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Efeito borboleta na Copa: a relação aleatória entre Renato Gaúcho e Vozinha, goleiro de Cabo Verde
Nascido durante a Copa de 1986, goleiro quarentão da seleção cabo-verdiana se chama Josimar por causa de um efeito dominó que começou com o corte de Renato na Seleção
GLOBOESPORTE.COM / RAPHAEL BóZEO
O pai do goleiro, Zé Pedro, revelou que a primeira opção de nome era uma homenagem ao argentino Jorge Valdano, mas as regras de registro de Cabo Verde barraram a escolha, abrindo caminho para a homenagem ao brasileiro Josimar.
O goleiro cabo-verdiano Josimar 'Vozinha' foi batizado em homenagem ao lateral brasileiro Josimar, que ganhou espaço na Copa de 1986 após o corte de Renato Gaúcho por indisciplina.
No dia 3 de junho de 1986, quatro dias depois do início da Copa do Mundo do México que teria a Argentina como campeã mundial, nascia em Mindelo, na ilha de São Vicente, em Cabo Verde, um menino que, 40 anos depois, defenderia o gol da seleção cabo-verdiana na primeira Copa da história do seu país.
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O nome que ele carrega até hoje, Josimar, não veio de um santo, de um avô ou de um padrinho. Veio de uma sequência improvável de acontecimentos que começou a milhares de quilômetros dali, em Belo Horizonte, e que tem no centro um velho conhecido do torcedor brasileiro: Renato Gaúcho.
Essa história de muitas camadas começa com uma decisão tomada na Seleção Brasileira, atravessa o Atlântico, batiza o goleiro Vozinha e reserva novos capítulos desse efeito borboleta que vamos descobrir aqui.
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O churrasco que mudou a Copa
Enquanto uma mulher cabo-verdiana chamada Ana Candida Évora se preparava para ter o filho do outro lado do oceano, mais precisamente na ilha de São Vicente, em Cabo Verde, o Brasil se preparava para a Copa do Mundo de 1986. Vamos entender a relação que encontra esses dois fatos, já que um efeito borboleta curioso cruzou o Atlântico e formou a identidade do goleiro titular de Cabo Verde, seleção que estreia no próximo dia 15 de junho, contra a Espanha, nos Estados Unidos.
Mas, afinal, o que é efeito borboleta? É simples e fascinante. A metáfora que mais representa esse conceito é que o bater de asas de uma borboleta pode causar um furacão do outro lado do mundo. Ou seja, numa cadeia de acontecimentos, um gesto pequeno e aparentemente sem importância pode provocar uma consequência enorme e imprevisível. O conceito é do meteorologista e matemático americano Edward Lorenz, um dos pais da Teoria do Caos.
Agora voltamos à preparação da Seleção Brasileira para a Copa de 86, na Toca da Raposa, em Belo Horizonte. Telê Santana comandava a Seleção Canarinha. Numa folga, Renato Gaúcho e Leandro, lateral-direito campeão mundial pelo Flamengo, saíram para um churrasco e voltaram depois do horário combinado.
A quebra de disciplina resultou no corte de Renato Gaúcho. E o que isso tem a ver com Vozinha? Já vamos entender o "bater da asa da borboleta" nessa história. Renato foi cortado e Leandro, sentindo que houve injustiça e em solidariedade ao amigo, recusou-se a embarcar para o México, mesmo tendo sido perdoado pelo treinador.
O cometa Josimar
A desistência de Leandro abriu uma vaga na lateral-direita. Josimar, do Botafogo, foi convocado como reserva do titular Édson Boaro. Aí o destino começou a se mexer. E sem que ninguém percebesse, um traço desenhado pelas asas da borboleta ligaria a Seleção Brasileira de 1986 à história de Cabo Verde. Édson se contundiu e Josimar ganhou a posição durante a Copa.
O que veio depois entrou para a história das Copas. Josimar fez dois golaços de fora da área, um contra a Irlanda do Norte e outro contra a Polônia, ambos no Estádio Jalisco, em Guadalajara (veja acima). As duas pinturas renderam ao lateral uma vaga na seleção do torneio. Mesmo com a eliminação do Brasil para a França nas quartas de final, Josimar foi um dos grandes personagens daquele Mundial.
Agora algo importante: guarde o nome Guadalajara. Ele volta nesta improvável história.
O nome que atravessou o Atlântico
Em pouco mais de um mês, o quase anônimo lateral virou destaque mundial. E o seu nome cruzaria o oceano para batizar um menino recém-nascido. Enquanto Josimar brilhava no México, Zé Pedro, pai do bebê e militar cabo-verdiano, acompanhava a Copa longe de casa. O filho acabara de nascer em Mindelo, e o registro ainda estava em aberto. Foi Zé Pedro quem, à distância, definiu o nome. E mandou duas opções para casa.
A primeira homenageava o campeão daquele Mundial Jorge Valdano, o ex-atacante argentino, mas as autoridades cabo-verdianas não autorizaram. Restou a segunda opção, inspirada no brasileiro que encantava o México: Josimar.
"Durante a Copa do Mundo de 1986, quando nasci, meu pai fez essa homenagem. Acho que o Josimar era lateral-esquerdo e que fazia gols pela extrema direita, foi por isso que meu pai me deu esse nome. Meu pai foi muito claro em relação a isso", conta Vozinha.
Um pequeno detalhe afetivo: o goleiro troca a posição do seu xará. Josimar era, na verdade, lateral-direito, e foi justamente pela direita que fez os dois golaços. Mas quem nasceu batizado por um gol tem todo o direito de contar a própria história do seu jeito.
- Eu estava fora de casa em uma outra ilha de Cabo Verde prestando serviço militar, na Ilha de Santiago. O registro do nome dele aconteceu só depois da Copa. Aqui em Cabo Verde há uma classificação, regulamentação de nomes que devem ser aceitos. Tem regras, às vezes deixam e outras vezes não. Já pensando nisso, mandei dois nomes para casa - disse o pai do Vozinha, Zé Pedro, em entrevista por telefone, já que ele está em outra ilha de Cabo Verde diferente da reportagem do ge.
"O primeiro seria Jorge Valdano, que foi rejeitado. Tanto que até hoje, na família, chamamos ele de Dani. Eu admirava os jogadores brasileiros como Sócrates, Alemão, Zico. Era uma seleção de luxo e me agradou muito ver o Josimar jogar", complementou.
Foi assim que o menino de São Vicente passou a se chamar Josimar José Évora Dias. O apelido carinhoso de "Vozinha" vem depois. Criado pelos avós Maria Senhorinha dos Santos e Manuel da Luz Moraes (quem levava o goleiro para os campos de futebol), o menino jogava bola com os mais velhos e seu espírito competitivo o fazia voltar para casa bravo depois de uma pancada ou outra. Os amigos brincavam que ele ia correndo pedir socorro aos avós. Foi quando nasceu o apelido "Vozinha", que agora ganha o mundo na sua primeira Copa.
O elemento quase mágico: de volta ao México
Agora a história ganha mais uma camada encantadora. Lembra de Guadalajara? Foi lá, no Estádio Jalisco, que Josimar fez os dois gols que acabaram batizando Vozinha. Os contornos desse efeito borboleta não acabaram e há novos impactos completamente curiosos que podem acontecer. A Copa de 2026 tem o México como uma das sedes, ao lado de Estados Unidos e Canadá.
Os três jogos de Cabo Verde na fase de grupos estão marcados para os Estados Unidos: estreia contra a Espanha em Atlanta (15 de junho), depois o Uruguai em Miami (21 de junho) e a Arábia Saudita em Houston (26 de junho), esta última, das três, a cidade mais próxima do México.
Mas aqui vem o detalhe que faz o roteirista do destino gargalhar. Caso os Tubarões Azuis avancem ao mata-mata como um dos melhores terceiros colocados, um dos caminhos possíveis do chaveamento leva Cabo Verde ao Estádio Azteca, na Cidade do México, no dia 30 de junho, contra o vencedor do Grupo A, chave que tem o anfitrião México, além de Coreia do Sul, República Tcheca e África do Sul.
Ou seja: o Josimar de Cabo Verde pode terminar a sua trajetória de Copa exatamente onde tudo começou, no México, o país que, de algum modo, faz parte da escolha da sua identidade como ser humano.
O círculo se fecha
Quatro décadas depois, Josimar "Vozinha" vai disputar a sua primeira Copa do Mundo por Cabo Verde. A simetria é quase poética: ele nasceu durante a Copa de 1986 e agora vive a sua primeira Copa justamente numa edição que volta ao México. Curiosamente, a relação com a sua identidade tem uma associação emblemática com aquela noite mal dormida por Renato Gaúcho e Leandro na Toca da Raposa.
- No mundo do futebol sou conhecido como Vozinha, então é um nome (Josimar) que acho que não será posto em ninguém. Acho que a vida é isso: trabalhar para escrever o nosso nome e, se for lembrado por alguma causa, vai ser satisfatório - diz o goleiro, que mandou um vídeo para a nossa equipe de reportagem, direto dos Estados Unidos.
Se Renato Gaúcho não tivesse sido cortado em 1986, Leandro embarcaria para o México, Josimar não estaria na Copa, não havia os golaços e Vozinha hoje, certamente, teria outro nome.
Veremos as cenas dos próximos capítulos, já que o efeito borboleta da bola nunca acaba e Vozinha pode aparecer em solos mexicanos, quem sabe inspirando um novo Josimar que nasce pelo mundo durante a Copa do Mundo de 2026.
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