicius Junior e Raphinha

Vinicius é o relâmpago, Raphinha é a tempestade.

Vini rasga o campo e decide jogos em segundos; Raphinha dita o clima do jogo por mais tempo.

Raphinha chega talvez no auge técnico e mental da carreira.

Produz gols, cria oportunidades, participa da construção, pressiona sem a bola e mantém intensidade durante os noventa minutos.

Poucos atacantes combinam tanta intensidade defensiva, inteligência tática, criatividade e capacidade de decisão. Em torneios curtos, jogadores assim costumam se tornar indispensáveis porque ajudam a equipe mesmo quando não vivem seus melhores dias tecnicamente.

Casemiro e Bruno Guimarães

O meio-campo parece viver seu momento mais sólido desde a Copa do Catar.

Casemiro voltou a transmitir a sensação de segurança que marcou os melhores momentos de sua carreira.

Sem a mesma potência física de alguns anos atrás, mas continua entregando algo que poucos conseguem oferecer: leitura de jogo, liderança e capacidade de competir sob pressão.

Em Copa do Mundo, essas características frequentemente valem tanto quanto qualquer qualidade técnica.

Ao seu lado, Bruno Guimarães assume um papel cada vez mais central.

Se Casemiro oferece sustentação, Bruno dá fluidez.

É ele quem conecta defesa e ataque, acelera transições, aproxima setores e organiza o jogo nos momentos de maior pressão.

Sua evolução nos últimos anos transformou o meio-campista em uma das referências técnicas da equipe.

Em muitos momentos da Copa, a qualidade das decisões de Bruno poderá determinar o ritmo que o Brasil pretende impor nos jogos.

Marquinhos e Gabriel Magalhães

Defensivamente, poucas seleções chegam à Copa com uma dupla de zaga tão consolidada.

Marquinhos continua sendo um dos defensores mais inteligentes do futebol mundial.

Sua leitura dos espaços, capacidade de antecipação e entendimento dos momentos do jogo fazem dele muito mais do que um simples marcador. É um organizador silencioso da linha defensiva.

Além disso, carrega uma experiência rara em competições de alto nível e uma trajetória repleta de títulos.

Ao seu lado, Gabriel Magalhães vive provavelmente o melhor momento da carreira.

Dominante fisicamente, agressivo nos duelos, extremamente seguro pelo alto e cada vez mais confortável na construção das jogadas, o zagueiro chega ao Mundial consolidado entre os principais nomes de sua posição.

É difícil achar um zagueiro que tenha jogado melhor que ele nessa última temporada.

A combinação entre a inteligência de Marquinhos e a força competitiva de Gabriel oferece ao Brasil algo fundamental para qualquer candidato ao título: uma base defensiva confiável.

E Copas do Mundo costumam ser decididas justamente por equipes que sabem ser atacados sem perder organização.

As duplas nas laterais

Ancelotti indica que enxerga as laterais como funções complementares, e não como posições isoladas.

A tendência é que a escolha dos titulares passe por um princípio de compensação: quando um dos lados oferece maior agressividade ofensiva, o outro garante mais sustentação na construção e no equilíbrio defensivo da equipe.

Inicialmente, Wesley parecia ser a peça ideal para cumprir esse papel mais ofensivo. Pela direita, sua capacidade de atacar espaços, acelerar as transições e dar profundidade ao jogo permitiria ao treinador alternar constantemente o lado mais agressivo da equipe.

Com seu corte, porém, esse cenário muda. Sem outro lateral de características semelhantes à disposição, Ancelotti passa a contar majoritariamente com jogadores de perfil mais defensivo. Entre as opções convocadas, Douglas Santos surge como o único lateral com características mais claras de apoio ao ataque, enquanto Alexsandro, Ibañez e Danilo oferecem maior solidez na construção e na marcação.

Isso reduz parte da flexibilidade que o treinador parecia buscar para o setor. Se Douglas Santos atuar pelo lado esquerdo, a tendência é que o corredor oposto seja ocupado por um jogador mais conservador, como Danilo ou Ibañez, formando uma estrutura mais equilibrada e segura sem a bola.

Danilo, no entanto, pode representar uma alternativa intermediária. Embora hoje seja um jogador mais associado à organização defensiva e à construção, ao longo da carreira atuou diversas vezes como um lateral de maior participação ofensiva. Dependendo das necessidades da partida, ele pode receber liberdade para avançar mais e oferecer apoio pelo lado direito, ainda que sem reproduzir a mesma explosão e profundidade que Wesley proporcionaria.

Mais do que escolher os melhores laterais individualmente, a ideia parece ser encontrar a combinação que ofereça o maior equilíbrio coletivo possível dentro das características disponíveis.

São ajustes aparentemente pequenos, mas que revelam uma característica marcante dos grandes trabalhos de Ancelotti: adaptar a estrutura às peças que tem à disposição, preservando o equilíbrio sem abrir mão da flexibilidade.

A dupla que disputa posição

Se existe uma dúvida relevante na equipe, ela continua no gol.

Não em relação a titularidade, mas sobre desempenho.

Alisson é o titular e permanece sendo um goleiro de elite. Ederson segue oferecendo uma construção de jogo que poucos conseguem reproduzir.

Mas ambos chegam cercados por questionamentos legítimos.

As lesões recentes de Alisson e a irregularidade apresentada por Ederson criaram incertezas.

Além das duplas

Outros jogadores aparecem com relevância na Seleção Brasileira.

Matheus Cunha, por exemplo, talvez seja o jogador que melhor simboliza as tendências do futebol moderno.

Ele não é exatamente um centroavante.

Também não é exatamente um meia.

Nem um segundo atacante.

Mas ele funciona em qualquer posição do ataque e entende o jogo como poucos.

Tem feito uma função híbrida, marca na ponta esquerda; arma e ataca pelo centro do campo.

Ele é capaz de criar, pressionar, flutuar entre linhas e oferecer soluções diferentes para cada contexto de partida.

Ancelotti sempre apreciou atletas assim.

Na reta final da preparação, outros nomes ampliaram o leque de possibilidades.

Endrick continua parecendo um fenômeno em construção.

Existe algo de raro em sua personalidade competitiva. Algo que não pode ser treinado. Sua explosão física, sua confiança e a potência absurda de sua finalização fazem dele um daqueles atacantes capazes de mudar uma partida em poucos segundos.

Igor Thiago também aproveitou bem suas oportunidades recentes.

Sua presença física, capacidade de pressionar a saída adversária e eficiência dentro da área oferecem características diferentes das demais opções ofensivas do elenco.

Não chega como protagonista, mas amplia o leque de alternativas para Ancelotti.

Quem vai começar a Copa no banco, mas chega com cara de que vai terminar como titular é o meia Danilo.

Ele em em grande ascensão, jogando com um refinamento invejável no Botafogo e atropelou a fila dos convocáveis na reta final da preparação da Seleção.

Sua inteligência para ocupar espaços, resistir à pressão adversária e manter a circulação da bola oferece uma alternativa importante para diferentes contextos de jogo.

Seu estilo entrega algo que Ancelotti valoriza profundamente: controle tático e equilíbrio coletivo, sem perder dinamismo.

Não é o elenco mais talentoso da história recente do Brasil.

Mas reúne jogadores consolidados na elite mundial, jovens capazes de decidir partidas e veteranos acostumados à pressão dos grandes torneios.

Ainda assim, seria exagero colocá-lo no nível de Espanha, França, Portugal ou Inglaterra.

O Brasil chega um degrau abaixo.

Ancelotti teve apenas um ano para fazer um trabalho que normalmente exigiria pelo menos quatro.

Nenhum treinador faz milagres.

Mas poucos são tão capazes de encontrar atalhos.

Se o Brasil será campeão, ninguém sabe.

A Copa do Mundo costuma cobrar detalhes e continua sendo o torneio mais imprevisível do esporte.

Mas, depois de quase três anos desperdiçados, a Seleção Brasileira voltou a ter uma rota.

Existe um plano e um time tomando forma.

Pode não ser suficiente para conquistar o hexacampeonato.

Isso não transforma ninguém em campeão antecipado.

Mas já é suficiente para devolver ao torcedor a sensação que o Brasil voltou a parecer um time.

E a história do futebol mostra uma verdade simples: quando o Brasil volta a parecer Brasil, o mundo inteiro presta atenção.



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