Coronel Sapucaia
Bryan largou CLT para lucrar com "pastel de flango" e ser patrão
Negócio familiar era motivo de bullying e ele tentou fugir, mas fez de barraca uma "fábrica" de sucesso
NATáLIA OLLIVER E ALETHEYA ALVES / CAMPO GRANDE NEWS
Vai fritar pastel, japonês'. “Pastel de flango'. “Suco de lalanja'. Eu tinha vergonha. Na escola era bullying e tiração e, hoje, estamos fazendo sucesso'.
Agora, Bryan Seiti Inoue, de 34 anos, relembra tudo isso rindo, mas as frases dos colegas e os apelidos o fizeram querer fugir do legado dos pais: vender pastel nas feiras. Bom, pelo menos por um tempo.
Anos depois de se jogar no mercado de trabalho para não acabar cheirando a fritura, ele acabou voltando justamente para o lugar de onde correu. Mas, dessa vez, como patrão e sem vergonha de ganhar dinheiro com pastel. Formou-se em administração de empresas, mas não pensou duas vezes ao largar a CLT para empreender.
Conhecida há 37 anos pela qualidade da massa e pelo sabor, a ideia era justamente fazer uma fábrica de pastel. Foram anos vendo que o negócio poderia crescer. Bryan via que a massa do pai tinha mais potencial no mercado. Ele queria fazer com que a barraca saísse da informalidade e passasse a ter o famoso CNPJ (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica).
“Antes de assumir o legado dos meus pais, eu estudei, fiz faculdade e tudo porque eu queria sair da feira, não queria trabalhar com isso na época porque não dava tanto dinheiro e eu tinha vergonha também. Adolescente e todo aquele bullying. Eu tinha vergonha. Eu falei: não, vou estudar e sair desse ramo'.
Em 2017, o que ainda era apenas uma barraca que vendia 50 kg de massa por semana, com máquinas antigas e muita força bruta, se transformou em uma fábrica de pastel capaz de produzir mais de 1 tonelada por mês, com maquinário moderno e menos esforço para o pai de Bryan, Leizo Inoue.
Aos 81 anos, ele ainda faz questão de comparecer a todas as feiras do bairro Guanandi e participar de parte da produção em casa, onde o filho construiu a fábrica. Falando na feira, por lá, o japonês é conhecido como Paulo desde que a barraca Inoue começou, há 37 anos.
“Estou nessa área, graças a Deus, é o nosso sustento. Hoje a gente emprega mais de 10 famílias. Isso é motivo de muito orgulho. O que era bullying e tiração, hoje estamos fazendo sucesso. É um orgulho fazer parte dessa tradição. Quero manter o legado por mais gerações'.
Descendente de japoneses, Bryan cresceu vendendo pastel com os pais, mas foi na adolescência que o peso das 'brincadeiras' sobre a nacionalidade e os pastéis teve impacto. Não havia outro caminho para alcançar o que ele considerava sucesso que não fosse estudar para ganhar mais dinheiro e não passar pelo que os pais passavam. Mas a realidade da vida pós-faculdade de administração de empresas não foi do jeito que ele esperava.
“Fiz pós-graduação em didática e metodologia de ensino superior. Na pós-graduação, eu dava aula de logística, teoria geral da administração, informática. Eu fui me arriscar, depois de formado, a trabalhar fora. Fiz estágio em uma casa de embalagem e ganhava bem pouquinho. Consegui dar aula em cursos técnicos integrais. Em 2014 e 2015, eu trabalhei como contratado, minha carga horária durava 12 horas. Achei que, saindo da feira, teria sucesso profissional'.
A virada veio quando largou a CLT e se jogou no empreendedorismo. Apesar de o negócio não ser novo, administrar depois de formado foi. Os pais faziam tudo com a experiência que conquistaram ao longo dos anos.
“Quando minha mãe ficou doente e quase morreu, pensei em voltar para ajudar, mas falei para o meu pai sobre ter autonomia nas coisas e na administração. Em 2017, eu assumi de vez a feira e abandonei a escola. E aí eu comecei a usar o que eu aprendi na faculdade. Colocar algumas coisas em prática. Foi aí que a gente começou a se estruturar melhor. Deu um ‘boom’ de venda, comecei a contratar, a comprar maquinário, fazer estrutura de empresa'.
Para ele, ter largado a carteira de trabalho e virado patrão foi a melhor decisão que poderia ter tomado. “A gente era pobre, isso foi a melhor coisa que eu fiz na vida financeiramente. Já consegui até viagem para a Europa fritando pastel. Sou pós-graduado e vendo pastel'.
Bryan faz questão de ser o patrão amigo. Gosta de falar com os funcionários, ouvir os problemas quando chegam e ajudar como pode. Ele comenta que ganhou 14 “filhos' depois que virou empreendedor.
“O que ninguém vê na vida do empreendedor é isso. Eles têm uns problemas que acabam vindo para a fábrica, a gente dá conselho. Empreender não é fácil, mas é muito gratificante. É prazeroso fazer além deles ganharem dinheiro, aconselhar e estar ali'.
Apesar de estar à frente da barraca, Bryan conta que não larga o batente, a parte de atendimento e até fritar pastel quando precisa. “Eu trabalho junto. Porque a gente tem que estar sempre ativo, por mais funcionário que tenha. Meu pai diz que a gente tem que estar no lugar de trabalho: ‘o olho do dono que engorda o gado’, ele fala. A gente está sempre aqui, não importa dia ou horário. A gente tem que liderar, não mandar'.
Do Japão às feiras
A história da barraca começou em 1988, quando o Sr. Leizo, ou Paulo, e Sumie Inoue decidiram largar a vida em São Paulo para arriscar uma nova profissão em Campo Grande: ser feirante e vender pastel. Nas feiras, Sumie também ganhou um novo nome: Márcia.
O primeiro a sair do Japão para fazer feira, vendendo legumes e verduras, foi o tio, que depois convocou o irmão, pai de Bryan. Antes de embarcar na ideia, a família trabalhou na lavoura em outras cidades.
“Meus pais colhiam laranja em Lins e algodão e café em Assaí, no Paraná. Meu tio veio arriscar a vida aqui em Campo Grande vendendo verduras. Meu pai veio para Campo Grande em 1988 e começou a trabalhar com meu tio. Em 1989, ele começou a vender pastel para muitos lugares e todo mundo migrou para o pastel na família. Somos todos feirantes'.
Depois que o tio, Massaru Ito, perdeu a esposa em 2025, a família o acolheu na barraca e ele voltou a trabalhar na feira. Tinha parado em 2020.
“Ele vendia verduras na época, depois viu que fritar pastel dava mais dinheiro e nunca parou. Antigamente, quando era minha mãe e meu pai fritando pastel e eu atendendo, a gente produzia cerca de 50 kg por semana. Hoje, passamos de 1 tonelada por mês, estamos próximos de 2 toneladas. Em época de festa junina, vende muito pastel e, com a fábrica, a gente fornece e abastece muitas delas, padarias e lanchonetes.'
Ele conta que, só no domingo, na feira do Guanandi, venderam quase 1.300 pastéis, fora as coxinhas e quibes. A conta na semana sobe para quase 4 mil unidades vendidas. Os sabores são os tradicionais: carne, queijo, frango com catupiry, bauru e pizza.
A barraca da família Inoue percorre as feiras de Campo Grande de terça a domingo. Na terça-feira, o atendimento é no bairro Coophavila II; na quarta, na Orla Morena; na quinta-feira, no Rita Vieira; e, na sexta, no Nova Bahia. Aos sábados, a família atende pela manhã no Coophasul e, à noite, no Jacy. Já no domingo, a barraca está no Guanandi, com a presença de Leizo.
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