Coronel Sapucaia
Não era amor, era cilada
LAURA BRITO (*) / CAMPO GRANDE NEWS
No início deste ano viralizou nas redes a história de uma senhora que teria ido ao aeroporto de Erechim/RS esperar o Brad Pitt, acreditando que se casaria com ele. A história lançou uma “trend' na internet e, de repente, todo mundo estava postando montagens com o ator de Hollywood.
Pode parecer engraçado, mas não é. Não estou aqui como palmatória do mundo para julgar quem achou graça da situação. Estou aqui para alertar que se trata de um assunto seríssimo.
No início deste ano viralizou nas redes a história de uma senhora que teria ido ao aeroporto de Erechim/RS esperar o Brad Pitt, acreditando que se casaria com ele. A história lançou uma “trend' na internet e, de repente, todo mundo estava postando montagens com o ator de Hollywood.
Pode parecer engraçado, mas não é. Não estou aqui como palmatória do mundo para julgar quem achou graça da situação. Estou aqui para alertar que se trata de um assunto seríssimo.
O primeiro é que você saiba que ninguém, ninguém mesmo, está imune a esses golpes. Existem call centers de golpistas, organizados de maneira empresarial, com scripts validados. À medida que o golpe avança, são mobilizados agentes mais experientes para o “fechamento da venda'. São contatos que parecem espontâneos em redes sociais, que passam para mensagens privadas e, rapidamente, chegam ao WhatsApp. Ali, há uma captura afetiva do interlocutor e, em seguida, os pedidos de transferência de dinheiro. Há os casos, ainda, em que a conexão acontece por promessas de grandes ganhos financeiros, só que dependem de sucessivos depósitos por parte de quem está do lado real da conversa.
É claro que existem momentos da vida que nos vulnerabilizam para esse tipo de golpe: envelhecimento, solidão, rompimentos, perda de emprego. Mas isso não significa que exista um único perfil da vítima. Por isso, repito: ninguém está fora da rota desses criminosos. Portanto, esses casos não devem gerar zombaria, mas muita atenção.
O segundo pedido que faço é que não negligenciem sintomas de adoecimento mental – seu ou de alguém próximo. Ao primeiro sinal de mudança brusca de comportamento, de pequenos delírios, histórias desconexas, muita reclusão e muito tempo vidrado no celular (esses golpes acontecem por WhatsApp), acenda um sinal de alerta. Busque saber o que está efetivamente acontecendo. Não é “normal para a idade'. Não devemos nos constranger em procurar saber o que está realmente acontecendo com um familiar vulnerável.
Você não tem coragem de confrontar seu pai que está colocando sal demais na comida mesmo sendo hipertenso? Não manda que ele faça exames e vá ao médico? A mesma coisa deve ser feita com os sintomas da saúde mental. E não é para incentivar a meditar e tomar chá, não. É para procurar psicólogo e, especialmente, um psiquiatra. Por falta de informação, por tabu das questões mentais, por falta de atenção (estamos todos muito absorvidos com tantas demandas), as famílias estão demorando para intervir e, quando o fazem, os prejuízos já podem ser grandes demais. Nestes casos, a intervenção tem que ser rápida, antes que o buraco fique muito fundo.
Em terceiro lugar, peço que tenha coragem de tomar medidas proporcionais à gravidade desses golpes e ao profissionalismo dos golpistas. Essas situações, quando instaladas, não se resolvem com conversa. Não adianta explicar o que está acontecendo, racionalizar ou fazer combinados com quem está hipervulnerável em sua saúde mental. Se a pessoa realmente acha que está se relacionando com o Brad Pitt, você vai racionalizar o quê?
Nesses casos, a curatela, medida que terceiriza a gestão financeira de pessoas incapacitadas, pode impedir levantamento de aplicações, esvaziamento de contas, venda de bens e tomada de empréstimos. Tudo isso é muito comum nesses golpes. As cifras são muito impressionantes e a espera pela melhora sem tomar uma providência pode ser catastrófica. A pessoa pode ter transferido para os golpistas toda a sua poupança para a velhice.
Se a esperança da família é que a situação se reverta, excelente. Isso não impede que medidas proporcionais sejam tomadas. A curatela sempre pode ser levantada. Mas o golpe dificilmente pode ser revertido. E os relatos de arrependimento posteriores são devastadores. O pior é que a pessoa se questiona como ninguém fez nada para impedir, mesmo vendo o que estava acontecendo.
Esteja certo de não estou falando de um motivo de piada. Estou falando de uma epidemia de golpes, um problema social e coletivo. E devemos combatê-lo como sociedade. Esteja atento às pessoas a sua volta, especialmente aquelas que estão em momentos de vulnerabilidade psíquica. Fale do assunto com a seriedade que ele merece. E, principalmente, não subestime a capacidade dessas máfias dos golpes por mensagem.
O golpe se consolida não com a primeira transferência. Ele se enraíza é com a nossa falta de reação.
(*) Advogada especialista em Direito de Família e das Sucessões, possui doutorado e mestrado pela USP e atua como professora em cursos de Pós-Graduação, além de ser palestrante, pesquisadora e autora de livros e artigos na área
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