Coronel Sapucaia
Os buracos da cidade e a copa do mundo
ANDRé ALVEZ (*) / CAMPO GRANDE NEWS
Havia dias que um gato vadio apareceu na vida de Antônio. A solidão lhe era de bom gosto, homem solteiro e pai de filhos criados e sumidos na vida, sentimento que acabava durante os jogos da Copa do Mundo, quando sentia a necessidade de se unir aos amigos para torcer pela seleção brasileira, prática que cumpria desde 1978.
Funcionário antigo, Antônio morava numa casa nos fundos da empresa, feita especialmente para ele, assim que ficou sozinho no mundo. Sem perceber, além de patroleiro, era também vigia, sem receber sequer um tostão a mais.
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O despertador fez Antônio pular da cama e se vestir ligeiro, o dia era importante, além dos buracos, precisava tratar assuntos urgentes com o patrão. Atravessando o pátio, sorriu ao perceber que o gato o seguia. Nunca teve intimidades com animais, mas aquele bicho resolveu acompanhar seus passos feito um bêbado cego, desde o dia que lhe jogou nas patas o resto de uma coxinha de galinha .
Os outros funcionários o aguardavam com ansiedade.
- Vai lá Antônio, resolva para nós essa pendenga.
- Seja forte, amigo, não aceite resposta negativa.
Após diversos tapas nas costas e olhares de confiança, ficaram do lado de fora, perto da porta, à espera de notícias, abraçados no sentimento de total ansiedade quando ele bateu a porta e entrou na sala da diretoria. O gato vadio o acompanhou, assanhado, desfilando entre suas pernas.
- Bom dia, o senhor me chamou, patrão?
- Ah sim, sente-se senhor Antônio, por favor.
Olhos bem abertos, ajeitando a camisa e o boné, pensou iniciar a conversa fazendo uma brincadeira:
- É alguma coisa grave, patrão?
- Grave?
- Sim...o último que o senhor pediu para se sentar aqui foi mandado embora...
- Não, não é isso Antônio, você é funcionário antigo e sabe manejar a patrola.
- O único.
- Oi?
- Sou o único que sabe manobrar a patrola
- Sim, claro, sim, sim...
- É uma patrola muito antiga, dos tempos do Pedrossian.
- Sim, sei disso, mas a manutenção está em dia.
- Está porque eu que faço. E sem despesas para a empresa. – disse Antônio, erguendo o corpo, a cabeça inclinada para o lado, o par de sobrancelhas hirtas encarando o patrão –
- Sim, sim, exato... Mas você teve aumento por isso.
- Tive? Nem lembro. Talvez na Copa passada...
- Bom, eu também não lembro, mas não importa, chamei você aqui por outro motivo.
O patrão começava a grisalhar, os olhos arregalados, o corpo se mexendo na cadeira. Percebendo o desajeito, Antônio tentou outra brincadeira:
- Será que o patrão vai me oferecer um aumento?
Silêncio de segundos. Depois os dois caíram na risada.
- Antônio, meu bom Antônio, é sobre essa coisa de folgar nos dias dos jogos da seleção...Já chegou aos meus ouvidos essa intenção da turma e só vai servir para atrapalhar o andamento da operação tapa buracos. Você sabe, tem mais buracos que asfalto inteiro pela cidade.
Antônio arregalou os olhos, no rosto começou a despertar uma espécie de fúria, pensou sair da sala, mas se conteve.
- O senhor não é brasileiro?
- Claro que sim, Antônio, mas veja, os jogos da seleção não são mais importantes que tapar os buracos da prefeita...
Interrompendo o patrão, as sobrancelhas ainda mais hirtas, ligeiramente molhadas de suor, alteou levemente a voz:
- Estamos tratando da seleção brasileira, pentacampeã do mundo, será possível que nem na Copa do Mundo a gente pode acompanhar nosso escrete sem ser incomodado?
- Mas Antônio...
- Não tem mas, nem mais...
A sala ficou em silêncio por segundos. Antônio tamborilou os dedos na mesa do patrão, vagamente se lembrou que tinha outro assunto a tratar, mas essa lembrança esvaiu-se ao imaginar que precisava comprar ração para o gato vadio e lhe dar um nome. Balançou a cabeça, imaginou que o outro assunto fosse exatamente sobre o gato vadio e isso podia esperar. Seus pensamentos foram embora ao se dar com o rosto sorridente do patrão, como se já esperasse por aquela reação e tivesse a resposta decorada.
A voz do patrão saiu calma:
- Os jogos da seleção serão à noite. E o primeiro no sábado. Antônio, você é de minha confiança, precisamos tapar os buracos da prefeita, você sabe, são muitos e não estamos dando conta.
Antônio afrouxou os ombros:
- Só ontem tapei dezessete.
- Então, meu querido, precisamos tapar uns trinta por dia. Jogos da seleção têm sempre, buracos espalhados desse tanto pela cidade só nos tempos do Bernal.
Antônio ficou quieto por instantes, mas retornou incomodado:
- Ah, mas não vou conseguir me concentrar nos buracos da prefeita se tem jogo da seleção!
- Os jogos serão à noite e no sábado. Os buracos estão por aí, o dia todo, de segunda a domingo, só esperando nossa patrola...
Antônio respirou fundo, voltou a erguer o corpo na cadeira, encarou o patrão como se tivesse diante de um potente adversário:
- E daí se os jogos serão à noite? O senhor não acha que existe toda uma preparação psicológica para assistir um jogo da seleção na Copa do Mundo? Eu, por exemplo, não saberia nem onde fica o botão de ligar a patrola no dia dos jogos.
Foi a vez do patrão erguer os ombros:
- Olha Antônio, se fosse só você, eu nem ligaria, sabe como é, lhe tenho grande consideração, você trabalhou com meu finado pai.
- Sim, seu Ozório, seu saudoso pai, nas copas do mundo ele pintava a calçada da empresa de verde e amarelo, enchia de bandeirolas a empresa inteira, comprava rojões, vinho, cerveja, assava carne...
- Outros tempos, Antônio, outros tempos. Hoje em dia, mais do que antes, time is money.
- Quê? Como é? Taime o quê?
- Tempo é dinheiro, Antônio. O mundo ficou muito competitivo, não é como antes. E lembre-se, foi meu pai que te ensinou a manobrar a patrola, te deu uma profissão.
Antônio abaixou a cabeça, pensativo:
- Ele tinha uma moto Honda CB 400 e nunca me deixou pilotar...
- Ah Antonio, ele não deixava ninguém chegar perto daquela moto, nem mesmo eu.
- Olha patrão, vamos voltar para o assunto da seleção na copa do mundo, eu não vou vir e está acabado, se quiser dar falta, pode dar, não ligo.
- Mas Antonio, você é essencial, não tem como fazer o trabalho sem a patrola... E o pior, os outros funcionários vão querer faltar também, vamos todos cair nos buracos da prefeita...
- Porque só eu sei pilotar a patrola. Se eu faltar, os outros nem precisam vir.
A testa do patrão brilhou nesse instante, pensou sair da discussão central, resolveu partir para o elogio:
- Você é muito importante, Antônio.
- Estou com férias vencidas...
- Sim, sim, tem isso, eu sei, tem isso sim...
- Então, só descontar das férias.
- Antonio, eu não posso ficar sem meu patroleiro! Quando acabarem os buracos, você entra de férias. Está vendo só, é mais um motivo para não faltar por causa da seleção.
Antonio não se mostrou convencido:
- Jogo da seleção na Copa do Mundo é o momento que mais me sinto brasileiro, patrão, já estou com o peito ardendo só de pensar na hora do hino. Eu sou dos tempos do Zico, do Romário, até o Pelé vi um pouquinho.
O patrão pousou a mão direita em concha apoiando o queixo, encarando o empregado:
- Faz assim, me escala a seleção brasileira. Se você acertar o time titular, pode faltar, até compro uma caixa de cerveja bem gelada para você...
- A escalação?
- Sim
- Da seleção?
- Exatamente
- Bom, eu...tem aquele guri negro, bom de bola do Real Madrid...
O patrão sorriu levemente:
- Você não sabe nem o nome do principal jogador do time. Vamos, eu quero o time todo, do goleiro ao ponta esquerda...
- Tem o...aquele que jogou no Botafogo...O zagueiro do Flamengo...tem também o....
- Você não sabe nada da seleção, Antônio. E os buracos, como ficam?
- Mas e a camisa amarelinha? Eu sou igual o Zagalo, a amarelinha é mais importante que tudo.
O patrão se levantou da cadeira num supetão, os olhos cansados, a testa riscada de rugas.
- Vamos combinar uma coisa, você dá um jeito de tapar pelo menos trinta buracos por dia e folga no sábado.
- Mas e os dias dos jogos durante a semana?
- Serão à noite, Antônio!
- Ah, mas psicologicamente só estarei atento à patrola até o meio dia.
O patrão enxugou com um lenço a testa suada e se deu por vencido:
- Se até o meio dia você tapar os buracos, pode ir embora depois do almoço.
- Meus colegas também?
- Se tapar os quarenta buracos até o meio dia, podem folgar depois do almoço;
- Não era trinta?
- Pensando melhor, durante a semana vou precisar de mais dez. Você sabe, a prefeita está ficando braba e...
- Está bom, combinado! Quarenta buracos tapados nos dias da semana e trinta no sábado.
- Sim, sim, combinado.
- Tudo bem, vamos fechar assim, vou falar com meus companheiros de lida, eles vão aceitar.
Apertaram as mãos, não assinaram nenhum papel, era assim desde os tempos do pai do chefe.
Antonio foi saindo da sala do chefe levando no rosto um misto de vitória e compreensão. Os amigos da empresa ainda o aguardavam na antessala, os olhos sedentos de respostas: Januário, o segundo funcionários mais antigo, se meteu entre eles rompendo o silêncio:
- Então Tonho, diga logo, ele topou?
Antônio sorriu e postou as duas mãos sobre os ombros de Januário:
- Sim, ele aceitou. Mas vamos ter que tapar pelo menos quarenta buracos da prefeita por dia.
- Claro que vamos, a gente consegue!
Os funcionários gritaram hurras, se abraçaram, alguns não conseguiram conter as lágrimas.
Antônio foi se afastando aos poucos, levando consigo os passos desconfiados do gato vadio.
Naquele dia taparam mais de quarenta buracos.
Só à noite, na mesa do jantar, permitiu a dúvida abrasar, porque naquele exato instante, enquanto seu corpo descansava no sofá, lhe veio à mente o outro assunto que precisava resolver com o patrão. E a dúvida começou a latejar nos seus pensamentos: será que o pessoal da firma estava tão feliz por causa dos jogos da seleção ou fizeram confusão ao imaginar que o sim que havia trazido de dentro da sala do patrão tinha a ver com o fim da escala 7 por 1?...
Suspirou fundo, engoliu algo parecido com um soluço, balançou a cabeça e falou para o brilho do seu próprio rosto refletido no copo de cerveja gelado: primeiro os buracos, depois os jogos da seleção, a nova escala se vê depois, afirmou para si numa voz de arroto, enquanto o gato sem nome lhe roçava as pernas. Coçou a cabeça do bicho e ganhou um ronronar carinhoso.
- Seu nome será Vini Junior – Disse para o animal, que nem lhe deu bola, a cabeça metida numa tigela, a língua áspera roçando o pedaço da coxa de galinha que seu novo dono havia lhe dado para comer.
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